Brilhante ou frustrante

Liderança

A imagem popular de um líder revela a natureza extraordinária do ser e tende a ocultar tudo o resto...

Uma sociedade bem organizada requer inevitavelmente liderança. O Homem é a única espécie no planeta terra que sustenta estruturas sociais envolto de crenças comuns com mais do que 150 indivíduos, e tal requer que nos deixemos guiar e influenciar, positiva e construtivamente, uns pelos outros. Ainda assim, o assunto não é simples.

O nosso quotidiano é o resultado das pessoas, ações e valores ao quais fomos permeáveis. Julgo, por esse motivo, que uma das maiores importâncias reside na capacidade de cada um de nós, conscientemente, construir a realidade e influenciar positivamente o meio que nos envolve, por via da nossa seletividade face às pessoas que lideram os aspetos mais importantes das nossas vidas. De alguma forma, este processo é semelhante a fazer uma refeição num restaurante, no qual inadvertidamente se enganam no seu pedido e servem-lhe algo que não gosta, mas pelo qual terá de pagar. Não seria a primeira vez que alguém consentiria o engano, mesmo não gostando nada do prato, da mesma forma que não seria a primeira vez que um indivíduo procuraria corrigir a situação. Cada um ‘come’ aquilo que se permite a ele próprio ‘comer’, mesmo que não acerte à primeira vez, e o resultado da refeição é uma experiência deliberadamente positiva, uma surpresa, ou um absoluto desastre. A responsabilidade, como o mérito, é de cada um.

 

Sou da opinião de que esta série de escolhas a que me refiro se trata diretamente de premiar liderança. Não se procura premiar uma qualquer, não a que nos aparece à frente em primeiro lugar, mas sim aquela que escolhemos deliberadamente. Não se trata de privilegiar líderes cuja fonte de poder e hierarquia são a capacidade punitiva ou meramente um título, mas sim de apoiar, confiar e deixarmo-nos guiar, no que de melhor um qualquer indivíduo o possa fazer, todos aqueles que construam o seu apoio e reconhecimento apoiado na integridade, respeito e nas suas ações e valores exemplares.

 

Não é novidade, nem sequer é surpreendente, que o público jovem tenha interesse e procure desenvolver liderança. Contudo, não sinto que seja a competência mais compreendida. A imagem popular de um líder revela a natureza extraordinária do ser e tende a ocultar tudo o resto. Um qualquer líder, digno de ser denominado como tal, possui de facto algo de extraordinário, que se trata de nada menos do que ser autêntico, sincero e igual a ele próprio. Para tal, não é preciso dinheiro, grau académico ou uma credencial especial, mas sim consistência e coerência.

Sermos iguais a nós próprios nem sempre é a tarefa mais fácil. Mas quando somos coerentes a esse ponto, deixamos a irrelevante opinião de terceiros de parte, agimos de acordo com as nossas crenças e a empatia reina (sem nunca pôr em causa a dignidade humana), estamos perante um caso sério de distinção.

Abdicarmos da nossa essência pode custar-nos muitos. O preço a pagar pela fuga aos nossos valores pode ser incomportável, mas não é incomportável dar-se o exemplo. Tape os ouvidos, faça o correto a fazer, dê o exemplo, e seja um líder. Não por um dia, por uma vida e por um país melhor.