Cultura

Mais uma polémica no país das homenagens à bruta

A junta de freguesia de São Martinho de Anta, vila natal de Miguel Torga, gerou polémica ao ‘profanar’ a raiz centenária de um negrilho que foi como um amigo de infância do poeta, e que este imortalizou nos seus versos.

A praga de filoxera tem condenado os olmos negros – ou negrilhos, como são conhecidos popularmente –, que estão hoje praticamente extintos na nossa paisagem, mas que deixaram marcas, pela imponência frondosa, com aquelas flores pequenas, frutos secos e alados, atraindo aldeias de pássaros, gestações rituais. Um mestre da inquietação, chamou-lhe Miguel Torga, porque teve convivência com um na sua vila natal, São Martinho de Anta (Sabrosa), e lembrando-se dele de sempre, tomava-o como imortal, capaz de adormecer o imenso. Isto até que a árvore centenária foi atacada, acabou definhando quando também o poeta se abeirava do fim dos seus dias. Esperou ainda ver plantado naquele mesmo largo um outro negrilho, e tentou fazê-lo, para que as gerações futuras pudessem conhecer esse modo de se descer a noite do céu, ou ver erguer-se a madrugada, com o sol a acender-se. Mas o novo negrilho não vingou. Torga manteve com a árvore o diálogo de uma admiração amadurecida, e imortalizou ao seu jeito, falando num «redil de estrelas ao luar maninho», de um «gigante a sonhar, bosque suspenso/ onde os pássaros e o tempo fazem ninho». O que ficou foi a raiz, em si mesma uma obra de arte da natureza, diz ao SOL a filha do poeta, Clara Crabbé Rocha.

 E esta semana, sob pretexto de uma homenagem no dia em que faria 113 anos, na quinta-feira, a junta de freguesia de São Martinho de Anta, lembrou-se de usar a raiz como base para uma escultura do rosto do escritor transmontano, uma intervenção feita por Óscar Rodrigues. De acordo com o presidente da junta, José Gonçalves, a raiz estava a entrar em podridão, e houve, assim, uma súbita urgência de fazer alguma coisa. Para a filha, trata-se de uma profanação que envergonharia o pai, se fosse vivo, tendo sugerido a tempo que, a ser feita uma homenagem, a raiz devia ter sido preservada, protegida das intempéries por um vidro, e, o poema do pai seria gravado sobre esse vidro, respeitando-se a sobriedade daquela convivência, ao invés de desfigurar a raiz e também o rosto do poeta.

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