Tautologias

Autos de fé (carta aberta a João Vieira Pereira)

Fascista, nazi – ou estalinista, que são a mesma coisa – porquê? Até parece ser ultraliberal, e precisa da liberdade para o ser. Mas se precisa, é por ser ultraliberal uma grande ameaça para a democracia. E deve ser enfrentado por isso. Corrupto? Não me consta que seja, mas investigue-se. E a quantos corruptos deu e dá a comunicação social tanta atenção e mesuras?

A comunicação social é determinante para o olhar e a construção do mundo. Por isso os políticos esperam pela hora dos telejornais. O drama português é uma comunicação social que frequentemente desinforma na notícia e deforma no comentário.

Li o editorial que escreveu no Expresso de 26/9 e subscrevo muito do que disse. No Expresso da Meia-Noite (25/9) vi-o ser uma das duas vozes (a outra foi a de Maria João Avillez) a não entrar no coro beato. A rivalizarem no exorcismo geral de um demónio chamado André Ventura, que continuam a transformar na lufada de ar fresco que a realidade política precisa.

Esperava, todavia, que JVP fosse mais longe. Esperava o desassombro de enfrentar a hipocrisia e o ridículo. ‘Ventura?! Arreda para trás, Satanás!’. Porque se benzem sempre todos antes de falarem no homem? O que receiam? Receiam o que ocultam? Tudo tão veemente que é suspeito, diria o meu amigo Freud. No seu editorial também JVP não conseguiu evitar a mesma jura:partidos «obrigados a temáticas e posicionamentos para não deixar a AV o monopólio dos temas populistas».

Temas populistas? Ou alguns bem pertinentes? Como entra pelos olhos da gente que sofre na pele muito do que AV grita. Portugueses abandonados pelos partidos que deviam olhar para as suas legítimas aspirações, tanta pobreza e miséria persistentes. Apesar dos milhões de cada dia desde que entrámos na União.

Não é isso que explica o êxito tão rápido do sujeito? E populistas não são os líderes todos? Quer mais populista do que Catarina Martins ou a Ana Gomes que aí vem e foi sempre?

Os partidos democráticos liberais a quem cumpre a defesa dos mais desfavorecidos e das liberdades estão a oferecer ao Chega essas causas fundadoras. Oxalá AV as quisesse realmente assumir.

Fascista, nazi – ou estalinista, que são a mesma coisa – porquê? Até parece ser ultraliberal, e precisa da liberdade para o ser. Mas se precisa, é por ser ultraliberal uma grande ameaça para a democracia. E deve ser enfrentado por isso. Corrupto? Não me consta que seja, mas investigue-se. E a quantos corruptos deu e dá a comunicação social tanta atenção e mesuras?

Ouvir AV? Credo! Oferecer a AV uma coluna no Expresso? ‘Cruzes canhoto!’. Mas oferecem espaço de cronista, por exemplo, a Francisco Louçã, um trotskysta, evangélico é certo. Ou o Expresso não sabe quem foi e o que fez Trotsky? E o que disse e diz Louçã?

E porque não pergunta o Expresso ao BE e ao PCP se renegaram a crença? Se estão hoje com a democracia a que ontem chamavam ‘burguesa’? Se assumem o multipartidarismo, possibilidade que o grande Mário Soares generosamente lhes ofereceu? Se já não querem colectivizar tudo, acabar com o mercado, o ‘doce mercado’, como o referiu Condorcet e é assim que o Estado democrático-liberal o deve querer e regular – se não de onde viriam a riqueza e os recursos? E terão abandonado hinos e bandeiras sob os quais foram assassinados milhões de seres humanos? Por que é a suástica justamente considerada um insulto à Humanidade e a foice e o martelo e os seus disfarces continuam desfraldados a ofender os homens livres e direitos humanos?

E poderá haver alguém que não querendo enganar-se a si próprio acredite ser possível com o BE e o PCP garantir um governo democrático que salve Portugal da dependência endémica? Governar numa democracia com a extrema-esquerda, ou a extrema-direita, que têm a mesma natureza? Governar na Europa com anti-europeístas? Aplicar e gerir bem os milhões prometidos pela União... que odeiam? Conseguir com eles a convergência de forças e Partidos democráticos para enfrentar esta crise que vivemos?

Ingénuas tartarugas a ignorarem a irrecuperável natureza do escorpião.

Não tenho ilusões sobre o futuro que aí vem. Tenho medo.