Internacional

Uma convenção entre a negação e o medo

Na bolha da Convenção Nacional Republicana, esta semana, parecia claro que a pandemia foi vencida e que os democratas vão lançar hordas de criminosos sobre os norte-americanos. 

 

Com o pior surto de covid-19 do planeta nas mãos, protestos contra o racismo sistémico e a violência policial nas ruas, atrás nas sondagens, esta semana a campanha presidencial de Donald Trump transformou a Convenção Nacional Republicana numa espécie de bolha. No sentido literal – com múltiplas camadas de agentes dos serviços secretos, barreiras e controlos, para impedir protestos – e metafórico.

Mesmo impedidos de organizar um evento de multidões, primeiro pelos receios das autoridades da Carolina do Norte, depois devido ao brutal surto na Florida, para onde se planeou mudar a convenção, os oradores mostraram-se certos de que a pandemia já passou.

"Foi horrível, dificuldades e sofrimento em todo o lado", referiu Larry Kudlow, um dos principais conselheiros económicos de Trump. Falou no passado, mas uns dias depois, em Charlotte, onde ocorreram parte dos eventos, dois membros do staff e dois convidados já tinham dado positivo à covid-19, tendo as autoridades enviado mais de 790 testes aos presentes na convenção. Uma lembrança de que as precauções foram poucas e mal se viram máscaras na audiência, com centenas de pessoas sentadas lado a lado, a menos de um metro de distância. 

Entretanto, no que toca aos protestos contra o racismo e a exigência de reformas policiais, os republicanos não se limitaram a ignorar o assunto, mas passaram à ofensiva. A América, sob uma hipotética Administração democrata de Joe Biden será "um filme de terror", ilustrou o congressista Matt Gaetz. "Eles vão desarmar-vos, esvaziar as prisões, prender-vos em vossa casa e convidar o MS-13 para viver na porta do lado. E a polícia não virá quando chamarem", explicou Gaetz, referindo-se ao infame gangue americo-salvadorenho.

É que "não importa onde vivam, a vossa família não estará segura na América dos democratas radicais", reforçaram Mark e Patricia McCloskey, no seu discurso na convenção. O casal foi convidado após ganhar notoriedade depois de ser filmado a brandir armas de fogo contra manifestantes que entraram na estrada do seu condomínio privado, rumo a um protesto.

Apesar de tanta exortação ao medo, também houve outro tipo de testemunhos, com todos os senadores e congressistas republicanos negros convidados a discursar. "Fiz mais pela comunidade negra em três anos do que Joe Biden fez em 47 anos", garantiu Trump. "E quando for reeleito, o melhor ainda está para vir".