Viver para contar

A Feira do Livro

Irei uma vez mais à Feira do Livro de Lisboa, ao fim da tarde, para assinar o meu último livro: a história do Estado Novo ‘como nunca foi contada’, de que acaba de sair o segundo volume. Mas desta vez o meu estado de espírito é um pouco diferente do de outros anos. Não vou tão contrafeito.

As presenças na Feira do Livro, para sessões de autógrafos, são com muita frequência constrangedoras para os autores. Vi lá José Saramago, umas vezes com uma fila de leitores à espera de um autógrafo, mas outras vezes sozinho, a olhar para as pessoas que passavam. Estive lá há uns anos em frente de António Barreto, ele de um lado da calçada e eu do lado oposto, e durante uma tarde inteira ninguém o procurou. Ou melhor, apareceu um leitor a pedir-lhe uma assinatura – mas não para o livro que estava em exposição (o seu último) e sim para uma obra antiga. E eu também não assinei mais de dois ou três exemplares nessa tarde…

Os autores que têm ‘público’ nestas sessões são aqueles que andam nas redes sociais, têm seguidores aqui e ali, uma espécie de ‘corte’ que os acompanha e que eles mobilizam quando é preciso.

Como não frequento essas redes, já tenho passado ‘secas’ na Feira do Livro, sentado numa bancazinha qual atração de feira, com as pessoas a passar-me à frente olhando para os livros sem se deterem.

É verdade que já tive sessões memoráveis. Uma na livraria Quinito, em Tavira, em que assinei quase 100 livros numa hora. E outra na Feira de Livro de Vilamoura, em que esgotaram os exemplares no stand em que eu estava a autografar, tendo os responsáveis de ir pedir reforços a outros livreiros. Diga-se que se tratava do romance O Último Verão na Ria Formosa, cuja ação decorria no Algarve, pelo que essas sessões tinham lugar perto do local do ‘crime’…

Hoje irei uma vez mais à Feira do Livro de Lisboa, ao fim da tarde, para assinar o meu último livro: a história do Estado Novo ‘como nunca foi contada’, de que acaba de sair o segundo volume. Mas desta vez o meu estado de espírito é um pouco diferente do de outros anos. Não vou tão contrafeito. Primeiro, porque esta feira se realiza após um longo período de encerramento das livrarias em consequência da pandemia, tendo por isso um sabor especial; depois, porque esta obra tem tido um certo êxito (o 1º volume vai para a 6ª edição e o 2º vai para a 3ª) e muitas pessoas escreveram-me a dizer que gostariam de ter os exemplares autografados.

Com alguma imodéstia, gostava que esta trilogia ficasse para o século XX como o Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins ficou para o século XIX: a história contada como um romance, com vida, vibração e grandes personagens. E uma perspetiva própria, não convencional.

A este respeito, espanta-me que algumas pessoas tenham contestado a minha versão sobre a queda de Salazar ‘da cadeira’, que afinal foi uma banal queda na banheira.

Já é estranho que, durante 50 anos, ninguém tivesse percebido que a história da queda da cadeira estava demasiado cheia de buracos para ser autêntica. Mas, depois de as contradições terem sido postas à vista de todos, é incompreensível que ainda alguém venha defendê-la – como sucedeu em textos publicados n’O Diabo e no Público.

Sem querer maçar os leitores com a abundância de argumentos adiantados no livro, bastava essas pessoas terem pensado no seguinte: quando o Diário de Noticias perguntou à governanta Maria de Jesus onde estava a cadeira em que Salazar caíra, esta respondeu que a tinha deitado ao mar. Não deveria isto ter levantado logo suspeitas?

Mas há mais, muito mais: uma empregada da casa disse que naquela zona do forte do Estoril (a Arca de Noé) não havia cadeiras de lona. E basta olhar para as fotografias da época para o confirmar.

E há fotos de Salazar a ler o jornal nesse local sentado numa sólida cadeira de madeira – uma das quais é, aliás, publicada na capa do 1º volume. Ora, sendo Salazar um animal de hábitos (recorde-se que, em S. Bento, se sentava sempre no mesmo sofá), por que razão se sentaria nesse dia numa instável cadeira de lona?

A história oficial foi uma peça encenada por D. Maria para esconder um episódio que, a ser tornado público, diminuiria a figura do ditador: ele, nu, no fundo de uma banheira, a ser ajudado a sair por uma mulher.

Durante toda a vida, desde os tempos de Coimbra, Maria de Jesus assumiu uma missão: defender Salazar. E fê-lo com estoicismo, sem quebras, contra tudo e todos. Logo a seguir à invenção da queda da cadeira, a governanta encenaria aliás outra peça, mais complexa, convencendo Salazar durante dois anos de que continuava a ser presidente do Conselho e impondo o silêncio aos que o visitavam.

Maria de Jesus protegeu sempre aquele que, apesar de ser mais ou menos da sua idade, se tornou o seu ‘menino’. Primeiro, quis dar dignidade à queda na banheira. Depois, quis evitar-lhe o desgosto de saber que já não era o senhor do poder.

Não podemos condená-la por isso.