Falar Baixinho

Dizer 'se faz favor' e 'obrigado' caiu em desuso

Há adolescentes que já sabem tanto da vida, mas nunca aprenderam o básico.

Na minuta da avaliação da escola do meu filho de quatro anos, achei curioso um dos itens referir-se a dizer ‘obrigado’ e ‘se faz favor’. De facto, no pré-escolar e mesmo na escola primária há um esforço para que estas expressões não fiquem esquecidas. São as tais palavras mágicas. Mais do que uma regra de boa educação este é não só um dos pilares da relação com os outros, mas da nossa formação enquanto pessoas. É importante irmos integrando desde pequenos que – ao contrário do que imaginávamos – o mundo não gira à nossa volta, que os outros não existem para nos servir, que existe troca e quando fazem alguma coisa por nós, devemos ficar agradecidos. Infelizmente estes termos parecem estar em desuso. Se entre adultos muitas vezes sentimos isso – quando por exemplo damos passagem no trânsito ou seguramos a porta para a pessoa que vem atrás e esta passa de nariz empinado como se ainda esperasse vénias – com os mais novos a situação parece ainda mais preocupante. Dão-me a volta à barriga aqueles adolescentes, que já sabem tanto da vida, mas nunca aprenderam o mais básico. Pedem qualquer coisa sem dizer se faz favor e viram as costas quando a têm sem agradecer.

Muitos querem tudo dado e arregaçado e não se esforçam por nada. Acham que os outros têm o dever de lhes dar aquilo de que precisam e fazer todas as vontades. E pior do que isso, muitos já dão ordens aos pais.

Uma coisa é a liberdade das crianças, a irreverência, outra é a educação. Uma criança pode ser livre, irreverente, original, fazer disparates, mas nunca pode deixar para trás a boa educação e o respeito pelos outros. E por mais esforços que na escola possam fazer para educar uma criança, para lhe transmitir valores como o respeito pelo outro ou a gratidão, é sobretudo em casa que eles são adquiridos. Não só quando são ensinados, mas sobretudo pelo exemplo. Passam a fazer parte das regras da comunicação como quaisquer outras e quando uma criança começa a falar inclui-as naturalmente no seu vocabulário.

Quantas vezes vemos pais em situações embaraçosas com filhos mal-educados ou mal-agradecidos? E não estou a falar das birras próprias da idade, mesmo daquelas de fugir. Estou a falar da falta de modos, de arrogância, de acharem que todos lhes devem e ninguém lhes paga.

Os adolescentes não ficaram assim de repente. Nunca foram ensinados a agir de outra forma. Além do exemplo que têm dos pais, quando eram pequenos talvez lhes tenham achado imensa piada quando mal tinham começado a falar já lhes davam ordens: ‘leva a minha mochila, calça-me o sapato, quero mais’ e talvez tenham sido habituados a que os pais fariam tudo por eles. Mas com o passar do tempo ordens dessas deixaram de ter piada e muitos pais, sem se aperceberem, foram se tornando escravos daqueles seres minúsculos. Mais tarde, quando de minúsculos já não tinham nada, já pouco podiam fazer para reverter a situação. Não só não tinham aprendido a respeitar os pais, como lhes tinha passado completamente ao lado o que é o respeito pelos outros, sobretudo pelos mais velhos. E são esses seres arrogantes e egocêntricos que causam muitas vezes mal-estar na convivência com os outros.