Sociedade

Entrevista ao presidente do Hospital de Penafiel, no epicentro do aumento de casos no Norte. "Não há sinais de estabilização"

No epicentro de um aumento explosivo de casos na região Norte, o presidente do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, Carlos Alberto Silva, espera que todo o país tire lições. Diz que o relaxamento na entrada no outono esteve na comunidade e não da preparação dos hospitais e, sem querer polémicas, afirma: articulação entre setores existe, mas ‘não tem havido disponibilidade dos privados para receber doentes covid’.

 

O Hospital de Penafiel volta a ser dos primeiros a ficar sobrecarregado com a covid-19, são quem tem mais doentes. Como chegam ao final desta semana?

Estamos a viver um período de grande pressão, como é normal, e que se irá estender nos próximos dias tendo em conta o aumento muito acentuado de casos que estamos a ter.

Quando diz que é normal...

Digo que é normal para o surto que estamos a viver na região, porque é uma situação completamente anormal e com a qual não estávamos a contar a esta altura.

Quantos doentes com covid-19 têm no hospital?

Mais de cem doentes internados, sete em cuidados intensivos, mas a perspetiva é que aumente.

Com esse número de doentes, qual é neste momento a percentagem de camas do hospital dedicadas à covid-19? Chegou a falar-se nos últimos dias de mais de 20%.

Já me têm perguntado, mas acho que o importante é perceber como isto funciona. Como qualquer instituição, o hospital vai usando as camas em função das necessidades. Há duas semanas não pensávamos ter de estar agora a usar tantas camas. Temos vindo a dedicar camas à covid-19 em função dos doentes que aparecem e como acontece naturalmente em picos, quando é preciso ajuda de outros hospitais, recorremos a essa ajuda. É o que estamos a fazer.

O que projetavam para esta altura?

Tínhamos em preparação uma estrutura de apoio à urgência que estará concluída no final do mês. O pico da gripe era esperado do início de novembro para a frente, pelo que estávamos à espera de um aumento de doentes mas não algo desta dimensão e com um crescimento tão repentino.

Conseguem perceber o que fomentou estes contágios? Onde é que os doentes se infetaram?

O que vai sendo comunicado é que grande parte das contaminações se devem aglomerações familiares e de amigos. Foi notícia há pouco tempo uma discoteca fechada em Felgueiras. Há feiras que se continuam a fazer. Comunhões que depois geram inevitavelmente o almoço de família. Há uma vontade generalizada de manter a normalidade na vida das pessoas, e isso compreende-se. Ninguém quer um novo confinamento. Agora há uma dimensão a partir da qual temos de perceber que já não podemos ir.

As pessoas não o entenderam?

Na primeira fase tivemos de esmagar a curva para podermos responder. Depois foi havendo um distendimento no nosso comportamento social, tivemos o verão, a vinda dos emigrantes, as pessoas que se reuniram e foi possível acomodar tudo isto de forma razoável e bem: enquanto seres humanos não podemos viver confinados permanentemente. Agora chega a um determinado ponto em que se há esta explosão de casos, é preciso voltar a comprimir a curva. Se calhar não com a dimensão que se fez da outra vez, e daí estas medidas focalizadas implementadas esta semana.

O seu centro hospitalar alertou para o aumento de casos em toda a vossa zona, 12 concelhos. Parece-lhe que as medidas sendo aplicadas apenas nos concelhos de Paços de Ferreira, Lousada e Felgueiras serão suficientes?

Esperamos que sim, mas se não forem terá de se ver. Há uma avaliação dia a dia. Se não funcionar só com estas medidas, ter-se-ão de impor outras. Quando fizemos esse alerta foi no sentido de as pessoas perceberem que os comportamentos inadequados geram depois casos em pessoas que vão precisar de ser internadas e porque acabámos por ter um grande afluxo à urgência, que prejudica o atendimento dos doentes que são verdadeiramente urgentes. Nos últimos tempos, nas últimas duas semanas, tivemos picos de afluência à urgência superiores ao que seriam os picos que costumamos ter na gripe. Houve muita gente que veio à urgência só para fazer o teste e isto assim não podia continuar.

Chegou a falar esta semana de mais de 800 pessoas na urgência num dia.

Exatamente. Nós ao longo do ano somos a segunda maior urgência do Norte depois do São João. Já somos um hospital em grande carga, com uma grande necessidade assistencial por parte da população.      Números desses só vemos no pico da gripe e nem sempre. Temos 200 pessoas a vir diariamente só para fazer o teste. E foi por isso que tiveram de abrir novos centros de testagem. Abriu esta semana um em Paços de Ferreira, abriu outro no centro de exposições em Penafiel e na próxima semana já abre outro aqui em Penafiel. Portanto está-se a tomar um conjunto de medidas para retirar os doentes da urgência e permitir que respondamos adequadamente aos doentes que realmente precisam.

Tendo começado a ver sinais dessa afluência atípica há duas semanas, não era possível ter feito nada mais cedo?

A afluência mais inusitada começámos a vê-la no final da semana passada e daí o alerta que fizemos. Os centros estavam abertos na segunda-feira. Uma pessoa não tira do bolso pontos de testagem. Estamos perante uma situação que é uma surpresa todos os dias e penso que não devemos ter uma atitude de permanente crítica sobre aquilo que supostamente devia ter sido feito. Estamos perante uma pandemia mundial onde, por essa ordem de grandeza, ninguém conseguiu fazer nada. Estamos a ir reagindo de uma forma gradual, progressiva e cada vez mais forte às exigências do dia a dia. Penso que não há atraso nas medidas porque houve um crescimento repentino que nada fazia prever.

