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Ana Gomes e as múmias

A candidata presidencial deve muito às ‘múmias paralíticas’. E sendo assim, não lhe fica bem chamar-lhes nomes. Além de não ser elegante, é um sinal de ingratidão

Um destes dias, Ana Gomes chamou a Cavaco Silva «múmia paralítica». E muita gente do seu círculo exultou. Mas sabia exatamente o que estava a fazer?

Eu pergunto: quando Ana Gomes vai ao Algarve de automóvel, utiliza a estrada nacional ou a autoestrada? A maioria das vezes utilizará a autoestrada. Ora, sabe a quem a deve? À dita ‘múmia paralítica’. Dirá que a autoestrada não se deve a ninguém mas às ‘circunstâncias favoráveis’. O certo é que quem chefiava o Governo nessa altura era a ‘múmia’ – e se fosse outra pessoa tudo poderia ser diferente.

Mas avancemos.

Depois de chegar ao Algarve, quando se dirige a um local qualquer, Ana Gomes segue pela 125 ou pela Via do Infante? Se vai pela Via do Infante, que é mais segura, deve-o à ‘múmia paralítica’. Dirá que, também neste caso, não se pode atribuir o mérito a uma pessoa. Mas se o primeiro-ministro não fosse aquele mas outro, ninguém sabe o que faria.

Quando nos anos 70 e 80 estava no Algarve e queria ir a Ayamonte ou ao sul de Espanha, como muitos outros portugueses, Ana Gomes tinha de apanhar o barco. E esperava possivelmente mais de uma hora debaixo de um sol tórrido. Ora, hoje vai comodamente a Ayamonte ou ao sul de Espanha pela ponte do Guadiana. E isto deve-o a quem? À ‘múmia paralítica’. Argumentará que os espanhóis também participaram na obra, o que é verdade. Mas se fosse outro o nosso primeiro-ministro, não é possível prever o que teria acontecido.

Quando regressa do Algarve e quer ir para a zona oriental de Lisboa, ou para a 2.ª Circular, Ana Gomes utiliza necessariamente a ponte Vasco da Gama. Que também se deve à ‘múmia paralítica’. Haverá quem diga que não. Mas lembro-me bem da polémica que envolveu essa obra – e, se o primeiro-ministro fosse outro, dificilmente a ponte se teria construído. 

Quando vai ao Porto de automóvel pela A1, que continua a ser a via mais utilizada, Ana Gomes sabe com certeza que essa autoestrada foi concluída pela ‘múmia paralítica’. Adiantará, como nos outros casos, que a autoestrada não se deve a ninguém em particular. O que não pode negar é que ela estava planeada há 30 anos e nenhum Governo a tinha conseguido acabar.

Quando vai a um concerto, ou a uma exposição, ou a uma sessão pública no Centro Cultural de Belém, como certamente já aconteceu, Ana Gomes sabe a quem se deve essa obra: à ‘múmia paralítica’, claro. Dirá que o Centro se teria feito de qualquer maneira. Mas não é verdade: tal a controvérsia que suscitou, se fosse outro o primeiro-ministro a obra não teria ido para a frente.

Podia continuar por aí fora – por escolas, hospitais, por mais estradas – mas não vale a pena.

Aliás, a nossa história inclui algumas ‘múmias paralíticas’ de cuja obra Ana Gomes tem beneficiado. A Faculdade de Direito onde estudou, por exemplo, foi obra de uma ‘múmia’ chamada Salazar. Tal como toda a Cidade Universitária, aliás. 

E o manual de Direito Administrativo por onde Ana Gomes estudou foi possivelmente escrito por outra ‘múmia’ – Marcello Caetano. 

Enfim, o menos que se pode dizer é que Ana Gomes deve muito às ‘múmias paralíticas’. E sendo assim, não lhe fica bem chamar-lhes nomes. Além de não ser elegante, é um sinal de ingratidão. 

Já agora, qual foi a obra de que pode orgulhar-se o partido onde Ana Gomes militou primeiro, o MRPP? E qual foi a grande obra realizada pelo seu atual partido, o PS? Talvez a maior tenha sido a luta contra o PCP no Verão Quente de 75, a favor da democracia. Mas aí Ana Gomes ainda não era militante socialista. Depois disso, que obras que se vissem fez o PS nos mais de 20 anos que já leva de presença no poder, desde o 25 de Abril? Ana Gomes lembra-se de alguma? Ou só as irritantes ‘múmias paralíticas’ lhe vêm à memória?

A nossa política está empanturrada de palavras. E Ana Gomes fala, fala, fala, espadeira à esquerda e à direita, agride o passado, insulta quem teve o atrevimento de realizar alguma coisa.

Não seria altura de fazer um exame de consciência e pensar naquilo que ajudou a construir no país onde nasceu?