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A torre da Portugália dá uma boa lição de moral

À medida que a contestação subia, a torre da Portugália descia: de 60 passou para 40 metros. E agora, o projeto acabou chumbado, em reunião de Câmara...

Todos sabemos onde fica a mítica Portugália na Av. Almirante Reis. O grande quarteirão tinha estado abandonado, quando subitamente, no ano passado, começámos a ouvir falar da torre da Portugália.

No quarteirão abandonado nasceria uma torre de 16 andares e 60 metros de altura. Ora, quem conhece a história das construções em altura, sabe que Lisboa tem tradicionalmente uma relação de amor-ódio com torres. A opinião pública e publicada não se rende às torres, a contestação é grande e só as câmaras de executivo com maioria absoluta têm a possibilidade de as aprovar, ainda que haja contestação.

É preciso entender que os projetos são aprovados pelos executivos camarários. António Costa teve maioria absoluta em 2009 e 2013. Juntamente com Manuel Salgado, governaram a cidade como quiseram, até 2017. A cidade que existe é literalmente a cidade que o PS quis. Ora, em 2017, Medina perdeu a maioria absoluta: em Lisboa, existe um executivo frágil sem maioria. O PS tem 8 vereadores e um acordo coligatório com um vereador do Bloco de Esquerda o qual vigora apenas para certas matérias. Portanto, Fernando Medina é obrigado a governar, na prática, de acordo com o caderno de encargos do Bloco.

O projeto que estava a ser pensado para o quarteirão na avenida Almirante Reis pertencia a um Fundo Imobiliário (o fundo Sete Colinas – cujo único investidor era, dizia-se, uma Caixa de Previdência alemã) e eu fiz questão de ir pessoalmente assistir às três apresentações públicas do projeto.

A primeira foi numa apinhada ordem dos arquitetos (nas traseiras do mercado da ribeira), muito concorrida sobretudo por arquitetos os quais se entusiasmaram com os desenhos, com muita paixão sobre torres – uma discussão quase só técnica.

A segunda foi uma apresentação no modesto mercado do forno do Tijolo (em Arroios, freguesia da localização), com muitos moradores e suas associações, preocupados com as sombras e o efeito da torre nos seus imóveis e qualidade de vida.

A terceira decorreu na Assembleia Municipal, com intervenções sobretudo dos partidos políticos, bastante politizada portanto.

Nas três apresentações, estavam presentes a empresa que representava/assessorava o fundo imobiliário e os arquitetos autores do projeto. Mas os sempre ausentes foram surpreendentemente Fernando Medina e Manuel Salgado.

À medida que a contestação subia, a torre descia: de 60 passou para 40 metros. Entretanto, o todo poderoso vereador Manuel Salgado (vereador do urbanismo entre 2007 e 2019), após o mais longo consulado de que há memória à frente da cidade de Lisboa, mudou-se para a SRU deixando o lugar a Ricardo Veludo.

O projeto da torre da Portugália acabou agora chumbado em reunião de Câmara. O fundo alemão já anunciou que despediu a empresa que o assessorava e já terá contratado outra. Presumo também que tenham olhado para o calendário e visto que há eleições autárquicas em 2021.

Há várias lições de moral a retirar desta história.

Deixo para cada um de vós retirar as boas.