Falar Baixinho

Nem tudo é covid

A médica desinfetou as mãos umas boas dezenas de vezes e depois de me ouvir saiu, conferenciou com os colegas, e quando voltou repetiu o mesmo ritual.

Estas férias o meu filho de 18 meses teve febre muito alta durante três longos dias. Findo este tempo, apesar de evitar sempre os hospitais, ainda mais em plena pandemia, resolvi que devia ser visto, com receio que fosse dos ouvidos. Fui atendida por uma médica que desinfetou as mãos umas boas dezenas de vezes e depois de me ouvir saiu, conferenciou com os colegas, e quando voltou repetiu o mesmo ritual. O meu filho só chorava e eu tentava manter alguma calma no meio daquela inércia. Depois de finalmente o observar com algum receio, não encontrou nada e sugeriu que lhe fizesse o teste da covid-19. Eu disse-lhe que, apesar de ser possível, seria altamente improvável que estivesse infetado e por isso não o iria sujeitar a uma situação daquelas. «Então deve fazer um hemograma e mais uns exames para ficar mais descansada», recomendou. Ora, não sendo dos ouvidos, e por algum sarapintado que começava a aparecer na pele, estava relativamente descansada porque tudo indicava que fosse mais uma virose dessas que os miúdos apanham, de modo que agradeci, paguei e fui para casa. A febre baixou naquele dia, as manchas alastraram e percebi pelos sintomas que se tratava de uma virose da família do herpes, conhecida por exantema súbito. 

Isto para dizer que fico um bocadinho assustada e preocupada com a forma como o universo covid começa a tapar-nos os olhos para tudo o resto. Esta é uma virose muito comum em crianças desta idade. Noutra altura poderia ou não ter sido diagnosticada, mas certamente o meu filho teria sido mandado para casa. Agora, queriam sujeitar um bebé a passar por algum exame invasivo e doloroso sem qualquer necessidade. Tem de haver bom senso.
O mesmo se passa com todas as pessoas que viram as suas consultas, exames e cirurgias desmarcados, que evitam ir ao hospital quando têm alguma urgência ou se coíbem de ir a consultas importantes com medo da covid, acabando muitas por agravar os seus sintomas ou pior.

A controvérsia sobre os efeitos deste novo vírus continua a ser grande, entre especialistas e leigos, mas uma coisa é certa. Nem tudo é covid! As outras doenças não desapareceram e não podemos deixar que esta pandemia nos tape os olhos para tudo o resto.
Absurdamente os parques infantis continuam fechados, há pessoas trancadas em casa com medo, os media não desistem de informar diariamente se morreu mais uma ou menos uma pessoa infetada, alimentando assim o medo e ansiedade de quem vive paralisado com este vírus. Fazendo com que comece a ter graves efeitos psicológicos, mesmo para quem não o contrai.

Agora que as crianças começam a regressar à escola e o outono se aproxima, vão voltar todas as outras viroses e constipações típicas da idade e da época. Apesar de sabermos que os sintomas nas crianças infetadas com covid podem ser muito díspares, e não deixando de estar atentos e de tomar as devidas precauções, teremos de manter a calma e de ter bem presente que há muito para além da covid-19.