Internacional

Amazónia a transformar-se numa savana

A Amazónia cria a sua chuva, mas esse processo está em risco. O resultado pode ser uma ‘savana empobrecida’.

Boa parte da luxuriante floresta amazónica, verde, húmida, com árvores gigantes e centenárias, está em risco de se transformar numa savana, alertou um estudo publicado na Nature Comunications, esta semana. Até 40% da Amazónia já se aproxima de um ponto sem retorno, sob ameaça das alterações climáticas, incêndios, desmatamento e mau uso de terras. O próprio clima da floresta tropical, tão dependente da água, está a transformar-se.

«Em parte, a floresta é responsável pelo seu clima. 50% do que chove na nossa região é vapor de água reciclado pela própria floresta. Pense que uma molécula de água, antes de ir embora da Amazónia, chove seis vezes aqui mesmo», explica Henrique Pereira, professor de ciências ambientais e agronomia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Contudo, esse ciclo arrisca dar lugar a outro. O desmatamento da Amazónia, o pulmão do planeta, acelera o aquecimento global e diminuí as chuvas na região, o que por sua vez torna os incêndios mais frequentes, à semelhança do que vimos em 2019, quando se estima ter ardido uma área de floresta equivalente a 900 mil campos de futebol.

«O problema é que quando a pluviosidade é alta essas áreas recuperam com forma de floresta, mas quando é baixa, a floresta não recupera. Tende a estabelecer-se um ecossistema dominado pela savana, onde o fogo é recorrente e a vegetação é seca», nota Jorge Palmeirim, professor de ecologia e conservação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

«Mas não é apenas a mudança do clima, uma vegetação com poucas árvores, com árvores de menor porte também surge em função da degradação do solo», acrescenta Henrique Pereira. «As duas coisas, o desmatamento e o uso inadequado do solo, podem também acelerar esse processo de savanização».

«Essa é uma questão importante. Em algumas áreas da bacia já há extensas áreas cobertas por paisagem degrada. Quase 60%, 70% da floresta amazónica que foi desmatada foi substituída por pastagens plantadas, que se não são manejadas adequadamente se degradam, passam a produzir muito pouco e geralmente estão abandonadas».

«Aí realmente será uma savana, mas uma savana empobrecida», afirma o professor da UFAM. «Por outras palavras, seria o rompimento e destruição dos mecanismos de regeneração da floresta».

A velocidade da transformação deverá acelerar. Sob o Governo de Jair Bolsonaro, o desmatamento bateu sucessivos recordes – abril foi o mês com mais desmatamento na última década, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazónia. «A Amazónia é nossa», proclama frequentemente o Presidente brasileiro, aliado próximo dos fazendeiros e madeireiros. Bolsonaro já prometeu aumentar o desenvolvimento da região, algo que se traduz em estradas, estradas e mais estradas.

«A Amazónia até é dos habitats que melhor resistiram à pressão humana, simplesmente porque é difícil destruí-la. Como não há estradas, o que se consegue é destruir a periferia e próximo dos rios», explica Jorge Palmeirim. «Sempre que se constrói uma estrada na Amazónia todo o habitat é arrasado, quilómetro para a direita e para a esquerda, por mais que criem leis e regulamentos. É que permite a penetração dos madeireiros e agricultores, e a fiscalização no Brasil também não é boa».

Savanização

Mais conhecida pelas suas florestas, a Amazónia sempre teve extensas áreas de savanas nativas, a que os brasileiros chamam ‘serrado’. São territórios abertos, com vegetação menos densa e típica de climas secos, apesar de chover praticamente tanto ali como na floresta vizinha – pensa-se que a diferença tenha a ver com o solo, menos rico. Ainda assim, as savanas são lar de algumas espécies ameaçadas, em risco devido à atividade humana – criação de gado, implantação de soja e eucaliptos. 

A savana nativa «não deixa de ser um habitat interessante, mas tem uma fauna empobrecida» comparativamente à floresta, considera Jorge Palmeirim. O professor recorda-se bem das savanas da Amazónia, dos vários projetos de campo em que lá participou, focando-se sobretudo no estudo dos morcegos.

«Os morcegos são um grupo particularmente bom porque há muitas espécies na Amazónia, dá para ver padrões», explica. «O que vemos é que as espécies mais exigentes do ponto de vista do habitat só persistem nas pequenas manchas florestais que existem no meio da savana. Os meios abertos também têm plantas oportunistas, pioneiras, que produzem muitos frutos, mas são poucos as espécies de morcegos que os comem».

A transformação em savana de parte da floresta Amazónica poderia beneficiar algumas espécies, mas seria um desastre para a biodiversidade, reforça Henrique Pereira. «Temos sapos que só vivem dentro de uma planta que acumula água da floresta. Se a planta vai, ele se vai», exemplifica. «Se há uma mudança tão significativa, os organismos mais endémicos, mais especializados, muito deles provavelmente serão extintos localmente».

«Apesar de a floresta amazónica ter uma vegetação realmente muito densa, a biomassa de fauna é pequena. Você não vê manadas de animais como se vê nas savanas africanas, com vegetação aberta. Você ficaria até frustrado ao caminhar pela floresta, não vai ver nenhum bicho assim», promete o professor brasileiro. «Não quer dizer que a fauna não seja diversa, pelo contrário. Há uma incrível diversidade, com muitas espécies, de aves, primatas, anfíbios e répteis».

Com a savanização da Amazónia, não só se perderia fauna e flora, como seria muito difícil que as espécies da savana nativa ocupassem rapidamente a nova paisagem. «Poderiam dizer: ‘Isso não é tão grave assim, já aconteceu no passado, há uns 50 mil anos atrás, o clima já foi mais seco e as savanas expandiram’. Mas isso foi a taxas muito lentas».

