Pátio das Cantigas

Um grande ‘bico de obra’…

Goste-se ou não do personagem ou do seu perfil político, seria um erro desprezar a análise dos factos, e o conhecimento técnico que tem, assente no saber do professor de economia.

O título declarativo escolhido por este jornal para uma entrevista com Cavaco Silva diz tudo: Neste momento Portugal corre um grande risco. É uma frase simples, direta, cirúrgica, que toda a gente percebe. Se os portugueses, na generalidade, a validam, interiorizam e refletem sobre as suas implicações já é outra coisa.

Em vésperas do colapso de 2011, o país corria alegremente para o abismo, com José Sócrates em pose de primeiro ministro e Teixeira dos Santos a ajudá-lo à festa nas Finanças, enquanto os telejornais, as rádios e boa parte da opinião publicada, cantavam hosanas aos prodigiosos feitos de um governo, transformado em agência de marketing politico, que inventava todos os dias projetos e inaugurações coloridas.

O descarado dispositivo cénico disfarçava fraquezas, ocultava o rasgão profundo na Fazenda e a realidade das contas públicas com os cofres do Estado vazios.

Sabe-se o que aconteceu a seguir: aturdidos, os portugueses acordaram de um dia para o outro em sobressalto, e tomaram consciência do pesadelo que lhes batia à porta.

Para a legião de reformados e de funcionários públicos, o dia seguinte de um Estado falido poderia significar não haver dinheiro para acudir às suas pensões e salários.

Vale a pena contextualizar o que representava – e representa – este potencial maná eleitoral, que o Governo e as esquerdas disputam e querem do seu lado: em 2019, o país contava mais de 3,6 milhões de pensionistas (cerca de 270 mil no início da década de 70).

Quanto ao funcionalismo público, vai a caminho dos 700 mil, sem contar com os 100 mil que o PCP quer injetar no sistema, fora ainda os 30 mil que, em números redondos, a governação socialista já colocou.

Ou seja, quase 15% da população empregada está na função pública, e não falta muito para repor a totalidade dos 71 mil serventuários do Estado dispensados no tempo da troika.

Em 2011, valeu-nos na emergência a solidariedade europeia e o FMI para impedir um desfecho dramático, que outros países já sofreram e ainda sofrem na pele, com consequências devastadoras para as suas populações.

Só por isso não imitámos a Venezuela ou a Argentina, embora pouco tivesse faltado para lá chegarmos.

Perante a grave recessão que o país tem novamente sentada à mesa do Orçamento, agora mascarada com a pandemia, impõe-se evocar esta história, e repeti-la como lição de vida que não aprendemos, ou que foi perdoada com um encolher de ombros resignado.

Ontem, com Sócrates, e hoje, com António Costa, vive-se uma fantasia perigosa, com laivos e contornos já autoritários, que pode correr muito mal. Se a bancarrota de 2011 trouxe a desculpa esfarrapada das ‘ondas de choque’ da falência da Lehman Brothers em 2008, agora a desculpa é o vírus. Ontem conseguiu-se dinheiro fresco com a troika, hoje enche-se a boca com a ‘bazuca’. O PS não mudou. O que mudou foi a desculpa.

Aquilo que nos deveria envergonhar, se nos sobrasse um pingo de dignidade, é motivo de regozijo, mais parecendo que as dádivas dos ‘frugais’ vão resolver todos os nossos atrasos endémicos.

Ninguém se interroga, ao menos, como é que nesta Europa, fustigada pelo ‘vírus chinês’, há países que continuam a dispor de recursos suficientes para se bastarem – mesmo em situação de crise sanitária –, e ainda contribuírem para salvar outros cronicamente deficitários?

Será que ninguém estranha, no caso português, duas bancarrotas pós 25 de Abril -–não obstante o apregoado ‘milagre das rosas’ socialista –, sem apontar o dedo aos verdadeiros culpados pela austeridade sofrida e que só por brincadeira de mau gosto se diz ter terminado?

Nos EUA, Bernard Madoff, que fez estremecer Wall Street, foi investigado, julgado e condenado em menos de um ano.

Por aqui, aguarda-se, desde agosto de 2014, que a derrocada do BES tenha o processo concluído, e sejam julgados os responsáveis, enquanto um ex-primeiro ministro – acusado pelo Ministério Público desde, outubro de 2017, de numerosos crimes e suspeito de acumular milhões de euros na Suíça –, ainda se passeia na expectativa de não ir a julgamento.

Esta discrepância de modelos de Justiça diz muito, também, sobre o alastramento dos fenómenos de corrupção.

É neste quadro de referências sombrias que Cavaco Silva decidiu publicar mais um livro de memórias, com a sua versão por dentro da história vivida.

Goste-se ou não do personagem ou do seu perfil político, seria um erro desprezar a análise dos factos, e o conhecimento técnico que tem, assente no saber do professor de economia.

E o que diz, assusta. Em particular ao confessar que «como português, sentiria uma grande tristeza ao ver Portugal como lanterna vermelha da Europa». De facto, não falta muito para o crescimento da Letónia e o pragmatismo da Grécia nos ultrapassarem, remetendo Portugal para o último lugar.

Por isso, Cavaco, como Passos Coelho noutro plano, são os ‘sacos de boxe’ das esquerdas que tomaram conta do país, e que veem neles os ‘adversários a abater’, para continuarem a viver à farta e à sombra dos privilégios do Estado que capturaram.

Sabe Deus os sapos que as esquerdas tiveram de engolir até aprisionarem um Presidente da República de ‘direita’ que, ao contrário dos seus antecessores, tem vindo a amparar – e a ‘safar’ o Governo de muitas asneiras –, com singular desvelo e abdicação de poderes.

Para não recuar muito, houve recentemente quem se indignasse com a ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal, ou com a escolha de Lucília Gago para PGR e de um juiz burocrata para presidir ao Tribunal de Contas.

O certo é que não se pressentiu em Belém um estremecimento, uma dúvida, uma resistência. Nomeações assinadas e ‘ala que se faz tarde’ para advertir que o próximo Natal não poderá ser como dantes, por causa da covid…

A vida portuguesa voltou a fazer-se em circuito fechado, não faltando os dependentes em fila, de malga na mão, não vá a ‘bazuca’ passar-lhes ao lado e não chegar a todos.

Nas últimas semanas algumas (poucas) vozes vieram a público, alarmadas com a possibilidade de se repetir o desastre. Mas quem os ouve, quando o Presidente da República e o suposto líder da oposição andam de braço dado com o primeiro ministro, partilhando as mesmas cumplicidades?...

É um quadro inédito e um verdadeiro ‘bico de obra’ para democracia portuguesa, ‘entalada’ entre um populismo de ‘selfies’ e um calculismo de segurar o poder a qualquer custo…