Desporto

Jogos Olímpicos (I) A teimosia do barão

2020: anos de Jogos Olímpicos adiados pela maldição do covid-19. Há 124 anos, Atenas recebeu os primeiros Jogos da Era Moderna. Uma organização confusa, só 12 nações presentes e 285 atletas dos quais 196 eram gregos. Mulheres, nem pensar! Era assunto só para homens.

Charles Pierre de Frédy era, desde a mais tenra infância, teimoso como um muar. Não é de admirar. Nasceu em Paris, no dia 1 de janeiro de 1863, no seio de uma família aristocrática, foi educado com todas as regalias devidas ao filho mais jovem, e único rapaz, de Charles Louis de Frédy, barão de Coubertin, título nobiliárquico atribuído pela graça de_Luís XI a um dos seus antepassados e que foi passando de geração em geração. Com um tal peso em cima dos ombros, não tardou a ser entregue à educação especial de um padre jesuíta do Externat de la Rue de Vienne, uma escola de princípios muito rígidos acabada de inaugurar em na capital francesa. O pai tinha grandes perspetivas para o rapaz. Via-o assumir, no futuro, um cargo proeminente na política ou na carreira militar. Quanto ao jovem Charles, pura e simplesmente marimbou-se para os sonhos paternos a seu respeito. Era absolutamente diletante e não se deixava aprisionar por nenhuma disciplina em particular. Queria saber de tudo um pouco. E tinha uma fixação por todos os desportos e exercícios físicos que pudesse praticar.

Numa viagem a Inglaterra, tomou conhecimento da filosofia de Thomas Arnold, um antigo reitor da Rugby School, que proclamava a excelência da educação física no seio da educação generalizada. O tema fascinou-o. Começou a sonhar numa atividade desportiva à escala mundial, tanto na participação ativa da formação do indivíduo como na união de povos tantas vezes desavindos. Aquilo que hoje se pode chamar de Espírito Olímpico.

No mês de junho de 1894, Charles Pierre era um dos participantes mais entusiastas de um congresso levado a cabo na Universidade da Sorbonne, em_Paris, e no qual se discutia o conceito de amadorismo no desporto. No auge de toda a sua excitação, propôs aos 79 delegados presentes que se recuperasse a velha ideia grega dos Jogos Olímpicos. O seu discurso foi ouvido com uma atenção absoluta, quase reverente. No fim, num ambiente de aclamação generalizada, constituiu-se o primeiro Comité Olímpico Internacional. Sob a presidência de um grego, como não poderia deixar de ser, chamado Demetrios Bikelas, um grupo de figuras de ação iria lançar as sementes da restauração dos Jogos. Coubertin era o cabecilha desse grupo. E o lutador incansável decidido a recuperar a mensagem difusa que a antiguidade clássica legara aos homens do seu tempo, mais assente na lenda e na mística do que na realidade.

Frédy entrou num caminho sem regresso. Nem ele era homem para desistir de empreitadas, por mais gigantescas que fossem. Convenceu o governo grego a empenhar-se na tarefa e encontrou um parceiro tão devoto quanto ele: Evangelista Zappas, encarregue de ser o organizador dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna. À disposição de Zappas foram colocados os meios indispensáveis e fundos muito consideráveis (subscrições públicas valeram somas fantásticas) para que levasse o projeto avante. Mas uma questão básica ultrapassou toda essa boa vontade: o dinheiro investido na organização não serviu para que se mudasse significativamente o palco dos Jogos. Atenas, a cidade naturalmente escolhida para receber o acontecimento, não tinha um estádio à altura nem infraestruturas para a disputa das diversas modalidades. As ruas da cidade foram a solução. Uma solução, convenhamos, muito arriscada. O fracasso estava a um ligeiro passo de distância.

Todo o povo grego viveu os dois anos que separaram a reunião inicial do Comité Olímpico Internacional e o início dos Jogos Olímpicos, no dia 6 de Abril de 1896, em pleno estado de êxtase. Mais tarde, na altura de se fazer o balanço dos acontecimentos, a expressão usada feriu o barão até ás profundezas do seu ser: fiasco escandaloso.

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