Contra a Corrente

'Racismo' e outras coisas

Fossem brancos, pretos, amarelos ou verdes, os homens de todo o mundo, independentemente de ‘etnias’, de ‘nacionalidades’, religião ou tradições culturais, identificavam-se por essas referências, isto é, pela classe social, por ser explorador ou explorado, opressor ou oprimido.

Lembro-me quando, em criança, lia maravilhado aquelas histórias da vida de Cristo e, muito especialmente, aquela sobre a difusão do cristianismo, quando, numa terra qualquer, alguém de uma dada cor de pele e vestido de forma ‘esquisita’, desenhava no chão de areia, com o seu cajado, uns estranhos traços arredondados; então, discretamente, alguém de uma outra cor de pele e com vestimentas diferentes, aproximava-se e, com um pau, completava o desenho surgindo a forma de um peixe. Os homens, então, sem palavras (já que falavam línguas diferentes), abraçavam-se como irmãos que se haviam desencontrado há muito. Haviam deixado de se considerar ‘diferentes’, talvez mesmo ‘adversários’ ou ‘inimigos’, para se reencontrarem como Iguais, como irmãos unidos pela mesma ética humana, comprometidos, ambos, em criar um ‘mundo’, uma sociedade humana única, baseada na paz, na harmonia e na felicidade de todos.

Esta é uma das histórias fundadoras da minha personalidade e militância cívica. Algum tempo mais tarde, esse sonho esboroou-se ao verificar que os padres da igreja cristã se empanturravam de lebres e perdizes nas casas dos agrários alentejanos enquanto as famílias dos trabalhadores só tinham pão duro para comer.

Mais tarde, já jovem adulto, vim a descobrir uma teoria sobre a sociedade humana segundo a qual os grandes fatores de identificação humana e a linha divisória dos conflitos mundiais eram o capital e o trabalho. Fossem brancos, pretos, amarelos ou verdes, os homens de todo o mundo, independentemente de ‘etnias’, de ‘nacionalidades’, religião ou tradições culturais, identificavam-se por essas referências, isto é, pela classe social, por ser explorador ou explorado, opressor ou oprimido.

O único antagonismo que seria necessário vencer antes de se chegar à fraternidade universal proposta por Cristo, era o antagonismo entre classes. À conjugação de interesses dos membros do capital (que se realizava só e sempre que o seu domínio está a ser posto em causa), responderam os trabalhadores de todo o mundo com o seu próprio internacionalismo.

Com o fracasso do ‘socialismo real’, os trabalhadores de todo o mundo ficaram ‘sem chão’ e o capital tomou o freio nos dentes. Para que não ficasse ‘pedra sobre pedra’, o capital e todos os seus sistemas provocaram a atomização social (aquela que leva à vilania generalizada, à dissolução das famílias e à morte solitária dos velhos em ‘lares/velhões’) como forma de nunca mais poder haver um fator de identidade que se lhe oponha.

As referências de identidade ‘superiores’ que ficaram depois da derrota da identificação por classe social, foram as grandes religiões. A católica, cada vez mais erodida, pede socorro ao Papa Francisco; a protestante, utilitarista e ‘frugal’, mostra-se vencedora; ainda no âmbito do cristianismo, a ortodoxa, para não desaparecer, contribui para uma Mãe-Pátria russa forte e autónoma; mesmo assim, já levou ’uma talhada’ com a separação da parte ucraniana. A muçulmana, que podia conjugar muitos dos povos mais pobres na luta contra o capital, foi deliberadamente ‘partida aos bocadinhos’, matando-se, sob a direção do capital, uns aos outros. Quanto aos judeus, aparentemente na mó de cima, não sei se não se perderão no próximo túnel da história. O budismo, o hinduísmo e o confucionismo, mostram-se ‘asiáticos’ e não dispostos a aceitar centros de poder exógenos.

As sociedades laicas, foram-se partindo em múltiplas fragmentos e miseráveis tribos, conforme o gosto da ‘nova liberdade liberal’: os LGBT, os góticos, os benfiquistas, os ‘nortenhos’, os ‘de esquerda’, os ‘de direita’, os ‘moderados’, os da ‘classe média’ (os proletários que têm emprego), os ‘verdes’, ‘animalistas’, os ‘racistas’, os ‘antirracistas’, etc., todos sem conteúdo que valha um tostão, manobrados pela ‘comunicação social’ do capital e, em conformidade, dispostos a andar à trolha uns com os outros. Assim, ‘eles’ nem precisarão de criar campos de extermínio para a liquidação dos ‘excedentes’…

Ora o ‘caminho da salvação’ é exatamente ao contrário: é o da unidade e da luta, com base nos valores éticos, pela derrota do ‘diabo’ e pela construção de uma humanidade única, de uma Pátria universal.