Cultura

Brian Dillon. Um género pujante como um criminoso em fuga

Um dos dois títulos que marcam o arranque de um novo catálogo, o qual exibe sinais de uma petulância revigorante, Ensaísmo é uma incursão cheia de desenvoltura por este género, e que tanto o investiga como ilustra, balançando entre apontamentos críticos e puros devaneios, exemplificando os ardis e seduções que fazem, hoje, do ensaio o meio de exploração literária mais carregado de futuro.

 

Antes de irmos ao livro, ainda uma nota sobre a editora recentemente aparecida entre nós e que causou algum alvoroço com o anúncio de um rompante catálogo, ambicioso ao ponto de raiar a demência, apostando, para começar, numa série de títulos traduzidos de uma série de autores vivos e em plena actividade, já distinguidos pela crítica, mas um bando um tanto desafecto para o leitor português, mesmo aquele bastante informado, que de muitos nem ouviu falar, e isto numa atitude assumidamente provocatória ao ambiente um tanto frígido e desoladoramente conservador da edição literária no nosso país. E peguemos desde logo pelo nome (Bazarov), que costuma carregar, não só uma intenção clara, mas uma espécie de assombração que se desvela aos poucos, de formas até imprevisíveis, podendo ser premonitória, ou, inversamente, mostrar-se como um signo atraiçoado, envilecido até. A propósito de “Pais e Filhos”, a obra-prima de Turguéniev, que tem como protagonista Bazarov, diz-nos Claudio Magris que o romance, além de lidar com a “humaníssima e complexa representação do relacionamento entre as gerações e dos sentimentos paternais e filiais tão difíceis de narrar”, foi a obra que tornou de domínio público o termo “niilistas”, designando Bazarov e o seu amigo Arkadi. Mas o ensaísta italiano sublinha que eles não são de facto niilistas, “isto é, pessoas que não acreditam em nada, mas apenas aparentam sê-lo, tal como o homónimo movimento político russo oitocentista, aos olhos dos seus pais e, em geral, dos conservadores, também aparentava negar os valores tradicionais, a ordem, a autoridade, os costumes patriarcais, as convenções sociais e sentimentais”. E neste ensaio recolhido em “Alfabetos”, Magris esclarece que “os niilistas, assim como todos os progressistas e revolucionários, são, pelo contrário homens de profunda fé, bem mais do que os seus perplexos genitores”. E adianta que Bazarov e Arkadi encarnam exemplarmente esses progressistas radicais “e como tal transbordantes de fé – na História, no Homem, na moral – até à ingenuidade”. O autor de “Danúbio” diz-nos que Bazarov e Arkadi “têm substancialmente razão, mas dizem os maiores disparates sobre os seus intimidados pais conservadores; o seu empenho totalizante leva-os a grosseiras simplificações esquemáticas, a venerar cegamente o último estudo de um cientista alemão e a deitar ao lixo, como inúteis e danosas velharias, a poesia de Pushkin e a arte em geral”. Magris lembra que, “perante essas patéticas poses doutrinárias, a subtil pontada no coração que o pai de Arkadi sente de súbito, sem saber porquê, ao ver o filho, é infinitamente mais complexa e profunda e vai bem mais ao encontro do coração da vida e dos seus meandros”. E depois, no mesmo ensaio, é-nos feita uma advertência que devemos ter em conta todos nós, os que nos sentimos tantas vezes justificados no recurso a uma forma mais ou menos ritualizada de terrorismo literário, movidos pelo desconsolo e até o desespero face a um ambiente cultural que pretende diluir tudo, que pela sua própria natureza, degradada e degradante, conspira para que os traços de carácter mais firme se desvaneçam, para que todos os modos de empenho e esforços intrépidos acabem atraiçoados, todas as denúncias sejam à partida encaradas com a maior suspeita, tidas como sinal de mero ressentimento. “Na verdade”, diz-nos Magris, “a prepotência irreverente, desagradavelmente necessária nos momentos de obrigatória contestação, deveria ser abandonada de imediato, como um objecto contundente depois de usado para legítima defesa, mas tende a tornar-se um hábito, um modo de ser e até uma fisionomia, aquela expressão ácida, agressiva e arrogante, que torna tão pouco desejáveis tantas figuras radicais.”

