O Mundo em Calções

Um caso para Perry Mason

Jess Willard era tão grande e tinha tanta força que matou Jack Young no ringue. Depois, Dempsey desfê-lo de pancada 

Jess Myron Willard era um típico cowboy das planícies do Kansas. Calmeirão abrutalhado, com 1,99 de altura, tinha uma certa dificuldade em exprimir-se num discurso coerente e isso, como era de esperar, não contribuiu para que colecionasse amigos. Nada na sua bisonha existência deixava adivinhar que viesse a ter um futuro minimamente interessante até ao dia em que um daqueles fura-vidas ligados ao mundo do espetáculo se deixou fascinar pela forma como empilhava fardos de palha de dezenas de quilos com a desfaçatez de um Sansão de trazer por casa. Jess não tardou muito a ver-se no meio de um ringue de boxe ainda que revelando uma muito particular contrariedade: «Não sinto nenhum prazer em magoar pessoas. Parece-me algo estúpido de se fazer».

Os jornalistas aproveitaram essa deixa para descreverem o estilo do Gigante de Pottawatomie como sendo preguiçoso. Basicamente, Jess mantinha-se o mais quieto possível enquanto os opositores procuravam agredi-lo ao ponto de tentarem derrotá-lo nem que fosse por pontos. Debalde. Willard aguentava-se, dotado de uma paciência bovina. Depois atingia o ponto de saturação e esmurrava os adversários com toda a força de punhos que possuía, e não era propriamente uma imagem bonita de ser ver quando dentes à mistura com esguichos de cuspo e sangue se espalhavam em redor.

No seu quinto combate como profissional, no início do ano de 1913, coube a Jess defrontar uma das grandes esperanças do boxe, um rapazito chamado Jack Young, que tinha a alcunha de O Boi. A forma como o miúdo se mexia entonteceu Willard que o via esquivar-se por uma nesga de cada vez que acabava de ser atingido com um golpe audacioso. Encheu os pulmões de ar e tomou a decisão inevitável: esperou. De repente, Young cometeu um erro e deixou o maxilar ao alcance de um gancho de direita do matulão do Kansas. Parecia que Jess acabara de desferir uma pancada de camartelo na fachada do Woolworth Building cujos 55 andares e 241 metros de altura erguidos em plena Broadway só seriam ultrapassados, 13 anos mais tarde, pelo arranha-céus da Chrisler. Young estava longe de ser um edifício. Mas desabou em ruínas.

Earl Rogers estudou para advogado e chegou a professor de direito. Era natural de Buffalo, onde nasceu em 1869. Na altura ganhara fama na defesa de criminosos de nomeada como William Alford, Griffith J. Griffith ou Patrick Calhoun. Não tinha duvidas de que contribuía para que determinados patifes do pior continuassem em liberdade, tal como se confirmou pela maneira como recusou o abraço agradecido de Charles F. Mootry que o juri acabara de inocentar pelo assassínio da mulher: virou-lhe as costas e disse – «Get away from me you slimy pimp, you’re as guilty as hell and you know it». Mas era esse o seu trabalho e Jess Willard teve de recorrer a ele quando se percebeu que o seu punho devastara de tal forma a face de Young que um osso do maxilar fora empurrado para cima perfurando-lhe o cérebro. Earl impediu-o de ser condenado por homicídio em segundo grau, ganhou a amizade eterna de Jess e fascinou de tal forma um outro advogado, chamado Erle Stanley Gardner, que este resolveu, já depois da sua morte, estudar todos os casos em que Rodgers tinha participado e construir uma personagem de livros e filmes policiais tendo-o como exemplo. A personagem viria a ser muito mais popular e duradoura do que o seu inspirador: foi Perry Mason.

Em 5 de abril de 1915, em Havana, Cuba, Jess Ward deu cabo de Jack Johnson ao fim de 26 assaltos e tornou-se campeão do mundo dos pesos pesados perante a incredulidade de muitos especialistas que não lhe perdoavam o estilo atabalhoado e sem elegância.

Até 1919, Jess ganhara fama de invencível. Depois foi desafiado para pôr o título em jogo perante um jovem magricela: Jack Dempsey. O combate teve lugar em Toledo, Ohio, no dia 4 de julho, não porque Toledo tivesse qualquer importância, que não tinha, mas continuava a ser uma cidade em que o boxe não era proibido, bem como as apostas consequentes. «Vai ser um dos combates mais fáceis da minha vida», soltou Willard fanfarrão, exigindo ser ressarcido no caso de matar o adversário durante a luta. William Harry Dempsey não perdeu tempo a ler as provocações de Jess nos jornais do dia. Mal ouviu o sino, acertou-lhe no maxilar com tal força que o partiu em treze sítios. Depois continuou a espancá-lo, desfazendo-lhe uma maçã do rosto, quatro costelas e obrigando a cuspir meia-dúzia de dentes. O magricela foi cedo para casa. Quanto a Jess, regressou à vida de cowboy, desta vez numa pantomima do Buffalo Bill’s Wild West Show. O chapéu e a fatiota ficavam-lhe bem.

afonso.melo@newsplex.pt