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O espetáculo não acabou, está a começar

O maior desafio num processo de mudança são as pessoas. Todos queremos mudanças, mas ninguém quer mudar. 

Os trabalhadores das empresas de eventos foram particularmente afetados pela pandemia. Espetáculos e festivais cancelados, produtores, músicos e atores sem atividade, num setor onde abunda a precariedade nas relações laborais. A pouco e pouco, conforme vai sendo possível, os teatros retomam alguma atividade, organizam-se alguns concertos e festas de empresas. Assistimos a uma das manifestações mais bem feitas de que há memória, de forma criativa e organizada, que chamou a atenção para a sua causa: querem trabalhar, mas é praticamente impossível realizar eventos. 

Mas será possível que tudo volte ao que era?

Dificilmente. A covid-19 mais cedo ou mais tarde vai deixar de ser uma ameaça para a saúde pública com a dimensão que hoje assume. Mas o medo tende a persistir. Mesmo sem coronavírus, quem passou por esta pandemia não volta a estar no meio de uma multidão com dezenas de milhares de pessoas, em modo sardinhas em lata, a assistir a um concerto com a mesma tranquilidade com que o fazia dantes. O que não significa que vamos deixar de querer concertos, festivais, peças de teatro e exposições. A necessidade de conteúdos, onde se incluem e destacam manifestações culturais e entretenimento, aumentou com a pandemia.

O caminho natural, e porventura o mais viável, é o desenvolvimento de experiências híbridas, que cruzam o digital com o físico. A forma mais direta é o livestream, ou seja, assistir a um concerto através da net, por exemplo. Claro que não é a mesma coisa. O som, a luz, a interação com os protagonistas é em tudo diferente. Não há calor humano e um like e um aplauso ainda são coisas bem diferentes. Mas há muitas vantagens neste formato, como não ter de ir a Paris para visitar o Louvre. Claro que não é a mesma coisa, não é! O que não significa que seja mau ou que deixe de ter capacidade de atrair mais e novos públicos. Lembro-me da revolução na indústria da música, o CD vs o MP3, não era a mesma coisa, o CD tinha uma qualidade muito superior. Quantos comprou no último ano?

O streaming é apenas uma das muitas formas de criar experiências no digital. A lista de soluções é longa, serão cada vez mais quanto maior for a audiência. Reduzir a quantidade de público em recintos de espetáculos parece uma inevitabilidade, quase tão certa como a necessidade de criar soluções que permitam transportar e aumentar a experiência do espetador de um espetáculo ao vivo, quando assiste pela net.

O maior desafio que se coloca num processo de mudança, estamos perante a transformação digital de toda uma indústria, são as pessoas. Todos queremos mudanças, mas ninguém quer mudar. Mesmo que seja possível transformar um técnico de som num programador, certamente não é fácil nem acredito que deva ser esse o caminho. Há um conhecimento adquirido por profissionais reconhecidamente competentes que não pode ser desperdiçado. Se o público está na net, porque não apostar neste canal e levar o que de bom os profissionais desta área entregam para uma nova plataforma? Num concerto virtual, o som é um elemento fundamental e o conhecimento de um técnico experiente pode acrescentar qualidade. Certamente não será um caminho fácil, ou imediato, mas neste processo há vários intervenientes que devem colaborar: as marcas arriscando o apoio a novos formatos, os produtores e realizadores ao apostarem no digital first, atores, cantores ou bailarinos no desenvolvimento de formas de potenciarem os seus talentos para um público que não vêm (tanto) e que aplaude carregando num botão. 

O Governo, neste caso concreto o Ministério da Cultura, tem o dever de defender os interesses da classe dos profissionais dos eventos, garantindo a sua dignidade e condições de trabalho. Mais do que subsídios, reclamam oportunidades de trabalho. Mas nem um nem outro podem ser encarados como paliativos. Urge uma intervenção imediata, há casos de grande carência, da mesma forma que sem uma visão de médio e longo prazo só estamos a adiar um problema, até mesmo a escalá-lo. 

Hoje é mais arriscado acreditar que em 2021 vamos ter festivais, Santos Populares, festas nas aldeias ou grandes encontros de empresas num espaço físico, do que eventos virtuais. Mesmo que não seja no próximo ano, negar o avanço do digital é como tentar parar o vento com as mãos. Se ainda há pouco tempo os eventos eram sinónimo de experiência física, contacto humano e maior partilha, hoje a realidade é bem diferente, a pandemia mudou as regras do jogo tornando necessário uma transformação digital, nalguns casos radical. 

Talvez estejamos mesmo perante o fim desta indústria nos moldes em que a conhecemos. Capacidade de adaptação, de reação e de improviso, sempre foi uma característica comum a grande parte dos profissionais de eventos, que agora terão de aplicar ao seu contexto pessoal. Mas uma coisa é certa, as pessoas não podem passar sem a emoção de um bom espetáculo e de se sentirem parte de uma tribo. Ainda está para nascer o influencer que consiga chamar milhões de pessoas, durante décadas, para o ouvirem cantar as mesmas canções de sempre. Em êxtase e a pagar! 
A ver vamos a capacidade de resiliência dos diferentes protagonistas. 

It ain’t over till the fat lady sings.