Na primeira vaga foram também uma das regiões a ter um maior aumento de casos . Consegue encontrar uma explicação?

Não tenho, terá de alguém fazer essa análise sociológica. É preciso perceber o contexto do hospital. Tratamos 5% da população portuguesa, numa área enorme, basta a probabilidade para ver que pode acontecer aqui. O porquê de sermos os primeiros não tenho uma explicação para isso. De uma coisa tenho a convicção: o vírus não é nosso nem vai cá ficar. Acabará mais tarde ou mais cedo por ter outras viagens para outros sítios.

Paços de Ferreira passa de 124 casos numa semana para 565 na seguinte, o crescimento explosivo que referiu. Acha que deve ficar alguma lição para o resto do país?

Espero bem que fique. E por isso tenho feito apelos tão veementes para que as pessoas compreendam. Ao longo do ano já temos uma carga assistencial muito grande. Numa situação como esta os nossos profissionais sentem-se injustiçados até por terem de ser vítimas muitas vezes de comportamentos irresponsáveis, de coisas perfeitamente escusadas. Estávamos num processo fantástico de recuperação das listas de espera e tratamento de doentes não covid. Da mesma maneira que fomos os primeiros a sofrer com a pandemia na primeira fase, fomos os primeiros a sair. Estávamos num ritmo fantástico e parou tudo outra vez. As cirurgias programas não urgentes estão outra vez suspensas.

Todas?

Sim. Tudo o que implique ter camas. Cirurgia de ambulatório continuamos a fazer e a responsabilidade de tratar doentes não covid mantém-se, naturalmente.

Um dos objetivos no plano para o outono/inverno era não ter de voltar a esse ponto. A rede hospitalar ainda não está lotada. Não houve alternativa a suspender cirurgias?

O objetivo era não ter tantos doentes. Claro que estamos a usar a rede hospitalar para transferir alguns doentes , como fazemos longo do ano, seja para hospitais públicos, privado ou setor social. E isso é algo que quero que fique claro. Nunca houve nenhum bloqueio a isso. Durante o ano recorremos à Trofa Saúde em Vila Real, às misericórdias.

Está a dizer que já existe a ligação com o setor privado e social.

Sim, quando surgem necessidades isso acontece. Do ponto de vista dos privados não tem é havido disponibilidade para receber doentes com covid-19. O único hospital que recebeu doentes fora do SNS foi o hospital da Universidade Fernando Pessoa em Gondomar. Foi o único.

Acha que é uma falsa questão então quando se ouve críticas ao Ministério da Saúde por não envolver os outros setores?

Não quero aqui fazer acusações. Só digo que é uma realidade que só tenho conseguido transferir doentes covid para o Hospital da Universidade Fernando Pessoa em Gondomar.

É uma discussão que não bate certo com a sua realidade?

Não bate mesmo. Não gosto de ser polémico, gosto de ser pedagógico. Ao longo do ano temos esta relação com o privado e setor social. Tratamos 520 mil pessoas, distribuídas por 12 concelhos em quatro distritos. Para as pessoas de Lisboa conseguirem perceber às vezes digo que somos o Amadora-Sintra do Norte. Conhecem bem a realidade do Amadora-Sintra, ficam a perceber o que é o Tâmega e Sousa.

Urgências mais sobrelotadas no inverno, subdimensionado para a população que cobre?

Exatamente. Não estamos ao lado da grande Lisboa, mas estamos ao lado do grande Porto e cobrimos uma grande zona.

Portugal teve sucesso no combate à primeira onda. Tem-se falado dos comportamentos, mas há também críticas à preparação ao nível da resposta de saúde. Sente que a esse nível houve algum relaxamento?

O relaxamento está na comunidade. Seja em profissionais e investimento, houve uma mudança significativa. Gastou-se muito dinheiro, contratámos 130 pessoas e temos autonomia para contratar aqueles que precisarmos, exceto médicos, que depende de concurso. À medida que temos necessidade contratamos.

Tem havido relato de vários profissionais infetados no hospital nos últimos dias. Têm quantos casos?

Não há nenhuma instituição neste momento, e sobretudo nesta região, que possa dizer que não tem pessoal infetado. Nós, sendo dos maiores, também temos.

Mais do que o início?

Claro, porque está muito mais disseminado. Neste momento isso não está a afetar a atividade do hospital porque substituímos as pessoas. Não são só contaminados. Também temos pessoas em quarentena, um profissional que tem um filho infetado no colégio e tem de ficar em casa de quarentena. Um empregador com 1200 como nós tem muitas dessas situações.

O responsável da urgência do São João relatava-nos na semana passada a ideia de que o vírus hoje está muito mais espalhado, que toda a gente conhece alguém. Tem a mesma perceção?

Sim, sim. Não há ninguém que possa dizer hoje em dia que não tem amigos ou familiares infetados. Numa situação como temos, a probabilidade de ser infetado é enorme.

Sentem alguma estabilização nos últimos dias?

Não há estabilização nenhuma e prevemos que os próximos dias continuem a ser dias de pressão. Enquanto os casos continuarem a crescer teremos de lidar com eles. Penso que até à próxima semana será preciso esperar para ver o efeito das medidas. E espero que as pessoas percebam a gravidade da situação.

Teme a rutura do hospital?

Não tenho motivos para pensar nisso, porque temos tido o apoio de todos. Mas carece de acompanhamento permanente.

Sentiu apoio suficiente da ARS e do Ministério da Saúde?

Totalmente.