E com isto, sem nos decidirmos inteiramente, mas oscilando, deixando-nos marcar por esta dúvida essencial, passamos a um dos dois primeiros livros editados pela Bazarov, “Ensaísmo”, de Brian Dillon. O título já por si dispensa preliminares, exames prospectivos, mesmo porque o ensaio se dá tanto prazer é porque, no seu enredo tenteante, consegue estar sempre a prometer novos começos, de algum modo é uma estética capaz de criar uma forma de erotismo à volta da promessa de Voltaire: “Ninguém encontrou nem jamais vai encontrar.” É essa ansiedade mais da busca, o regime de quem vive entre alusões fugitivas, “a iminência de uma revelação que não se produz” (Borges), a espera feita a um segredo que não se revela. Nessa potencialidade que amiúde sai decepcionada, nesse aspecto é que este género tão bem encarna o destino da literatura, à qual hoje já não é dado transmitir valores nem narrar a unidade da vida. Marcado por uma espécie de insegurança que lhe é constituinte, o ensaio fica radiante precisamente quando indaga a sua própria natureza, e este é mesmo o principal atractivo desta obra, essa concatenação de sugestões, apresentações, hipóteses. De resto, o livro arranca com uma exuberante e ardilosa montagem de tentativas dessas que não têm propriamente como errar. Até porque aqui a errância é o que conta – a essência do ensaio, diz-nos Dillon, é vaguear. Trata-se, afinal, de “uma arte, entre outras, do olhar de soslaio, obliquidades e digressões”, a arte que rascunha e se mantém solta, livre para largar de súbito aquilo com que se comprometera na página ou até na linha anterior, para ir atrás de alguma outra pista, e quanto mais mirabolante for a trajectória que esta desenhe imaginariamente melhor. Aqui, um dos requisitos é não só ter “espírito aventureiro” como esse gosto por naturezas inacabadas (“o ensaio não pretende procurar e filtrar o eterno no transitório”, diz-nos Dillon, citando Adorno, “antes quer tornar o transitório eterno”), mas também essas perspicácias de intelectual galante, gabarola, capaz de se safar no corte e costura, puxar das citações na altura certa, tomando balanço, indo um pouco mais longe. É preciso não só a fluência como uma capacidade de torcer as coisas, arriscar, ser até um tanto desonesto, desde que se faça a coisa dentro de limites, de forma airosa. O ensaio é muitas vezes a escapatória artística para um madrião nos vales literários, compensando a sua propensão ociosa com esses arroubos momentâneos, esses lances de dados no escuro. É como cuspir para um poço, deitar-lhe coisas, romancear com o insondável. Dillon, que confunde essa errância com as investigações de um escritor em busca de um estilo, chega mesmo a questionar: “não é o estilo justamente uma contenda com o vazio, uma atitude ou um alinhamento arrancado ao caos e à nulidade?”

Em “O último leitor, Ricardo Piglia sugere que na “pré-história da figura clássica do intelectual, o seu antecedente, e ao mesmo tempo o que define a sua história paralela, invisível” é o detective privado, “o grande leitor, o homem culto que entra no mundo do crime”. E diz-nos que, em Dupin, o protagonista do conto de Edgar Allan Poe que inaugura o género policial, “Os Crimes da Rua Morgue”, nesta nova figura do detective privado, aparece condensada e ficcionada a história da passagem do homem de letras para o intelectual comprometido: “melhor dizendo, o detective estabelece a tensão e a ponte entre o homem de letras e o homem de acção”.

