Sociedade

Portugal passa barreira dos mil casos com subida em Lisboa e no Norte

Os próximos dias permitirão perceber se há uma aceleração dos novos casos. Governo diz que aumento não é surpresa e aponta avaliação de novas medidas para a próxima semana.

Portugal voltou esta quinta-feira a passar a barreira dos mil novos casos diários de covid-19, com 1278 infeções reportadas no espaço de 24 horas. Se a subida para este patamar era já esperada há pelo menos duas semanas, quando o primeiro-ministro fez essa referência publicamente, os dados reportados mostram uma distribuição de casos diferente da que tem sido habitual, com a região de Lisboa, até aqui a dominar o número de infeções nesta nova fase da epidemia, a registar 37,7% dos novos casos (482) e a região Norte 50,2% (642).

Os próximos dias deverão permitir perceber melhor essa tendência e, segundo o i apurou, é esperado que os dados reportados esta sexta-feira e sábado possam ir além deste valor e permitir uma indicação mais clara sobre o ritmo de crescimento da epidemia. Depois de uma semana atípica, com um feriado na segunda-feira (dia em que foram reportados 427 novos casos, abaixo das previsões) era esperada alguma compensação nos números no final da semana – como tem acontecido habitualmente mesmo nas semanas sem feriado, com o efeito de estarem fechados laboratórios ao fim de semana –, mas só os próximos dias permitirão perceber se há uma aceleração do aumento de casos, nomeadamente no Norte, que de resto tem tido um RT superior ao de Lisboa, o que sugeria um maior crescimento dos contágios.

Lisboa a vermelho no mapa europeu A incidência de novos casos por 100 mil habitantes calculada para os últimos 14 dias subiu ontem para 105,5, indica o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças.

No último mapa que compara a incidência nas diferentes regiões europeias, a região de Lisboa já surge no nível vermelho, acima do patamar de 120 novos casos por cada 100 mil habitantes no espaço de 14 dias, apontado pelo ECDC como o patamar de risco elevado. 

Há no entanto diferenças significativas nos países que hoje estão nessa categoria: em Madrid, passou-se a incidência dos 500 casos por 100 mil habitantes, valores a que nunca se chegou em Portugal. A incidência em Portugal está a esta altura abaixo do que acontece noutros países como Espanha ou França, que têm tido recordes de casos diários e onde as infeções começaram a subir de forma mais acentuada em agosto. Espanha registava ontem uma incidência de 303.3 novos casos por 100 mil habitantes nos últimos dias e França 257,2. Mas a maior subida esta semana dá-se na República Checa, que passou a Espanha e é agora o país europeu com maior incidência nos últimos 14 dias (374,6), com recordes de novos casos depois de uma primeira onda de covid-19 em que teve menos impacto que outros países europeus.

Governo decide medidas na próxima semana No final do Conselho de Ministros desta quinta-feira, a ministra de Estado e da Presidência considerou que os dados conhecidos esta quinta-feira não são motivo de surpresa para Governo. “São os que tínhamos previsto”, disse. 

A referência foi de facto feita por António Costa, mas até aqui não foram reveladas projeções ou patamares concretos que levariam o Governo a adotar novas medidas. O primeiro-ministro já apontou no entanto linhas vermelhas, como o aumento de óbitos e a capacidade de resposta do SNS. O número de óbitos situa-se agora numa média diária de 10 mortes e a pressão sobre os hospitais tem aumentado, passando ontem os 800 doentes internados. Encontra-se no entanto abaixo do que aconteceu no pico da epidemia em abril.

Mariana Vieira da Silva indicou que, na próxima semana, será feita uma avaliação da evolução da epidemia e serão tomadas decisões. As medidas atualmente em vigor no âmbito do estado de contingência vigoram até 15 de outubro e tudo indica que poderão ser reforçadas daí em diante. Na quarta-feira a diretora-geral da Saúde não apontou nenhum concelho que suscite maior preocupação, mas a estratégia defendida pelo Governo tem sido de que, em caso de necessidade, serão adotadas medidas o mais localizadas e cirúrgicas possíveis.

Uma das ferramentas já anunciadas serão mapas de risco para o país, tópico sobre o qual não tem havido novas indicações. Segundo o i apurou, a estratégia passará por usá-los para definir futuras medidas em conjunto com as autarquias.

A ministra de Estado e da Presidência reiterou que o Governo procurará sempre “evitar” o “confinamento total e generalizado” como se viveu entre março e maio e que o Executivo irá tomar as “medidas necessárias”. A governante sublinhou ainda que o Governo tem “sempre a possibilidade de recuar” nas suas decisões e que “a disponibilidade de revisão das medidas é total”, notou, salientando, porém, que o “país dificilmente pode viver com o cenário de confinamento total e generalizado” novamente.