Viver Para Contar

Uma ida à praia

Estava escrito, porém, que nessa manhã eu deveria beber o cálice até ao fim.

Como os meus leitores sabem, sou frequentador da Praia do Barril há muitos anos. Desde os idos de 1975. No tal Verão Quente. É uma das grandes praias do país, com um areal que se estende por quilómetros, onde outrora existiu uma armação de pesca do atum.

Ainda lá existem múltiplos vestígios dessa época. Um deles é um comboio que parece de brincar, construído para transportar as postas dos animais. Os atuns eram esquartejados num edifício junto à praia, salgados e metidos em barris, onde seguiam no tal comboiozinho em direção a terra firme. Daqui o nome de Praia do Barril. 

Aquilo que era um importante centro pesqueiro é hoje um ótimo espaço de lazer.

E para lá me dirigia com a minha mulher num destes primeiros dias de outubro. O tempo estava magnífico, com um calor reconfortante mas não excessivo. Antes de sairmos de casa, perguntara à minha mulher se levava a máscara – exigida no comboio, apesar de este ser totalmente aberto. Respondera-me que sim.

Ao aproximarmo-nos do comboio, pus a máscara na cara e a minha mulher dispôs-se a fazer o mesmo. Abriu o saco, olhou para dentro e ouvi-a dizer «Mau». Mas como as mulheres têm por vezes dificuldade em encontrar o que procuram nos sacos ou nas malas, onde transportam toda a tralha, esperei que fosse isso que estivesse a acontecer. Mas infelizmente não era. Remexeu dentro do saco, voltou a remexer, e no fim concluiu que a máscara não tinha vindo.

Voltei então para trás disposto a comprar uma máscara no quiosque situado numa subida a uns 200 metros dali. Mas no quiosque as máscaras tinham esgotado. «No supermercado vendem», disseram-me. Fui ao supermercado, localizado quase em frente, não vi ninguém, gritei para dentro se vendiam máscaras, mas uma voz de que não vi o rosto respondeu-me que não: já não havia. Mas costumava haver na receção...

Dirigi-me para a receção, situada nas traseiras do supermercado. Entrei, perguntei se tinham máscaras, disseram que sim e que tipo de máscara queria, respondi «a mais comum», trouxeram-me uma dessas máscaras que toda a gente usa (azuis claras ou esverdeadas, com fole), pela qual me pediram 1 euro. E ainda me perguntaram se queria fatura!

Com a máscara na mão, qual troféu, lá voltei ao encontro da minha mulher. Mas a meio caminho um carro parou ao meu lado – e da janela emergiu uma cabeça de mulher. Percebi que era espanhola, pensei que me fosse pedir qualquer informação, mas ouvi a palavra «mascarilla» e fiquei alerta. Como eu não levava a máscara posta, pensei que estivesse a dizer-me para a colocar. Há gente assim, zelosa. Mas a senhora repetiu a frase e percebi que me estava a avisar de que eu tinha deixado cair uma máscara.

Como a que comprara estava bem segura na mão esquerda, depreendi que fosse a minha, que metera no bolso. Voltei então atrás a perscrutar o chão – e de facto lá estava, caída no alcatrão. A espanhola tinha-me salvo de boa! Se não fosse ela, teria perdido a minha máscara e tudo voltaria ao princípio. Tinha ido comprar uma máscara, e no caminho perdia a outra!

Reuni-me à minha mulher no local onde a tinha deixado, entreguei-lhe a máscara que comprara – e qual não foi o meu espanto quando ela levantou a outra mão com uma máscara segura nos dedos. Afinal não se esquecera de a trazer.

Mas enfiara-a no braço e não voltara a lembrar-se. E eu também não reparara.

Tínhamos feito figura de parvos! Pusemos as máscaras, pegámos nas coisas e lá fomos para o comboio. Intimamente irritados mas felizes. Só que a saga ainda não tinha acabado. 

Chegados à praia, olhei para os volumes que trazíamos e percebi instintivamente que faltava alguma coisa. Perguntei alto: «O chapéu de sol?». Não constava. Tínhamo-nos certamente esquecido dele no local onde paráramos para eu ir comprar a máscara. «Ficou lá no chão», concluiu a minha mulher, conformada.

Dispus-me a voltar atrás pela segunda vez. Ela ainda disse para não ir, que o chapéu já estava velho, mas para mim era agora uma questão de orgulho. Apanhei o comboio, fiz todo o trajeto de regresso até ao local onde fora a paragem, só que aí chegado tive uma grande desilusão: do chapéu de sol não havia sinal. 

Custava-me a acreditar no que os meus olhos viam. Não era crível que alguém o tivesse levado... 

Observei, então, com mais cuidado. Vasculhei o chão, espreitei os arbustos próximos, e finalmente encontrei-o: estava, muito direitinho, encostado a um placard. Como o cartaz do placard era em tons de azul, e o chapéu de sol também, confundiam-se.

Agora, sim, tínhamos tudo: três máscaras (a que comprara, a que a minha mulher afinal trouxera e a que eu não perdera devido ao aviso da espanhola) e o chapéu de sol. Respirei fundo, aliviado. Ainda por cima, o comboio em que eu viera ainda estava no cais, pelo que não tinha perdido muito tempo. 

Estava escrito, porém, que nessa manhã eu deveria beber o cálice até ao fim. Quando me aproximava do comboiozinho, fazendo sinais desesperados ao maquinista para não arrancar, este arrancou mesmo – e tive de esperar pelo comboio seguinte. Há dias em que não se deve sair de casa…

Não foi, porém, o caso. O tempo na praia estava esplêndido: nem demasiado quente nem frio, não corria uma aragem, o ar límpido revelava um sol magnífico, a água estava deliciosamente fresca: custava um pouco a entrar mas depois não apetecia sair. O dia de praia, apesar de reduzido pelas peripécias, acabou em beleza. O meu esforço fora recompensado.

Moral da história: por muitos obstáculos que nos surjam ao caminho, não devemos desistir dos nossos objetivos!