Politica

A lufada de "ar fresco" de Ana Gomes e o ataque de Ventura

Ex-eurodeputada formaliza amanhã candidatura a Belém. Líder do Chega chamou-lhe “candidata cigana” por ser o rosto “dos subsidiodependentes”.

Marcelo Rebelo de Sousa está a seis meses do final de mandato e não pode, a partir de hoje, dissolver o Parlamento. É isso que diz a Constituição. Este marco no calendário sinaliza também que o país estará, sensivelmente, a quatro meses das eleições presidenciais. E, para já, podem ir a votos oito pré-candidatos. Já o chefe de Estado só anunciará a sua decisão em novembro. Até lá há uma certeza. Esta semana, Ana Gomes, ex-eurodeputada do PS, e Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda, confirmam oficialmente que estão na corrida. A novidade de ontem, a candidatura de Ana Gomes, (avançada pelo Público) já era aguardada há alguns dias, depois dos vários contactos e de uma reflexão da ex-eurodeputada.

Henrique Neto, ex-candidato presidencial e ex-militante do PS, acredita que Ana Gomes não vai facilitar a vida a Marcelo Rebelo de Sousa. Bem pelo contrário. “A candidatura de Ana Gomes é uma lufada de ar fresco”. Mas mal a ex-eurodeputada confirmou que era candidata, o líder do Chega, André Ventura, (o primeiro a anunciar que era candidato) apressou-se a comentar a decisão. “Numa certa metáfora, Ana Gomes é a candidata cigana destas presidenciais. Eu sou o português comum”, disse, citado pela Lusa. Mais, garantiu que se a ex-eurodeputada tivesse mais votos do que ele nas presidenciais (um teste ao crescimento do deputado e do próprio Chega), então, se demitiria do cargo. Ao i, André Ventura quis contextualizar o que disse na véspera: “Ana Gomes é a candidata de todos os podres do sistema :José Sócrates, Paulo Pedroso, toda a tralha socialista. É o rosto dos subsidiodependentes por isso lhe chamei, em metáfora, a candidata cigana”. Por isso, “não fará diferente de Marcelo, apoiará os bandidos e não a polícia, apoiará os que recebem e não os que trabalham”, acrescentou. Estas afirmações surgiram também depois da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos ter considerado as primeiras palavras de Ventura como “uma coisa desonesta, é uma coisa suja, reprovável e além do mais ilegal”, citada pela Lusa. O deputado e líder do Chega, André Ventura, também respondeu: “Mantenho as minhas palavras sobre a comunidade cigana, maioritariamente não trabalham e vivem de subsídios, a minha obediência à Igreja não me leva a abdicar desta posição de justiça”.

Para Henrique Neto as primeiras declarações de Ventura são “bocas virtuais, mas não têm conteúdo”. O empresário lembra que Ventura ainda disse que de demitiria de presidente do Chega, caso a ex-eurodeputada tivesse mais votos nas urnas. “Se levasse isso a sério, poderia contar que se demitia, do meu ponto de vista. Ainda que eu ache que ele vai ter uma boa votação”, atirou Henrique Neto, lembrando que o “ líder do Chega ainda não sabia o que era política e já Ana Gomes tinha uma reputação feita pela sua intervenção”.

Segundo Henrique Neto, Ana Gomes pode ser uma candidatura vencedora.” Eu sei que isto contraria as ideias feitas. Mas, as pessoas talvez se estejam a esquecer que ainda faltam alguns meses para a eleição”. Marcelo Rebelo de Sousa tornou-se “um quase porta-voz do atual governo” e “defraudou as expectativas de muita gente, quer no PS, no próprio PSD e do CDS”, advogou Henrique Neto. Assim, o agudizar das crises, económica, social e financeira, e a postura de Marcelo “podem pôr em causa a vitória fácil do atual presidente da República”.

Já o PS estará, mais uma vez, dividido, sem candidato oficial. Ontem mesmo, dois governantes escusaram-se a comentar as presidenciais. Tanto Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, como Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas, usam o fato de governantes para não comentar o tema. Ou seja, não deram palco a Ana Gomes. E Manuel Alegre, citado pela Visão, criticou o facto de o PS não ter candidato oficial: “Parece que só o primeiro-ministro é que conta”, defendeu.

Por seu turno, o PCP anunciará o seu candidato no sábado, dia 12.

Os candidatos Tiago Mayan Gonçalves, apoiado pela Iniciativa Liberal e o Bruno Fialho, do PDR também estão no terreno, tal como Orlando Cruz, ex-militante do CDS. É preciso ainda contar com Tino de Rans que deverá ir à luta.