Opiniao

Mais um episódio de escalada do duelo Washington-Pequim

Desde que Xi Jinping chegou ao poder e lançou uma vasta campanha anti-corrupção, a lista de purgas, na China, já atingiu cerca de 25.000 quadros altos e médios-altos da Administração Pública e das empresas. Um dos sectores atingidos por estas demissões tem sido o sector de Construção e Obras Públicas, onde vários CEOs e Presidentes foram ultimamente demitidos e processados.

por A. P.G

O caso talvez mais falado foi a morte, em 16 de Agosto, de Chen Fenjian, presidente da companhia estatal China Railway Construction Corporation (CRCC), uma empresa de grande dimensão que ocupa o 54º lugar no índice Fortune Global 500 deste ano.

Chen Fenjian, que também foi delegado ao 19º Congresso do Partido Comunista Chinês, tinha 58 anos, estava há dois anos à frente da CRCC. Caiu do 80º andar de um prédio, abrindo um debate sobre as condições do acidente. O jornal financeiro Caixin informou na ocasião que se tratava de suicídio, mas a Segurança Pública empreendeu uma investigação.

O alegado suicídio de Chen levantou grandes dúvidas e especulações. Até porque, além da CRCC, o desaparecido tinha sido, entre 2014 e 2018, presidente da CCCC (China Communications Constructions Company) uma empresa que está sob sanções do Governo Americano. A CCCC é uma das companhias-chave da Belt and Road Initiative, o projecto estratégico mundial chinês, mas já em 2009, sofreu sanções do Banco Mundial, acusada de fraude num concurso nas Filipinas.

A CCCC tem uma capitalização bolsista de 43,5 biliões de Dólares e, em 2019, teve 4,9 biliões de lucros. Tem mais de 60 subsidiárias em 118 países. Mas tem um historial de problemas e controvérsias devido a más práticas em países como as Filipinas, o Sri Lanka, a Malásia, o Bangladesh, a Tailândia, o Canadá e a Austrália e foi, entre 2009 e 2017 sancionada pelo banco mundial. Actualmente um seu projecto no valor de mil milhões de Dólares, o projecto conhecido como Colombo Port City, tem suscitado reacções muito negativas pelo seu impacto ambiental, nomeadamente na actividade piscatória. O Primeiro Ministro do país denunciou o pagamento, em 2018, de 8 milhões de dólares a um dirigente da oposição.

Quanto à CRCC, é uma das maiores construtoras de portos e dragagem. A morte do Presidente levou a uma queda das acções na Bolsa de Hong Kong e Xangai. Na véspera do suicídio (16 de Agosto de 2020) uma comissão especial de inquérito finalizara uma inspecção.

Desde que Xi Jinping iniciou o seu mandato, com vastas medidas anti-corrupção, que mais de 260 “patrões” de importantes companhias e bancos públicos chineses, objecto de inquéritos ou acusações, se suicidaram. O sector da construção e obras públicas tem sido, nos últimos tempos, um dos sectores mais atingidos por demissões e movimentações na alta gestão. Entre estas, a CCCC tem estado particularmente activa na construção de ilhas artificiais no Mar do Sul da China. Num episódio de escalada do duelo Washington-Pequim, o Secretário de Estado Mike Pompeo mencionou-a expressamente para dizer que “a CCCC e as suas subsidiárias se envolveram em corrupção, financiamento predador, destruição do meio ambiente e outros abusos através do mundo (…). O Partido Comunista Chinês não deve poder usar a CCCC ou outras companhias públicas como armas para impor a sua agenda expansionista.”

Respondendo às declarações e sanções de Washington, o jornal oficioso chinês Global Times qualificou de paranóia as declarações e as medidas anunciadas por Pompeo, quer no sector da Construção, quer no sector das telecomunicações (onde foi posto em marcha um plano (Clean Network) para impedir às companhias chinesas o acesso ao sector nos Estados Unidos. A Huawei Technologies Co. Ltd. foi expressamente excluída do mercado das telecomunicações 5G.

Um inquérito do Pew Research Center, realizado entre 10 de Junho e 3 de Agosto em 14 países democráticos, revelou que na maioria destes países há hoje (ao contrário do que se passava há meia dúzia de anos) uma visão desfavorável da China na Austrália (81% dos inquiridos), mas também nos Estados Unidos (73%), no Reino Unido (74%) e na Alemanha (711%). Além destes, os inquéritos foram realizados na Espanha, Canadá, Países Baixos, Suécia e Coreia do Sul. Os números mostram uma deterioração da imagem em relação a 2019; a repressão em Hong Kong e as suspeitas quanto à origem do coronavírus são os principais factores de percepção negativo.