Sociedade

Escolas. Regresso com muitas dúvidas e ajuntamentos

Filas à porta de escolas, com pais e alunos a terem de ficar à chuva, e muitos encarregados de educação a dizerem não entender as regras. Diretores de turma e associações de pais não descartam alteração das normas.

T udo fazia prever que, em tempos de covid-19, o regresso às aulas presenciais fosse marcado por alguns contratempos. E assim foi, com a chuva – que também regressou – a atrapalhar. Seis meses depois, os alunos voltaram, nesta semana, às escolas: filas intermináveis à porta de alguns estabelecimentos escolares de norte a sul do país – devido a todas as regras implementadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e que os funcionários tiveram de cumprir –, que provocaram ajuntamentos no exterior, criando o caos em algumas situações. Foi o caso, por exemplo, da Escola EB 2,3 Eugénio dos Santos, em Alvalade, para onde a maioria dos pais levou os seus filhos nas próprias viaturas – que também acabaram por entupir as ruas. 

Mas as preocupações em torno do regresso às aulas presenciais prendem-se também com algumas normas implementadas no interior das escolas. Até a própria desinfeção regular das mãos com álcool gel está a suscitar dúvidas entre os pais.  «As escolas estão a pedir às crianças que desinfetem as mãos com frequência. Ora, segundo a pediatra das minhas filhas, o álcool penetra pela pele, o que faz com que as crianças que desinfetam as mãos frequentemente, em vez de as lavarem, estão a ficar com álcool dentro delas. Todos os dias, um ano inteiro», começou por dizer ao SOL a mãe – que não quis ser identificada – de duas filhas, de cinco e oito anos, que frequentam uma escola na periferia de Aveiro, sublinhando que os próprios pediatras já alertaram a DGS para esse facto, mas até agora «ainda não disse nada sobre isso em concreto».

«De resto, as regras parecem-me tranquilas, felizmente. A única regra mais estranha é que as crianças que vão comer a casa só podem entrar mesmo à hora das aulas começarem, o que não percebo. As crianças têm um horário de almoço. Quem almoça lá, a seguir vai brincar. As crianças que vão a casa só podem entrar à hora em que as aulas começam, não podem ir mais cedo. Segundo me disseram, tem a ver com a necessidade de evitar que haja muitas crianças no pátio. Tem alguma lógica, mas de qualquer forma pareceu-me um pouco estranho», relatou, deixando claro, no entanto, que existem escolas «sem exageros». «A das minhas filhas é uma delas, o que muito contribui para a nossa tranquilidade», rematou.

As regras mais polémicas
Apesar de existirem bons exemplos, nas redes sociais, porém, são muitos os pais que relatam dúvidas nas normas impostas para as escolas. Em alguns estabelecimentos, não é permitido ao aluno aquecer comida que trouxe de casa para aquecer no micro-ondas, bem como é proibido, em alguns casos, os pais mandarem bolo para a escola no dia de aniversário do filho, gerando alguma controvérsia. 

«Agora nem o bolo pode levar. E a professora justificou com ‘assim é menos loiça para lavar e menos risco’. Fiquei confusa! Menos loiça e menos risco? Mas que risco? Os meninos já passam o dia inteiro juntos a trocar brinquedos, marcadores e materiais, a almoçar e lanchar. Mas o bolo de aniversário é o vilão?», questionou uma encarregada de educação numa publicação no Facebook, garantindo também não entender  o facto de os alunos não poderem ligar o ar condicionado nem durante o inverno, devendo permanecer com as janelas da sala de aulas abertas. «Entendo que o ar condicionado é perigoso neste momento, mas existem aquecedores a óleo, por exemplo, que poderão pelo menos trazer um pouco de conforto durante as temperaturas mais frias do norte do país», ressalvou ainda.

Os receios dos pais
Na Escola EB1 de Eixo, em Aveiro, o regresso às aulas presenciais decorreu dentro da normalidade. Mas Paulo Barroca, cujo filho de 12 anos está a iniciar o sétimo ano de escolaridade, alertou para o facto de o material necessário de prevenção poder vir a ser escasso nas escolas.

«Não sei se gel desinfetante e outros acessórios não vão tardar em faltar, tendo em conta que no ano passado nem papel higiénico tinham nas casas de banho», contou ao SOL, adiantando ainda que não acredita que todos estes cuidados devido à pandemia durem muito tempo. «Duvido que se consiga manter este nível de disciplina, tanto em alunos como em funcionários, durante muito tempo», atirou Paulo Barroca.

Diretores e associações de pais focados nas soluções
Apesar de todas as dificuldades, o SOL sabe que os diretores de turma e as associações de pais, que, de um modo geral, sublinharam que o regresso às aulas decorreu «dentro da normalidade», estão dispostos a alterar as regras impostas num futuro próximo caso seja necessário. «Estamos a navegar à vista, perto da costa, portanto têm de ser planos a curtíssimo prazo. E os pais também têm a obrigação de nos ajudar e dizer quais as situações menos positivas. Tudo o que esteja menos bem, estamos aqui dispostos para alterar», adiantou Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). 

Nesse sentido, a Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) alertou para os comportamentos dos pais e também para a falta de comunicação entre os encarregados de educação e as escolas. «Há escolas que deixaram tudo para a última. As escolas deveriam informar os pais de diferentes horários para que se pudessem apresentar a uma determinada hora e que o aluno pudesse entrar logo para a sala de aulas. Se isto não for dito – e aconteceu em alguns casos –, os pais ficam aglomerados junto à escola e depois fica um ajuntamento de pessoas. E aí é que é preciso ter cuidado», atirou o presidente da Confap, Jorge Ascenção.

No Jardim de Infância e Primeiro Ciclo do Bárrio, em Roriz, Barcelos, por exemplo, a situação complicou-se esta quinta-feira, com pais e encarregados de educação a bloquearem o acesso à escola com troncos nas entradas do edifício e tarjas colocadas no gradeamento. Exigiram distanciamento físico e protestaram contra o encerramento de uma sala de aulas, bem como contra a existência de turmas mistas.