Um ano depois da edição original do livro de Dillon, que saiu em 2017, outro ensaísta, o argentino Alan Pauls, publicou “Trance”, um livro de brevíssimos ensaios, um glossário formado por uma série de postais em que cada entrada ou palavra que vai surgindo sinaliza uma aproximação ao acto de ler, e identifica aqueles que parecem cirandar pelos caminhos cada vez mais estreitos e esses esconsos para onde são remetidos os mais tumultuosos exemplares literários. Ora, Pauls surge-nos como um ser ferido pelas letras, pelas coisas que leu, alguém que tem inscrito no ADN essa lei que funda a continuidade entre vida e arte. Assim, a leitura é vivida até ao fanatismo, por um leitor que diz sofrer não apenas de um vício mas de uma neurose. E numa das suas justificações mais consequentes, desse apelo reorganizador da nossa experiência da vida, serve-se da noção de “anacronismo”, e diz-nos que “talvez ler seja a última prática continua que resta hoje ao mundo”. Admite que pode haver outras, como a música, “mas nenhuma que faça da continuidade uma razão de ser tão despótica como a leitura”. “Ler é submeter-se a um império extinto: o império do linear. Impossibilidade de abreviar, tomar atalhos, dar saltos (sem pôr em perigo, desde logo, a compreensão do que se lê). Se a leitura é hoje uma grande prática anacrónica – a outra é o teatro – é precisamente pela insolência, a desfaçatez, até a ingenuidade provocatória com que se exibe os brasões de uma cultura do encadeamento, a sequência, o passo a passo, num estado de coisas cujas moedas em circulação são a simultaneidade e a montagem.”

Lembre-se que Pessoa definiu o amor, essa coisa tão rara e difícil, como “uma concentração da atenção”. Ora, tendo isto em conta, o ensaio parece o género que melhor integra em si o regime de desagregação da continuidade, e talvez por isso seja o que nos aparece mais grávido de futuro, mantendo-se leve. Entre as muitíssimas dívidas que inscreve neste exercício de deve e haver, Brian Dillon vai buscar a Musil, e ao seu romance monumental “O Homem sem Qualidades”, a noção de utopia do ensaísmo, e cita uma passagem crucial do capítulo 62: “Há uma intuição que lhe diz: esta ordem não é tão sólida como parece, não há coisa nem Eu, não há forma nem princípio que seja seguro, tudo está sujeito a uma mudança invisível mas imparável, o futuro está mais no instável do que no estável e o presente não é mais do que uma hipótese que ainda não ultrapassámos. (...) Por isso hesita em fazer de si alguma coisa: um carácter, uma profissão, um modo de vida fixo, são para ele antecipações em que já é possível discernir o esqueleto que no fim restará dele.”

Depois disto, depois de citar Michael Hamburger, e falar-nos de “um jogo que inventa as próprias regras”, Dillon faz o seguinte anúncio: “Tomaremos a poeira como metáfora fundadora da nossa abordagem ao tema insubmisso do ensaio?” E então explica que “o que rodeia esse objecto dito sólido é uma constelação de partículas de pó cintilantes, e o ensaio mostra-se menos compacto e macio do que se pensava, é infindo e móvel, forma que ambiciona ser informe. É o mesmo que dizer – ainda não consigo prová-lo – que o venerando género do ensaio tem algo que ver com o futuro, com uma sensação de permanente dispersão e coalescência.”

