Política a Sério

Ventura ou Ana Gomes?

A atitude de Rui Rio ao quase desistir de fazer oposição também beneficia Ventura, pois entrega-lhe de mão beijada todo o campo da direita. Aliás, André Ventura tem crescido mais por ‘falta de comparência’ do PSD (e do CDS) do que pela qualidade das suas propostas. E a somar a isto dá-se ainda o facto de, no espaço da direita, Ventura ser hoje o único homem que tem características de líder.

Nunca houve umas presidenciais assim.

As presidenciais sempre dividiram a sociedade portuguesa ao meio: de um lado a direita, de outro lado a esquerda.

Excluindo as eleições envolvendo Eanes, que era um candidato militar com características próprias, tivemos Mário Soares contra Freitas do Amaral, Jorge Sampaio contra Cavaco Silva, Cavaco Silva contra Mário Soares e Manuel Alegre, Marcelo Rebelo de Sousa contra Sampaio da Nóvoa.

Só a reeleição de Mário Soares em 1991 teve semelhanças com esta: o Presidente estava à partida reeleito e beneficiava do apoio dos dois principais partidos – como acontece agora com Marcelo.

Mesmo assim, Soares afirmava-se abertamente como ‘um homem de esquerda’, sempre o disse, e Marcelo não se diz de direita nem de esquerda.

Nem nunca o dirá.

Assim, nas próximas presidenciais, vamos ter um candidato ‘rigorosamente ao centro’, apoiado explícita ou implicitamente pelo PSD e pelo PS, tendo um adversário à sua direita (André Ventura) e três à sua esquerda (Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira).

Imaginemos que Marcelo Rebelo de Sousa se situará na casa dos 65% – deixando 35% para os seus adversários.

Admitamos que, destes 35%, a esquerda ficará com 20 e a direita com 15%.

Se for assim, André Ventura terá à sua mercê 15% – e Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira terão 20% para dividir entre si.

Dos três candidatos da esquerda, Ana Gomes é a mais bem colocada.

Em primeiro lugar, porque, ao contrário dos outros dois, pescará bastantes votos no PS. Neste aspeto, o apoio implícito de António Costa a Marcelo Rebelo de Sousa ajudou-a imenso. Com o PS a apostar num militante do PSD, uma parte da ala esquerda socialista votará com certeza em Ana Gomes.

Em segundo lugar, porque Ana Gomes tem mais notoriedade mediática do que Marisa Matias e João Ferreira.

Finalmente, porque é o ‘voto útil’ da esquerda.

Assim, enquanto os candidatos do BE e do PCP só colherão votos nos respetivos partidos, Ana Gomes recolhê-los-á numa área que vai da esquerda do PS à extrema-esquerda indiferenciada.

Por isso, dos 20% de que a esquerda disporá, a deputada europeia poderá capitalizar 10%, ficando os outros 10% para distribuir entre Marisa e João Ferreira.

Coloca-se agora a questão de saber se estes 10% que Ana Gomes poderá obter chegarão ou não para ficar em segundo lugar, à frente de André Ventura.

Antes do mais, deve dizer-se que Ventura também beneficia com o apoio de António Costa a Marcelo Rebelo de Sousa.

Como?

Na medida em que esse apoio ‘puxa’ Marcelo mais para a esquerda.

Se Marcelo surgir como o candidato ‘de que o PS gosta’, os militantes do PSD sentir-se-ão menos mobilizados para votar nele.

Votar em Marcelo significará, no fundo, votar na coabitação Marcelo-Costa – e os sociais-democratas que anseiam por mudar de Governo dificilmente alinharão nessa ideia.

Acresce que a atitude de Rui Rio ao quase desistir de fazer oposição também beneficia Ventura, pois entrega-lhe de mão beijada todo o campo da direita.

Aliás, André Ventura tem crescido mais por ‘falta de comparência’ do PSD (e do CDS) do que pela qualidade das suas propostas.

E a somar a isto dá-se ainda o facto de, no espaço da direita, Ventura ser hoje o único homem que tem características de líder.

Não se vê mais ninguém.

Rui Rio não tem esse ADN e o jovem presidente do CDS não é levado muito a sério.

Ora, todos sabemos como isso é decisivo.

Quando é que o PSD e o CDS foram partidos importantes?

Quando tiveram à frente líderes como Sá Carneiro, Cavaco Silva, Freitas do Amaral ou Paulo Portas.

Fora dessas épocas, com raras exceções (e vale a pena referir Passos Coelho), apagaram-se.

André Ventura vai, pois, ter à sua mercê os votos de toda a gente à direita de Marcelo – e se estes representam 15%, é o que ele terá oportunidade de conseguir.

E se for assim ficará provavelmente à frente de Ana Gomes, que dificilmente subirá muito dos 10%.

Mas atenção: a campanha ainda não começou.

E a campanha presidencial é muito importante, porque o cargo é unipessoal.

E se já sabemos como atuam em campanha Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e João Ferreira, as campanhas de André Ventura e Ana Gomes suscitam muita curiosidade e podem alterar substancialmente as previsões.

Para ele e para ela vão ser provas políticas decisivas.