Opiniao

Melancolia ou Esperança

Por Joaquim Silva Pinto

1.ª Parte – Melancolia

Com a generosidade de frade franciscano, um amigo de longa data, fiel ao comportamento caritativo e naturalista do fundador da Ordem, menciona o vírus causador da pandemia atual, como ‘fraternal covid-19’. Assim o santo de Assis tratava o lobo ameaçador da povoação, amansando-o pela paciência. Essa exortação me tem ajudado a suportar com disciplina o rigor do confinamento aconselhável aos seniores, fazendo quase sempre boa cara à menor cadência das minhas pretensões de envelhecimento ativo, diligenciando manter autocontrole, essa conduta, que interiorizei como pratica desejável, desde criança num colégio inglês em tempos da II Guerra Mundial, acompanhando o luto de professores e colegas refugiados, bem como temerosas famílias judias visitas assíduas da casa de meus pais. Há que aguentar. Só que, ao por do sol, algum mal estar nos invade, porque como Cesário Verde escreveu: «Ao anoitecer há tal soturnidade, há tal melancolia, que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia despertam(me) um desejo absurdo de sofrer». Seja como for, tenho aproveitado o tempo para refletir sobrepondo ao alarme e criticismo, a Esperança.

Daí que submeta este artigo, dividido em duas partes, ao juízo dos leitores numa visão revista, expurgadas as passagens mais contundentes face à previsão da crise, que ai vem avassaladora nos contornos económicos e sociais, pondo em causa, com a força de um furação, não só o progresso, mas também a ordem publica. Todos sabemos das causas de índole global, mas há que reconhecer ter-se agravado a situação entre nós pela imperícia de uma desgovernação de quatro anos substituindo  a máquina do Estado democrático pela geringonça, ente desconjuntado por definição.

Navegou-se à vista num taticismo alheio a adequada estratégia, visando agradar casuisticamente a grupos de pressão, dizendo aqui o contrário do que se proferia ali, entre Lisboa e Bruxelas, mudando de discurso para patrões ou empregados, entretendo os ricos, iludindo os pobres, destruindo a classe média através de impostos indiretos, prometendo o que se cativava depois, falseando sem pudor num ilusionismo, que tinha como máxima provocação citar ‘o milagre português’ à saída das sopas para pobres. Responsáveis políticos se autoproclamavam «otimista incorrigível», o que em contexto de aperto do cinto para a generalidade dos cidadãos, correspondia ao que antes se identificava como pateta alegre.

Contudo, uma comunicação social sobretudo televisiva, em parte por parcialismo político, em maior grau por fragilidade financeira, agarrando-se ao Poder como tábua de salvação, foi classificando descaramento como habilidade política, valorizando o engano em relação à verdade, promovendo na ribalta o malandreco de turno, menosprezando quem devia ser lembrado pelo exemplo de frontalidade com que ultrapassou uma situação nacional pré-falimentar, relançando o país nos mercados internacionais ao libertá-lo da identificação com o caos grego, para poder ser um membro credível do Eurogrupo. E mais longe se tivera ido não fosse o regresso ao despesismo guterrista, não se tendo sequer enterrado completamente o cadáver do socratismo.

Fiz bem em omitir referencias a personagens concretas relacionadas com corrupção ativa e passiva, gestão danosa, pedofilia, violência doméstica, assédio em locais de trabalho, fuga de impostos a cargo de consagrados fiscalistas, como também a distorções informativas por parte de analistas dito independentes em beneficio de ambições próprias ou de tutores. A História que os venha a julgar. Irrita-me, é certo, o despudor de alguns, que teimam em continuar a pisar o tapete da sedes do Poder, como se não tivessem a sola dos sapatos conspurcada. Adivinho, porém, as insónias de quando se lhes aviva a convicção de que a verdade acabará por ressaltar. O pecado espelha-se-lhes na cara atraiçoando-os com o despropósito do risinho nervoso. Outros desapareceram abruptamente, arautos frequentes de ontem, viajantes incógnitos depois. Por onde andarão políticos conhecidos e advogados reputados? Cheguei a fixar-me em alguns como previsíveis homens de futuro pela inteligência e desembaraço. Cegou-os a ganância, ofuscou-lhes a ânsia de poder. Deixei de lhes apertar a mão já antes das imposições sanitárias da era covid-19.

Ficou, portanto, um terço do artigo por publicar. Todavia, se persisto em vir alvoraçar o leitor com o restante, é para me confessar perplexo ao ouvir ou ler personalidades credíveis pelo curriculum sustentar como benéfico para Portugal e sua inserção designadamente na UE, NATO, CPLP da proclamada estabilidade. 

Em nome desta, chega-se a recomendar a aprovação de orçamentos sem os ler, acreditando-se que a Europa, por exemplo, descura a apreciação da qualidade dos objetivos e medidas em favor do cumprimento do ritual de uma aprovação orçamental sem ir ao fundo das realidades, ou da apresentação de uma listagem de investimentos públicos de remota praticabilidade ou duvidoso interesse prioritário. A velha pratica do farisaísmo que para se manter na condução do povo salvífico não hesitava em sacrificar a Salvação. A adoção da mesquinha lógica do mal menor fere a confiança do povo retirando-lhe capacidade criativa.

Acima de tudo, surpreende-me quem defenda uma nova evolução na continuidade esquecendo a dolorosa experiência familiar, que partilhei, chamando embora repetidamente a atenção, para desconto dos meus pecados, de que com o tempo se ia caindo numa evolução sem continuidade. Compreendo embora o estratagema de Costa e de Rio, verso e reservo de uma mesma moeda, para evitar  o desastre no seio dos respetivos partidos políticos. Mário Soares preconizou um Bloco Central para viabilizar a conformidade entre a entrada para as comunidades europeias com a tradição histórica pluricontinental do nosso país. Fê-lo segundo uma estratégia valorizada por Ernâni Lopes muito influente nos meios europeus. Vivi a experiência de perto. Agora o bloquito central tem como propósito manter a embarcação à tona sem horizonte à vista.

Será que Marcelo Rebelo de Sousa aceitará recandidatar-se em nome dessa estabilidade instável servindo pela sua popularidade de cobertura em plena borrasca? Disso nos ocuparemos na segunda parte do artigo.