O Mundo em Calções

O recreio somos nós!

Nando, Jorginho, Nogueira, Rochinha... o Recreio era, também, um mundo de amigos que tocam fundo na saudade.

Na televisão passam imagens do Recreio de Águeda-Beira Mar e eu sei que os tempos mudaram, e muito. O Beira-Mar ganhou, mas não deixa de ser apenas o Bera-Bera. Há muitos anos, para aí há trinta, quando eu trabalhava n’A Bola, ali na Travessa da Queimada, ao Bairro Alto, havia aos domingos à tarde a prática do piquete. Calhava a todos, embora como na frase de Orwell, mais a uns do que a outros. A grande maioria dos jornalistas da casa espalhava-se pelo país, pelas bancadas de imprensa dos campos e dos estádios. A malta do piquete assegurava o funcionamento da redação, a escolha de fotografias, a compilação dos resultados, o recebimento das fichas dos jogos enviadas, via telefone, pelos correspondentes, às vezes mendigadas num qualquer quartel da GNR de Freixo-de-Espada-à-Cinta. Pelas cinco horas da tarde, que era a hora em que os jogos começavam a chegar ao fim, um dos contínuos, talvez o Neres com a sua mão amputada de dedos, talvez o Cunha, com a cabeça besuntada de brilhantina, talvez o Pires ou o Joãozinho, metro e meio de nervos e alma, talvez o Calheiros, vindo da sua Ilha de Moçambique, surgia à beira da minha secretária com um telex ainda fresco da máquina que matraqueava sem descanso naquela saleta onde oAurélio Márcio dormia as suas sestas de dez minutos, agitavam-no sobre a cabeça, arvoravam um sorriso e diziam: «Ò shôr Afonso, o Águeda ganhou!». Ou então o Águeda não ganhava e o sorriso era substituído por um esgar de resignação: «Ò shôr Afonso, o Águeda perdeu...». Curiosa, não é?, esta forma como o verbo ganhar pede ponto de exclamação e o verbo perder pede reticências... As vitórias e as derrotas também marcam o ritmo das pontuações.

Nesses tempos felizes de ABola, o Recreio era entre mim e eles notícia de caráter de urgência. Na brincadeira, eles diziam o Recreativo e parece que, hoje, na televisão o Recreio também passou a Recreativo, ou por ignorância ou por chacota. Em Águeda, o Águeda nunca foi o Águeda – é Recreio e ponto final! Quando as vitórias eram de truz, eu dizia aoNeres, ou ao Cunha ou ao Pires: «Corra lá depressa ao chefe para mandar parar as rotativas. Temos manchete!». 

Quando o Figo, o Rui Costa e o Nuno Gomes marcaram aqueles três golos ao Luxemburgo em 2004, no Estádio Municipal, no Redolho, junto ao Fojo e às Lavadeiras da minha infância e adolescência, senti-me tão livre e tão alegre como no tempo em que dava pontapés numa bola de ‘catchú’ no pelado do Campo de São Sebastião que pertencia ao meu bisavô Afonso, entre tapumes de madeira, com a capela atrás de uma baliza, e que agora é um monte de cimento armado em Câmara Municipal. Ainda não sabíamos nesse dia que iríamos jogar a final do Campeonato da Europa, mas houve, nos golos desses meus três queridos amigos, uma vitória do Recreio de Águeda e da própria Águeda em si: uma vitória sobre a impossibilidade. O meu pai, que assistia ao jogo na bancada, ao lado do ManuelAlegre, num gesto que iriam repetir ao longo de todo o Europeu de felicidade incontida, soltou: «Ia lá a gente imaginar que, quando ouvimos juntos o relato da grande vitória sobre a Espanha em 1947, veríamos alguma vez a seleção jogar em Águeda...». Para mim, essa foi uma espécie de oferta. A eles que tanto me ensinaram e à Águeda e ao Recreio que ainda representam: os meus.

Esta é, pois, uma questão de amizade. Na nossa vez de sermos garotos, também nunca imaginámos que oRecreio jogaria na I Divisão. E jogou: essa equipa onde os amigos não se esquecem, o Nando, o Nogueira, oJorginho, o Rochinha...

Tenho na cabeça uma imagem clara, muito nítida: o Figo ensaia a finta, o adversário está amarrado ao relvado, transido de medo, sabe que está condenado - ao fundo, o Palácio da Borralha, a igreja e o casario que lhes fica por detrás. E a camisola n.º 7 enchendo o primeiro plano de um filme colorido a vermelho e verde. Nesse fim de tarde, Portugal éramos nós. E era Águeda e o rio. E o Recreio.

Já não há piquetes de domingo na Travessa da Queimada, julgo eu. Sejamos práticos; sejamos sérios: já nem os jornalistas vão à bola, não caminham pelo país fora para as bancadas de imprensa. Ficam em casa a ver e a escrever crónicas pela televisão. Foram tomados pelo demónio da preguiça e espalham nas páginas que enchem, aquilo com que lhes enchem os olhos sem critério.

O Recreio podia ter ganho ao Beira-Mar – o Bera-Bera – ali também na minha televisão, mas já não há Neres, nem Cunha, nem Pires nem Calheiros, nem mesmo oJoãozinho de metro e meio e fusca enfiada no cinto – ele que também vendia cintos à malta – que vão a correr ao gabinete do chefe gritar para que parem as rotativas. Não há vitórias do Recreio que possam parar as rotativas, nem faxes que irrompam num grito pelo meio das redações, nem o carrinho de mão do Júlio subindo com esforço a Estrada Nacional mastigando palavrões e a beta do cigarro para ir buscar A Bola das segundas-feiras às camionetas dos Oliveiras. Mas, para mim, o Recreio ainda somos nós! O Manel, diria. «Afonso, Águeda somos nós, entendes?». A menos que tenhamos, todos em Águeda, perdido a memória para sempre.

afonso.melo@newsplex.pt