Esta é uma obra que no seu percurso, valendo-se de capítulos curtos, cosendo ensaios publicados ao longo dos anos numa série de jornais e revistas prestigiadas, como o “The Guardian” e o “The New York Times”, a “London Review of Books” ou o “Times Literary Supplement”, se mantém empolgante enquanto segura a promessa de novas revelações, enquanto o caso é mantido aberto, enquanto parece possível que algum outro crime, quem sabe vários – desses dignos de registo, e possivelmente até de escândalo –, ameaçam ser cometidos nas páginas que se seguem. Mas à medida que o livro avança a decepção vai aumentando, começamos a dar-nos conta de que o desfecho não irá alterar o destino da literatura, e nem mesmo o estudo dos perfis de ensaístas em série, desses mais opulentos nos seus actos de profanação dos mandamentos da literatice, nem isso nos consola de um final sem resolução. Depois de algumas tropelias, de nos acenar com quadros aventurosos, rupturas, manobras prodigiosamente evasivas, o livro vai-se arrumando, começa-se a notar o suor nas zonas que mais transpiram, nos sovacos do texto, nas virilhas, denunciando a inclinação autobiográfica, à medida que o ensaísta se vai expondo cada vez mais, falando da morte precoce dos pais, do seu percurso académico e profissional truncado pela depressão, e dentro em breve estamos presos à teia das suas preferências, daquilo que ajudou o autor a superar os momentos mais difíceis, e à medida que a narração começa a confundir-se cada vez mais com o desabafo, “Ensaísmo” vai-se vulgarizando, precisamente porque se vai identificando com o próprio autor, e, às tantas, sente-se o arrastar das correntes, as próprias grilhetas à volta das pernas do texto, que deixa de correr, deixa de ter algo a dizer como nuvem, como um agregado atmosférico que pode chover ou dispersar-se, pode continuar a atirar sugestões à imaginação enquanto se metamorfoseia, mantendo sempre a sua qualidade informe, passando a manifestar esses tiques irritantes do género autobiográfico, o registo lamentoso e incipiente das confissões pessoais, e, curiosamente, é precisamente então que o livro perde a sua vivacidade, o ânimo, aquela fluência de que fala Robert Burton, ao classificar o ensaio como “uma rapsódia de remendos colhidos de vários esterqueiros, excrementos de autores, joguetes e peralvilhice, tudo metido num sarapatel”.

É como se o ponto final estivesse do outro lado, uma espécie de íman, gerando um campo de gravidade que se sente cada vez mais, obrigando o texto a buscar uma finalidade, a fechar um arco, gerando ansiedade, frustrando o próprio movimento ensaístico, este que, assim, começa a degenerar, mostra-se incapaz de fabricar as suas enfermidades e passa a padecer de uma biologia mais restrita, cada vez mais concreta. A certa altura, Dillon cita Roland Barthes, autor cuja influência reconhece ser central na sua obra, e isto quando este lança uma suspeita sobre o aforismo com o seu ponto que “é uma forma de ruptura: tende a concluir sempre a ideia num floreado, num instante frágil em que a palavra se detém, tocando no silêncio e no aplauso”.

E à medida que o livro se vai aproximando do fim, a nuvem parece ganhar cada vez mais consistência, e perde-se aquela sensação precária de uma ordem que nos surge tão implausível como cativante, na sua “apresentação esgazeada de meros factos” (Adorno). Aos poucos, à medida que o discurso abandona uma certa impessoalidade, o deplorável vício do “eu”, com aquele grau de resolução de quem narra os seus factos, de quem discorre sobre as suas preferências e opiniões, perde a graça de um argumento livre, ao mesmo tempo elegante e tosco, “agregado como se houvesse sido dragado aos baldes de uma pedreira, ou amanhado de resíduos pulverizados e adaptados”.

Ainda assim, para trás, fica um percurso feito e demarcado e que depois se apresta a vibrar numa nova ordem, feita de sublinhados, flores entaladas. Depois do ponto final, o livro renasce, e através das marcas que lhe deixámos, das folhas dobradas ou até das notas nas margens, vão surgindo outros usos possíveis. E, neste ponto, há que lamentar o facto de a mancha gráfica deste livro ser tudo menos arejada – as margens são curtas, o tipo de letra, ao fim de um bocado, parece bamboleante, um aranhiço que cansa a vista do leitor que não se limite a andar por ali aos goles. Era de esperar que, tendo o serviço sido encomendado a um designer experiente, Andrew Howard, tivesse havido outra competência, um certo desafogo e liberalidade que espelhasse a natureza ambiciosa desta editora. Assim, é mais difícil que o detective apressado se sinta compelido a largar o que tenha em mãos para focar-se nalgum detalhe que lhe tenha escapado numa primeira leitura. Os leitores inveterados sabem como numa boa mancha de texto se sente uma espécie de curso de água entre as letras, e isto por si só gera um enlevo hipnótico, e isso falta, para já, a este projecto gráfico. Mas há tempo de se fazerem mudanças, para atirar a sua pedra na atenção desse leitor cada vez mais sonolento e disperso, passível de perder a consciência, mas, também por isso, mais disponível para esquecer-se de si e acordar sem saber bem quem ou o que é.