Viver para Contar

O dilema de Marcelo

Dizem que Marcelo Rebelo de Sousa dá recados a António Costa através de determinados jornalistas – e Costa responde a Marcelo através de outros. As notícias ‘sopradas’ pelo Presidente e pelo primeiro-ministro estarão cheias de indiretas cruzadas.

Marcelo está a perceber que é impossível agradar a todos. Os políticos que o tentam acabam muitas vezes por não agradar verdadeiramente a ninguém.

À luz dos holofotes, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa dão-se às mil maravilhas. Elogiam-se mutuamente, dão palmadinhas nas costas, fazem salamaleques – perante a desilusão de muita gente, à esquerda e à direita, que não gostaria de tanta cumplicidade.

E assim, alguns socialistas apelaram a Ana Gomes para se candidatar a Belém – e pessoas de direita que votaram em Marcelo há quatro anos preparam-se para votar em André Ventura, cujas intenções de voto já atingiram os 10%.

Mas, se a António Costa até pode agradar uma candidatura de Ana Gomes, a Marcelo Rebelo Sousa não conveio nada o anúncio da candidatura de Ventura, que pode ser uma Marine Le Pen em versão masculina e lusitana.

E talvez por isso já começou a demarcar-se do Governo.

Causou muita impressão a forma brutal como atacou a ministra da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, que dissera inocentemente numa entrevista que não tinha lido um relatório sobre um lar de idosos, mas que o seu gabinete estava a lê-lo e a estudá-lo. Marcelo pegou nesta frase e desancou-a sem dó nem piedade, dizendo que lia todos os relatórios. Trato deste tema noutra crónica.

Mas esta guerra à luz do dia por interpostas personagens tem uma versão menos pública nos subterrâneos da vida político-mediática. Dizem que Marcelo Rebelo de Sousa dá recados a António Costa através de determinados jornalistas – e Costa responde a Marcelo através de outros. As notícias ‘sopradas’ pelo Presidente e pelo primeiro-ministro estarão cheias de indiretas cruzadas.

Quem conhece Marcelo Rebelo de Sousa sabia que, mais tarde ou mais cedo, isto teria de acontecer. A rasteira política, o facto político, a farpa disparada como não quer a coisa são algo a que Marcelo não consegue resistir. Que lhe está na massa do sangue.

Não era assim possível que Marcelo convivesse anos a fio com António Costa sem lhe fazer partidas.

Mas agora, como se disse, há outra razão para isso: a anunciada candidatura de André Ventura e o modo como cresceu rapidamente nas sondagens.

Mal chegou à Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa tinha uma primeira tarefa para cumprir: conquistar o eleitorado socialista. Com uma direita periclitante, que perspetivas tinha de ser reeleito com um resultado expressivo se só contasse com o seu apoio? Para ter uma grande votação, precisaria de contar com os votos do bloco central. Acreditando ter a direita no bolso, Marcelo partiu, pois, à conquista da esquerda.

A coisa até lhe correu bem. Tão bem, que António Costa foi ao ponto de desejar há meses a reeleição do atual Presidente. Mas o aparecimento de André Ventura obrigou-o a uma inflexão tática. Se um candidato apoiado pelo BE ou o PCP não lhe meteria medo nenhum, já uma pessoa como Ventura pode fazer-lhe mossa.

Até porque Marcelo lida pessimamente com certas críticas. Ao contrário de Mário Soares, que se superava quando era desafiado, Marcelo diminui-se perante um opositor agressivo, como já se viu noutras campanhas e noutras circunstâncias.

Se a tarefa do atual Presidente numa recandidatura a Belém se apresentava fácil à partida – conquistar parte da esquerda, pois tinha a direita garantida –, hoje apresenta-se bem mais difícil. Com alguma direita a fugir, Marcelo tem de passar a dar algumas ‘satisfações’ ao seu antigo eleitorado.

O ataque a Ana Mendes Godinho terá sido um sinal disso. Mas não chega. Daqui para a frente, teremos um Marcelo no fio da navalha, tentando recuperar a direita que perdeu mas sem perder a esquerda que conquistou. E aí é que a guerra surda através de interpostos jornalistas pode ter um papel importante. É uma espécie de guerra de submarinos – em que ambos lançam contra os adversários mísseis subaquáticos. Ora ataco eu, ora respondes tu.

Os próximos meses serão decisivos. Vai Marcelo conseguir conter a hemorragia que há neste momento no seu eleitorado, com a transferência de eleitores para a órbita de Ventura? E esse reequilíbrio à direita não provocará um desequilíbrio à esquerda, com o crescimento de Ana Gomes ou outro candidato nessa área?

Marcelo Rebelo de Sousa teve o sonho de agradar a toda a gente. De conquistar votos de um espetro ao outro do leque político, secando o terreno como os eucaliptos. Ora, a partir de agora, pode ser obrigado a perceber que na política há que fazer opções. Há que correr riscos. Há que mostrar com clareza de que lado se está.

Querer agradar a todos significa normalmente não agradar verdadeiramente a ninguém.