Tautologias

Sur toutes les pages

 Tal como a leitura da História de Portugal e das Lendas e Narrativas do nosso Herculano bem ilustram, a grande ficção revela mais expressivamente a realidade do que a História melhor documentada e rigorosa.

«Sur toutes les pages lues / Sur toutes les pages blanches / J’écris ton nom / Liberté». 
 Paul Éluard

1. Tal como a leitura da História de Portugal e das Lendas e Narrativas do nosso Herculano bem ilustram, a grande ficção revela mais expressivamente a realidade do que a História melhor documentada e rigorosa. A sociologia, essa, mente-a. 

2. Os meus filhos nasceram depois do 25 de Abril. Tive por isso o sentimento muito gratificante de ver a sua emoção até às lágrimas quando viram comigo recentemente a cena mais inesquecível de Casablanca: o momento em que no mítico Rick’s Café se ergue incontida – e sobrepõe aos cânticos nazis – uma Marselhesa vibrante cantada por vozes boémias alheias ao perigo das exteriorizações patrióticas de resistência. Momento em que dei comigo a pensar que, afinal, a genética talvez conte em domínios em que se julga não contar.

3. Parece-me ver na história e na cultura francesas uma estranha oscilação entre a entrega lasciva ao opressivo e a exaltação da liberdade.

Como se a sociedade francesa gostasse de se abandonar a um masoquista acumular de intolerável para viver depois o orgasmo da libertação.

Há comentadores respeitáveis que consideram que o problema da progressão exponencial da presença do islamismo em França, alimentado pelo apoio e encorajamento da santa-aliança islamo-esquerdista, só virá a ser resolvido com algo próximo de uma guerra civil.

Surpreendeu-me, por isso, que, no ambiente de uma comunicação social repartida por muitas (frequentemente caprichosas) identificações ideológicas, quase todos os meios se tenham unido num manifesto em defesa da liberdade e da democracia!

Aconteceu após a edição de um livro de memórias em que o Charlie Hebdo voltou a publicar os cartoons de Maomé, iniciativa logo condenada por chefes de Estado estrangeiros, entre os quais o turco Erdogan. Uma responsável da publicação, Marika Bret, teve de deixar a casa onde vive após ameaças da Al-Qaeda. 

Então, por iniciativa de Riss, diretor do Charlie Hebdo, um grupo de jornais, a que se juntaram dezenas de meios de comunicação escritos e audiovisuais, elaborou um manifesto em defesa da liberdade de expressão: ‘Ensemble défendons la liberté! Carta aberta aos nossos concidadãos’. Transcrevo a parte final:

«Alguns de nós são crentes e podem, compreensivelmente, ficar chocados com a blasfémia. No entanto, também eles se associam de todo o coração à nossa abordagem. Porque, ao defender a liberdade de blasfemar, não estamos defender a blasfémia mas sim a liberdade. Precisamos de vós. Da vossa mobilização. Da muralha das vossas consciências. Os inimigos da liberdade precisam saber que todos somos seus adversários firmes, independentemente das nossas diferenças de opinião ou crença. Cidadãos, autoridades locais eleitas, políticos, jornalistas, ativistas de todos os partidos e todas as associações, mais do que nunca, neste tempo incerto, devemos unir forças para afastar o medo e fazer triunfar o nosso amor indestrutível pela Liberdade». 

Algo assim dificilmente se imagina poder acontecer no nosso país, com a generalidade dos órgãos de comunicação social vergados ao politicamente correto (mas há exceções e jornalistas que resistem), à farsa que a política vem sendo, oferecendo o seu espaço numa prudente e conveniente repartição pelos partidos.