Pátio das Cantigas

Entre o bibe, a palmatória e o recreio…

Enquanto Marcelo se mostrou de tronco nu, a pretexto de ser vacinado para a gripe sazonal – mais uma originalidade presidencial na banalização de Belém –, Costa pretende justificar medidas duras com a necessidade de controlar a pandemia. 

O processo de infantilização em curso da sociedade portuguesa ganhou uma nova dinâmica com o aparecimento da chamada covid-19, o vírus mutante mais recente de uma ‘família’ bem conhecida dos cientistas e médicos da especialidade. 

Lê-se, ouve-se e custa a compreender que, desde o primeiro ministro ao Presidente da República, haja um comportamento tipicamente paternalista que, ora coloca os ‘meninos’ nos píncaros da lua, ora lhes prometem açoites se forem descuidados ou rebeldes e não seguirem à risca a ‘cartilha’ .

Marcelo diz não ser favorável a cenários radicais, mas admite medidas mais drásticas. António Costa jura que odeia «ser autoritário», mas defendeu a obrigatoriedade da aplicação StayAway Covid nos telemóveis. E já nem se fala da imposição das máscaras, de cuja utilidade a diretora geral de Saúde desdenhou no início da crise sanitária.

Enquanto Marcelo se mostrou de tronco nu, a pretexto de ser vacinado para a gripe sazonal – mais uma originalidade presidencial na banalização de Belém –, Costa pretende justificar medidas duras com a necessidade de controlar a pandemia. 

Teria andado melhor se tivesse persuadido, atempadamente, a ministra Marta Temido a libertar-se de preconceitos ideológicos, agilizando uma cobertura hospitalar flexível, com base no SNS, mas sem excluir os contributos de unidades privadas e de solidariedade social. 

É um facto que o novo coronavírus conseguiu surpreender a comunidade científica, baralhar os laboratórios de investigação, atrasar a solução da vacina e afundar as economias do planeta mais expostas ao menor abanão. 

Em contrapartida, esta epidemia, que conheceu o seu epicentro ao sul da China, longe de ficar circunscrita, espalhou-se rapidamente pelo mundo, aproveitando-se dos ‘vasos comunicantes’ da globalização e da sabedoria oriental.

Em poucos meses, somadas as incompetências da OMS e de não poucas instituições nacionais, às quais supostamente caberia zelar pela saúde pública, o vírus foi ‘exportado’ com êxito e instalou-se em vários continentes, com caráter duradouro. 

Depois da mão de obra disciplinada e barata que a China ofereceu ao Ocidente, convencendo as mais reputadas multinacionais a deslocalizarem fábricas e tecnologia para o seu território, o vírus foi uma espécie de ‘cavalo de Troia’ para se introduzir a Ocidente e abalar as economias de mercado, a benefício da geoestratégia sediada em Pequim. 

Com paciência, a China vai afeiçoando as ‘virtudes’ do casamento entre uma ditadura política e uma liberalidade económica ‘sui generis’, controlada pelo Estado. 

O sucesso desta tese, inventada por Deng Xiaoping (a economia chinesa cresceu 4,9% no terceiro trimestre, apesar do vírus…) tem fascinado alguns iluminados, fartos da extenuante ‘ginástica’ negocial, exigida pela democracia. 

Em Portugal, com uma relação antiga com a China, o modelo despertou, naturalmente, algumas curiosas aproximações, com o PCP na dianteira, embora o PS e os seus companheiros de ‘geringonça’ pareçam tentados a seguir uma via própria, mais ao jeito dos nossos costumes, combinando o bibe com a palmatória, sem esquecer a ‘cenoura’. 

A algazarra à volta do Orçamento de Estado é apenas o mais recente exemplo do interesse dos parceiros em assegurarem a ‘cenoura’ para as suas ávidas clientelas. 

Em consequência, têm surgido algumas bizarras cedências às esquerdas. Segundo o Jornal de Negócios, figuram na versão preliminar do OE mais de cinco milhões de euros para apoiar os canis e os animais de companhia, e aconchegar mais um provedor, talvez para acautelar os votos do PAN. 

Para não se ficar atrás, uma ex-deputada da agremiação, decidiu preconizar sete dias de faltas justificadas para prestação de «assistência inadiável» a animais de estimação, e ainda direito a dia de luto se o animal falecer. Se for por diante, o funcionalismo agradece mais esta patetice.

Na ânsia de conseguir o ‘ámen’ dos partidos à sua esquerda para aprovar o OE, o Governo vai de cedência em cedência, enquanto a proposta entregue no Parlamento e enviada a Bruxelas, vai sendo corrigida de ‘lapsos’, designadamente, sobre o impacto do Novo Banco e da TAP no défice. Ninharias num documento carregado de incertezas. 

Moral da história: andam a brincar connosco. 
 
Nota em rodapé: A atuação de Fernando Medina em Lisboa tem desfigurado a cidade. Primeiro, com o deslumbramento do turismo, aprovaram-se novos hotéis a esmo, enquanto se inventaram ruas coloridas para semear bares e esplanadas. 

Estreitaram-se artérias vitais para a cidade, em nome de uma política absurda de ciclovias. A circulação urbana tornou-se caótica. 

Por fim, plantou-se uma floresta de pilaretes, que deve estar a ser um excelente negócio para quem os monta, menos para os lisboetas. Uma lástima.