Viver para Contar

Vieira: A estratégia certa?

Portugal não pode ser a China da Europa – para onde vêm grandes jogadores de campeonatos europeus em fim de carreira

Tenho muita estima por Jorge Jesus. Num tempo em que quase toda a gente o atacava, fui dos poucos a defendê-lo publicamente. Mas discordo da sua vinda para o Benfica. Primeiro, porque tinha contrato assinado com o Flamengo até 2021 e os contratos são para cumprir. Depois, porque o Benfica disse tanto mal dele, indo ao ponto de o apagar das fotografias – como os revolucionários soviéticos faziam aos dissidentes comunistas – que, por uma questão de dignidade, deveria ter recusado o convite para regressar à Luz.

Percebo que ele possa ter experimentado a sensação contrária: um sentimento de desforra. ‘Disseram tanto mal de mim e agora vão ter de engolir tudo!’. Mas, tal como as reconciliações dos casais normalmente não são bem sucedidas, também esta tem tudo para acabar mal. Aos primeiros maus resultados o caldo entornar-se-á e o ambiente tornar-se-á irrespirável.

Até porque a decisão de Luís Filipe Vieira de ir buscar Jesus não foi ditada pelo arrependimento de o ter ‘despedido’ mas sim por razões eleitorais. Foi uma questão de oportunismo.

Também discordo da estratégia do Benfica de começar a contratar estrelas em fim de carreira, como Cavani e Vertonghen. Qualquer dia, Portugal é o país da Europa para onde vêm os futebolistas em pré-reforma. Ora, isso dá do campeonato português uma péssima imagem. Torna-o parecido com o chinês… 

Portugal devia dar a imagem exatamente contrária: ser o país onde grandes jovens futebolistas estrangeiros se revelam. E isso aconteceu com Pepe, Di María, David Luiz, Oblak, Ederson, etc. Ou onde jogadores de grandes clubes europeus nasceram e começaram a carreira – como foram os casos de Figo e Ronaldo, e, mais recentemente, de Bernardo Silva, João Cancelo ou Bruno Fernandes. 

A estratégia dos clubes portugueses não pode ser comprar jogadores na Europa em fim de carreira, que não se valorizam; tem de ser comprar jogadores jovens no Brasil, Argentina, Uruguai ou Colômbia, mostrá-los na Europa e vendê-los com grandes margens de lucro.

A ideia de contratar Cavani pareceu-me disparatada por outras razões. É que outro jogador muito mais barato poderia também marcar muitos golos. Recordo que Jesus pegou em avançados apenas ‘razoáveis’ e fez deles grandes goleadores. Pense-se em Cardozo, em Slimani, em Bas Dost, em Gabriel Barbosa... Nas equipas de Jorge Jesus, o avançado-centro marca sempre muitas vezes. Creio que, com ele, os avançados que o Benfica tem – Seferovic ou Vinicius – serviriam muito bem. E poupariam milhões.

A contratação de jogadores como Cavani encerra outra ilusão. Os benfiquistas acham que já têm uma equipa capaz de grandes feitos europeus. Ora, Cavani esteve nove anos no PSG e a sua equipa não ganhou nada na Europa. E em várias épocas teve ao seu lado jogadores de classe mundial como Di María, Neymar e Mbappé. E atrás deles estava Thiago Silva, um dos melhores defesas-centrais da atualidade, e também esteve David Luiz. O que se diria do Benfica se tivesse este naipe de estrelas? E, repito, o PSG não ganhou nada internacionalmente. 

Acresce que os grandes jogadores não fazem necessariamente as grandes equipas – como aliás se tem visto nesta fase final da Champions. E se viu ao longo da História. O que ganhou a famosa equipa dos ‘galácticos’ do Real Madrid? Equipas cheias de estrelas são por vezes enxovalhadas. O que faz as grandes equipas de futebol é a organização, o plano de jogo e a crença em si próprias. Depois, o talento de grandes jogadores dá uma ajuda – mas se o resto não existir, não valerá de nada. Veja-se de que serviu este ano o talento extraterrestre de Messi… 

Com a contratação de Jesus e de algumas vedetas, Luís Filipe Vieira ganhará certamente as eleições no Benfica. Mesmo sem elas as ganharia. Mas o Benfica virá a pagar caro estas más opções. E vamos a ver se Jorge Jesus não se arrependerá de ter deixado o Rio de Janeiro, onde era amado, para se vir meter no vespeiro da Luz como trunfo eleitoral de um presidente já muito desgastado.