Política a Sério

Alto, magro e estrábico

Uma coisa é noticiar que um grupo de indivíduos de Leste, ou de África, ou do Extremo Oriente, ou da Madeira está envolvido em atividades criminosas. Isso é informação. É informação objetiva a que os leitores têm direito.Outra coisa, diferente, é extrair daí conclusões – dizendo, por exemplo, que os indivíduos de determinada origem têm especial propensão para o crime. Aí já entramos no campo de uma possível discriminação racial.

Por estes dias, uma estação de TV noticiou a violação de uma hospedeira de bordo ocorrida por volta das 20h00 no Parque das Nações, em Lisboa.

E no ecrã apareciam as características do suposto violador: «Alto, magro e estrábico».

Ora, como a maior parte dos jovens são hoje altos e magros – e o estrabismo só se deteta a pequena distância e olhando diretamente para a pessoa –, a descrição era muito vaga.

Talvez por isso, a PJ fez uma coisa que hoje já não é vulgar: divulgou o retrato-robô do suspeito.

E aí via-se o quê?

Que se tratava de um jovem negro.

 

É óbvio que, ao omitirmos a informação de que o violador era negro, estávamos a dificultar enormemente a sua identificação.

Falando de um homem ‘alto e magro’, tínhamos um universo para aí de 10% da população, ou seja, 1.000.000 de pessoas.

Mas se acrescentássemos tratar-se de um negro, esse número baixaria para 0,5% da população, ou seja, 50.000 pessoas.

Isto é, vinte vezes menos.

Pergunto, portanto: seria correto omitir tal informação?

A omissão resulta de uma diretiva oficial segundo a qual os jornalistas não devem, nas notícias, divulgar a ‘origem racial’ dos cidadãos.

Mas – note-se – isso só funciona para as ‘notícias más’; caso se trate de uma ‘notícia boa’, já é lícito divulgar essa origem.

Por exemplo: Jovem negro tornou-se o homem mais rápido do mundo em pista.

Quem criticaria este título?

Há uns bons anos, publiquei no jornal que dirigia uma notícia dando conta de uma vaga de assaltos na Quinta da Marinha, alegadamente praticados por um grupo de indivíduos oriundos do Leste europeu.

Semanas depois, recebi um ofício de uma repartição qualquer do Estado dizendo que o jornal não podia ter divulgado a origem dos supostos assaltantes.

Fiquei indignado.

Peguei na caneta e respondi que a notícia só continha informação objetiva – e ninguém podia proibir o jornal de a dar. Mais: que o continuaria a fazer.

A dita repartição não respondeu nem insistiu na ‘condenação’.

Entendamo-nos: uma coisa é noticiar que um grupo de indivíduos de Leste, ou de África, ou do Extremo Oriente, ou da Madeira está envolvido em atividades criminosas.

Isso é informação.

É informação objetiva a que os leitores têm direito.

Outra coisa, diferente, é extrair daí conclusões – dizendo, por exemplo, que os indivíduos de determinada origem têm especial propensão para o crime.

Aí já entramos no campo de uma possível discriminação racial.

Cabe na cabeça de alguém que, se um branco tivesse cometido um crime num país de África, a respetiva TV não dissesse que se tratava de um branco (ou de ‘um europeu’, o que vai dar ao mesmo)?

Se um europeu cometesse um crime na China, as características físicas do homem seriam descritas do mesmo modo que o crime fosse cometido por um oriental?

Esta censura, este tentar esconder as evidências, feita sob o pretexto da luta contra o racismo, está a produzir racistas.

E porquê?

Porque as pessoas não gostam de ser enganadas.

Não gostam de saber que houve um homem morto por jovens negros no Campo Grande e os media se limitaram a falar em ‘jovens’, sem referirem a sua origem; mas se houver um negro morto por um branco, já não foi um crime ‘normal’, foi um ‘ato racista’.

Num caso, escondem-se os protagonistas de um crime; noutro caso, faz-se o contrário: não só se fala em ‘negros’ e ‘brancos’ como se avançam logo as motivações do ato, num processo de intenção feito antes de qualquer investigação.

Onde está a reciprocidade?

É claro que isto irrita as pessoas.
Eu vos digo: vejo hoje pessoas terem reações racistas que não tinham há 50 anos.

Vejo pessoas que nunca tinham sido racistas a reagirem como tal.

Mais: vejo mais racismo, muito mais, do que havia no tempo da guerra colonial – quando famílias portuguesas brancas viam os seus filhos serem mortos por balas disparadas por negros.

Mesmo nessa altura, perante esse drama, nunca vi reações racistas como vejo hoje.

É triste dizê-lo, mas é a verdade.

E a culpa é de quem?

Das organizações ‘antirracistas’ que, para justificarem a sua existência, estão a criar divisões que nunca existiram na sociedade portuguesa.

 

P.S. – Dedico esta crónica a Álvaro Caneira que tem dois filhos adotivos de origem africana e, como não é politicamnete correto, já foi apelidado de... racista!