Política a Sério

A casca de banana

Existe hoje uma classe de gente da política e das empresas que frequenta os camarotes dos clubes, come à conta dos clubes opíparos jantares e viaja ‘à borla’ ao estrangeiro para assistir aos jogos internacionais.

A polémica sobre a presença de António Costa na Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira foi um fait divers.

Nós, portugueses, adoramos escândalos – e foi ver jornalistas e comentadores a discutir durante noites a fio um assunto inócuo.

É óbvio que, de um ponto de vista formal, o primeiro-ministro não deveria envolver-se nas eleições de um clube.

E, além disso, apoiar a recandidatura de um presidente envolvido em questões judiciais.

Isso é uma evidência.

Mas, repito, trata-se de uma questão formal.

Noutro plano, a questão até pode ser vista ao contrário: sabendo-se que Costa é adepto do Benfica e próximo de Vieira, era mais transparente apoiá-lo às claras do que ajudá-lo às escondidas.

Há muito que me manifesto contra a promiscuidade entre os clubes de futebol e uma casta político-empresarial que gira à sua volta.

A cumplicidade entre autarcas e presidentes de clubes, por exemplo, é quase generalizada e altamente condenável.

E existe hoje uma classe de gente da política e das empresas que frequenta os camarotes dos clubes, come à conta dos clubes opíparos jantares e viaja ‘à borla’ ao estrangeiro para assistir aos jogos internacionais.

O futebol, que era um desporto muito democrático – nos estádios sentavam-se lado a lado o rico e o pobre, o importante e o insignificante –, criou uma casta que não se confunde com o Zé Povinho e beneficia de um estatuto especial.

Já lamentei esta situação.

Mas trata-se de uma questão sobretudo moral e que não tem diretamente que ver com o que estamos a tratar.

É curioso constatar que muitas pessoas que criticam António Costa pelo apoio a Vieira acabam a dizer: «É pena este erro, pois ele tem sido um bom primeiro-ministro».

Até há quem o ache «o melhor primeiro-ministro desde o 25 de Abril».

De facto, é hábil a negociar, resolve conflitos, sabe esquivar-se às questões delicadas, consegue os votos necessários para aprovar os orçamentos e as leis mais importantes.

Mas eu pergunto: o que já fez António Costa de relevante desde que está no poder?

Costa ocupa o Governo há cinco anos – e qual é a sua obra?

As pessoas poderão estar a viver um bocadinho melhor; mas a tarefa dos governos resume-se a isso?

Os governos têm apenas por missão melhorar um bocadinho a vida das pessoas?

Não será verdade que cada geração tem a obrigação de fazer alguma coisa pelo futuro?

Cavaco Silva esteve 10 anos no poder – e António Costa está há metade desse tempo.

Mas Cavaco fez centenas de escolas secundárias, fez inúmeros hospitais distritais, fez o CCB, concluiu a autoestrada Lisboa-Porto (que parecia uma nova obra de Santa Engrácia), concluiu a autoestrada para o Algarve que ia apenas no início, fez a Via do Infante, melhorou inúmeras estradas transformando-as em IP’s, construiu a segunda ponte sobre o Tejo em Lisboa (a ponte Vasco da Gama) e a ponte sobre o Guadiana.

Ora, se ficar 10 anos como primeiro-ministro, António Costa terá uma obra correspondente para apresentar?

Não falo em estradas, naturalmente, mas em outros legados para o futuro.

Mesmo com os milhares de milhões que virão da Europa, terá Costa e o seu Governo a visão e a capacidade suficientes para deixar às gerações vindouras uma obra que se veja?

Terá algum sentido criticar António Costa pela presença na comissão de honra de Vieira mas depois não ver o principal problema deste Governo – que é gastar todos os dinheiros públicos em subsídios ou aumentos de ordenados para satisfazer clientelas, em vez de investir uma parte a pensar no futuro?

Terá algum sentido perder tempo em estilo de conversa de café a discutir pequeninos escândalos, a espuma dos dias, o imediato, e depois não perceber que o principal não é o que este Governo faz mas o que não faz?

Já não seria tempo de nos preocuparmos mais com a substância e menos com o folclore?

Eu até me atreveria a dizer que este apoio a Luís Filipe Vieira foi uma casca de banana que António Costa lançou aos jornalistas e comentadores para eles se entreterem.

Costa é suficientemente esperto para perceber que a inclusão do seu nome na lista de Vieira, ainda por cima nesta altura, iria provocar escândalo.

Quem duvida disso?

Assim, só o pode ter feito intencionalmente.

Se calhar, foi mesmo ele – ou o seu gabinete – que passou a notícia a um jornalista de confiança…

E deve ter-se divertido com a forma como todos morderam o isco.

Possivelmente, o primeiro-ministro irá fazer mais ‘partidas’ destas, lançar mais fait divers para serem discutidos durante semanas, com um objetivo que só ele saberá.

Uma coisa é certa: tudo o que se passou era previsível, Costa previu-o, e ao aceitar fazer parte da comissão de honra do presidente do Benfica fê-lo com uma segunda intenção.

Não o fez por acaso.

Como não foi por acaso que, há três semanas, lançou publicamente a ideia de uma ‘crise política’…