«Para ter um ideia, uma árvore da floresta vive cem, duzentos, trezentos, quinhentos anos. Você não pode esperar que em poucas décadas haja possibilidade das espécies mudarem de lugar», exemplifica. «As savanas oriundas do processo de mudança do clima ou degradação do solo terão a fisionomia de uma savana, mas não serão compostas pelas espécies das savanas nativas».

‘Muitas surpresas’

Quando falamos do aquecimento global, não significa que todo o planeta vá sofrer alterações semelhantes. O artigo da Nature Comunications baseado nas previsões climatológicas para este século nota que a floresta amazónica está em risco devido à quebra no seu regime de chuvas. Já a resiliência das florestas australianas deverá manter-se estável, enquanto a resiliência das florestas do Congo até aumenta.

«Às vezes temos um bocado a ideia de que vão aumentar as temperaturas logo diminui a chuva», refere Jorge Palmeirim. «Em Portugal estamos numa região onde a pluviosidade vai diminuir. Mas há certas zonas de floresta de África em que a pluviosidade até deverá aumentar».

«Além disso, há regiões florestais em que a pluviosidade não é gerada pela floresta, mas pela evaporação do mar. A Amazónia, estando no continente, não tem grande influência da chuva vinda do oceano, de um lados até está separada deste pelos Andes»

Não que mais chuva seja necessariamente algo benéfico. Temos o exemplo do Iémen, onde enormes extensões de território, normalmente desérticas, floresceram após serem regadas pelos ciclones Mekunu e Luban, em 2018. Longe da vista da humanidade, enxames de gafanhotos, com proporções bíblicas, multiplicaram-se. No ano passado migraram milhares de quilómetros, chegando à África Oriental, Médio Oriente e Ásia Central, devastando florestas e colheitas pelo caminho, pondo em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Face às alterações climáticas, «é mesmo imprevisível quais vão ser as espécies que vão tirar partido das novas condições e quais serão prejudicadas», avisa o professor da FCUL. «Vai haver muitas surpresas».

Uma estação mais seca

No caso da floresta amazónica, já soam os alarmes. «Os dados climatológicos indicam que a porção sudoeste da bacia do Amazonas – no caso brasileiro falamos da região de Rondónia, parte de Mato Grosso e a fronteira com a Bolívia e o Peru – mostra sinais de uma estação seca mais pronunciada e redução no volume de chuvas», diz Henrique Pereira

«Esse efeito não é uniforme em toda a bacia, talvez daí que a estimativa para a savanização seja em torno desses 40%», acautela o professor da UFAM. «É sempre bom lembrar que esta é uma região de dimensões continentais. Dentro da própria bacia Amazónica há mais de um tipo climático. Desde climas super-húmidos, na região noroeste, Colômbia, Venezuela e extremo noroeste do Brasil, com mais de 4 mil milímetros de chuva por ano, até à borda do sul da Amazónia, onde a floresta se encontra com o serrado», explica. «Ali já há realmente uma estação mais seca. É onde a gente imagina que essas mudanças acontecerão mais cedo e mais rápido».

Memórias

«É um choque perceber que isto está a acontecer por culpa do homem», desabafa Jorge Palmeirim. O professor guarda sobretudo boas recordações da floresta amazónica, do seu tempo a investigar as savanas, eucaliptais e as margens do Amazonas, em redor de Manirauá, no Brasil.

«É uma zona que é completamente inundada na época da enchente, mas mesmo na época seca tem muitos rios e lagos. Nós vivíamos num barco, um barco grande com um tripulante, uma cozinheira e um barquinho pequenino atrás», relembra. Durante o dia uma equipa trabalhava com aves, outra trabalhava à noite com morcegos, utilizando as mesmas redes, os mesmos locais.

«O pessoal dos morcegos dormia na floresta. Lá dorme-se muito com redes, até é bastante confortável, as tendas não dão jeito nenhum onde chove muito, o solo inunda. Usa-se uma rede daquelas de dormir a sesta, depois põe-se um mosquiteiro e um oleado por cima».

«A visibilidade é sempre muito pequena. Nas zonas de savana vemos os animais a 50 e 100 metros. Na Amazónia podem estar a 10 metros que já não os vemos. Além disso, muitos mamíferos e quase todas as aves estão na copa das árvores. E a copa está longe,  a 20 ou 30 metros de distância».

«As pessoas normalmente passam o tempo cá em baixo, onde os níveis de luz são à volta dos 2, 3%, é escuro. Claro que os nossos olhos se adaptam. Mas subir às copas é uma experiência brutal. Vamos no meio do escuro, passamos a linha das copas, e é um mar de verde e céu».

«Já vivi uns bons anos. E olho para trás para o que tínhamos no planeta quando nasci, olho para o que temos hoje e é dramático, não só na Amazónia», lamenta o professor da FCUL, que viu com os seus próprios olhos enormes extensões de floresta tropical destruída.

«É deprimente. Às vezes veem-se zonas recentemente destruídas, com aquelas árvores gigantes ainda a arder. Não dá para não imaginar o que aquilo costumava ser», conta. «Mas é ainda mais deprimente quando vemos uma imagem de satélite, porque aí apercebemo-nos da extensão de área destruída. E é uma tristeza quando percebemos que a produtividade daquelas terras é muito baixa e efémera, os solos são muito pobres. Eles desmatam, queimam, durante uns poucos anos o solo está fertilizado até pelas próprias cinzas. Mas muito rapidamente aquelas zonas passam a ser inúteis para a agricultura e até para a produção de gado».