Tautologias

Quem é fascista?

Dizem que Ventura não é o que diz ser. Respondo que a História não avança à força de intenções inconfessadas. Hitler não podia ter dito com mais clareza ao que vinha. O que aconteceu foi que quase ninguém quis acreditar no que ele dizia. E não é tão claro o que o BE e o PCP nunca deixaram de dizer?

«Eu é que decido quem é judeu».
Karl Lueger, presidente
da Câmara de Viena
de 1897 a 1910

 

Troque-se a epígrafe ‘judeu’ por ‘fascista’ e teremos o critério dominante nas redes sociais para identificar um fascista.

‘Fascismo’ é hoje um libelo que os inimigos da liberdade usam para intimidar os que não se submetem. ‘Fascistas’ passaram a ser todos os que não aceitam as imposições do extremismo nas variantes estalinista ou trotskista.

Anátema multiplicado por idiotas úteis sem a mínima ideia do que foi o fascismo real, usada mesmo contra os que combateram ativamente a Ditadura.

Tática que não é nova, pois está inscrita na história do comunismo. O que fazem hoje os inimigos da liberdade é deslocalizar o termo e o fantasma para um tempo e uma realidade material em que é impossível o fascismo afirmar-se.

Para se perceber o que é o fascismo – e avaliar se existe hoje o perigo de um retorno que ameace a democracia –, teremos de colocar a questão na perspetiva histórica. Não se pode usar o termo para movimentos políticos que não apresentam as características do fascismo histórico (ou revelam mesmo características opostas a ele).

Tratou-se de um fenómeno político que se impôs na Itália entre as duas guerras mundiais e foi adotado em formas mais extremas ou mitigadas por outros partidos e regimes surgidos no mesmo período – sendo vencido e enterrado em 1945.

O estigma lançado pelos partidos comunistas contra os que na oposição democrática combatiam o fascismo minou na Itália e na Europa a luta pela democracia. Afetou também em Portugal o combate à Ditadura de Salazar. E tenta hoje perverter ou reverter as liberdades alcançadas, que os comunistas tentaram aliás impedir.

O primeiro momento em que se terá verificado essa acusação falsa de fascismo a combatentes da liberdade foi na década de 1924-34, na Itália, quando os comunistas acusaram os antifascistas socialistas, republicanos, liberais, democratas e conservadores de serem fascistas. Receita repetida também entre nós pelos comunistas antes e depois do 25 de Abril, até hoje.

Mais tarde, em 1951, contrariado pela exclusão dos socialistas dos governos democrata-cristãos depois de 1947, também um socialista cederia à tese comunista de que o perigo do totalitarismo na Itália não era representado pelos nostálgicos do fascismo mas pela democracia-cristã – que liderava o país com um governo de De Gasperi, antifascista católico que, como muitos outros, combatera o regime fascista até à sua queda.

Mas como caracterizar o fascismo verdadeiro?

O fascismo preconiza um regime de partido único, o culto do chefe com a concentração de todos os poderes nas suas mãos – político, económico e cultural. O fascismo é nacionalista, arregimentador das massas cujos interesses pretende ‘diretamente’ representar (e determinar), expansionista, repressivo de todas as correntes de pensamento, das liberdades. É uma ideologia que não preconiza o fim das classes mas obriga à cooperação de todas para aquilo que o ditador decide ser o bem comum.*

Se fosse possível hoje o fascismo histórico, não seriam as propostas de André Ventura que o realizariam nem o seu discurso que o anunciaria. Já as propostas e o discurso do BE e do PCP estão perto dos fascismos históricos. Designadamente, pelo anticapitalismo, o ódio ao mercado, fonte de liberdade, a obsessão coletivizadora, o nacionalismo e o antieuropeísmo militantes. Tal como se identificam boçalmente com o fascismo, claro, as assombrações de uma assumida extrema-direita que a extrema-esquerda faz tudo para acordar no túmulo.

André Ventura afirma-se europeísta, defendendo reformas na União Europeia que outros reconhecidos europeístas preconizam. O BE e o PCP, pelo contrário, são anti-União Europeia e compreende-se porquê: esta impede a revolução com que, iludidamente, eles sonham chegar ao poder.

O Chega afirma-se como um partido de direita ‘antissistema’ (que ‘sistema’?), no quadro da democracia.

Dizem que Ventura não é o que diz ser. Respondo que a História não avança à força de intenções inconfessadas. Hitler não podia ter dito com mais clareza ao que vinha. O que aconteceu foi que quase ninguém quis acreditar no que ele dizia. E não é tão claro o que o BE e o PCP nunca deixaram de dizer?

 

*Emilio Gentile, Quem é Fascista?, Guerra e Paz, 2020.