Desporto

Pershing. Jogos de guerra

Sem Jogos Olímpicos de 1916, o general Pershing lançou os Jogos Interaliados, em Paris, 1919. O general Roçadas foi um entusiasta!

John Joseph Pershing tinha a alcunha de Black Jack. Em 1919 era o comandante das ForçasExpedicionárias Americanas na Europa e sentia-se entediado nesses dias que, após o Armistício, as pessoas tentavam regressar como podiam às suas vidas. Pershing era um desses fulanos que não conseguia estar quieto, como se sofresse da doença de São Vito. Resolveu deitar mãos à obra e organizar um evento de estadão: os Jogos Interaliados. Já que as Olimpíadas de 1916, marcadas para Berlim, tinham sido riscadas do mapa por razões óbvias, era altura de por em prática uma espécie de Jogos Olímpicos, de forma até a manter enérgicos os soldados que esperavam ordens para voltarem a casa. Com a colaboração da YMCA (Young Men’s Christian Association), obrigou a rapaziada a tirar as mãos dos bolsos e a construir um estádio com lugar para 25 mil espetadores nos arredores de Paris, no Bois de Vincennes. Chamou-lhe Estádio Pershing, mas também nunca Black Jack fora conhecido pela sua modéstia.

Todas as forças militares estacionadas no centro da Europa, desde as da Guatemala às do Reino de Hejaz, um território governado pelos hachemitas que não tardaria a ser englobado na Arábia Saudita, foram convidados a enviar os atletas que quisessem. Portugal também, como não poderia deixar de ser, a despeito de um certo acabrunhamento nascido após a derrota catastrófica de La Lys. E era precisamente em Raquetoise-sur-la-Lys que se encontrava José Augusto Alves Roçadas, um militar que ganhara nome nos conflitos contra os alemães dirimidos na zona da Damarlândia, fronteira entre Angola e a Namíbia, e que puseram um ponto final na tentativa germânica de arrancar alguns pedaços da colónia portuguesa. Roçadas, transmontano de Vila Real, ultrapassara a barreira dos 50 anos e estava, também ele, a gramar com o tédio de ser o Comandante das Forças Expedicionárias de Portugal em França, algo bastante aborrecido em tempo de paz. Ficou, portanto, entusiasmadíssimo! A sua resposta a Pershing é bem elucidativa desse entusiasmo: «Foi com o maior prazer que recebi o seu convite! A partir deste momento envidarei todos os meus esforços e toda a minha energia para que os soldados sob o meu comando e a minha nação participem na maioria das modalidades possível e com os resultados mais brilhantes que estiverem ao nosso alcance».

Os portugueses

A operação desportiva posta em marcha por Pershing foi um sucesso absoluto. Mais de 1500 atletas apresentaram-se na disputa de 19 modalidades, alguns deles com presenças marcantes como foi o caso de Norman Ross, natural de Portland, Oregon, conhecido por Grande Alce, que conquistou cinco medalhas de ouro na natação, ou Gene Tunney que se tornaria, uns anos mais tarde, campeão do mundo de pesos pesados em boxe, com vitórias lendárias sobre os monstros Georges Carpentier e Jack Dempsey. Portugal teve 50 participantes, e conquistou medalhas. António Augusto da Silva Martins, médico de profissão e tenente de posto, foi brilhante no tiro com arma de guerra e com chumbo, Jorge Paiva, também tenente, arrebatou a prata em esgrima, tal como a equipa nacional, formada pelo próprio Jorge Paiva, Carlos Gonçalves, Veiga Ventura, Frederico Parodes, António Mascarenhas e Fernando Farinha e as equipas de remo de Shell-4 e Shell-8. Uma célebre foto da Ilustração Portugueza de 8 de setembro de 1919, mostra Jorge Paiva, com o seu fato de esgrimista, a receber uma medalha entregue por John Pershing himself. A foto está bem focada mas desfocada no tempo já que os Jogos Interaliados, ou Jogos Pershing (a tal questão da modéstia...) decorreram entre os dias 22 de junho e 6 de julho.

Não querendo correr o risco de não ser a nação mais medalhada, os Estados Unidos recorreram à batota de mandarem vir do outro lado do Atlântico 40 atletas que nunca tinham sequer visto uma pistola de perto. Os franceses levaram a questão um bocado a peito e, numa exposição oficial, declararam-se muito prejudicados por alguns dos seus mais brilhantes desportistas terem sido mortos durante a guerra.

Viviam-se dias dificilmente controláveis. Pershing insistiu que a organização dos Jogos servia para manter o físico e o espírito alertas e não deixar morrer os nós de camaradagem tão duramente entrelaçados nas trincheiras. Quanto aos participantes, podiam dar o seu melhor nas pistas, nos campos e nas piscinas, mas davam ainda mais de si próprios à noite, quando os bailes e as festas levadas a cabo pelos voluntários do YMCA os faziam, finalmente, esquecer por pouco que fosse o horrendo sofrimento de uma guerra estúpida e devastadora.