Sociedade

Algarve. Novas espécies na costa portuguesa

Corvina americana e caranguejo azul são algumas das espécies que têm surgido na costa algarvia. Explicação de biólogos e investigadores para aparecimento não coincide. Nos Açores, também foram detetadas novas espécies.

 

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Com a temperatura do mar a rondar os 26 graus na costa algarvia, em pleno mês de agosto, o aparecimento de espécies marinhas exóticas ou subtropicais não surpreende biólogos e investigadores. Mas o mesmo não acontece no que diz respeito às espécie invasoras. A corvina americana, o caranguejo azul, a caulerpa – género de algas marinhas – e a medusa do Mar Negro são as quatro espécies que mais têm surgido na costa algarvia nas últimas semanas, mas a explicação para o seu aparecimento não gera consenso. Para os biólogos, poderá estar relacionado com a temperatura do mar, com as alterações climáticas ou até mesmo com as correntes marítimas. Mas para os investigadores o surgimento destas espécies está relacionada com a água de balastro dos navios – que é colocada nos barcos para os equilibrar quando navegam sem carga. 

 "Há dois grupos dessas novas espécies. No caso da corvina americana, é uma espécie invasora, tal como o caranguejo azul. A corvina americana terá chegado cá através dos navios grandes que têm de colocar água para equilibrar as cargas. Muitas vezes isso transporta organismos. Foi detetada em Portugal em 2016, no Algarve. Depois há outras espécies, que não deverão ser consideradas invasoras, mas com o aumento das temperaturas têm chegado a algumas das nossas ilhas. Pode dizer-se que são exóticas. O caranguejo azul também tem chegado ao Algarve e é uma espécie invasora", começou por dizer ao SOL João Encarnação, investigador envolvido no projeto NEMA, que tem como objetivo aumentar o conhecimento sobre algumas espécies marinhas não-nativas que são novas na costa sul de Portugal.

E, ao contrário do que têm dito os biólogos, defende que a temperatura da água do mar em nada estará relacionada com as espécies invasora. "A chegada das espécies invasoras não terão a ver com a temperatura da água do mar, mas sim com os navios. As outras espécies sim. A água vai aquecendo e eles vão desviando para Norte", sublinhou, fazendo alusão às espécies subtropicais que também se têm visto na costa algarvia: verme de fogo, peixe verde, rascasso da Madeira são aquelas que têm surgido mais.

No entanto, de acordo com Telma Costa, bióloga marinha da associação Quercus, o aparecimento das espécies invasoras poderão também estar relacionados com a temperatura da água ou com as correntes marítimas. "Apesar de investigadores dizerem que pode vir nos navios, a corvina americana poderá estar muito associada às correntes martítimas e ao facto do aumento da temperatura da água do mar. Com as alterações climáticas não há barreiras e não há fronteiras no mar. Podem deslocar-se para outros sítios onde nunca tenham sido vistos. É algo que tem vindo a acontecer em Portugal já há alguns anos. Tanto no caso da corvina americana como o caranguejo azul", revelou ao SOL, adiantando que o longo período de tempo em que a temperatura da água se apresenta a 26 ou 27 graus no Algarve não é normal. 

"Daquilo que vi, penso que as temperaturas que estão a apontar é à volta dos 26 ou 27 graus. Penso que a própria temperatura é normal. O que não é normal é o período em que se regista essa temperatura, porque têm sido muitos meses com essa temperatura da água. Poderá ter a ver com as alterações climáticas também", reforçou.

 

Novas espécies nos Açores

Também no arquipélago dos Açores têm surgido novas espécies. Em maio, as costas das ilhas dos Açores registaram quantidades significativas de caravelas portuguesas. E, nas últimas semanas, foi registado o aparecimento de outras espécies.

"Nos Açores, sei que também há novas espécies. Mas é tudo na mesma base. Nas ilhas, também há esses dois tipos de espécie: as invasoras e as subtropicais", avançou João Encarnação. E Telma Costa acrescentou: "É normal haver também caravelas portuguesas nos Açores. Está relacionado com as correntes marítimas e com a temperatura da água. É normal haver situações dessas. Também é normal interditarem as praias por causa disso", rematou a bióloga marinha.