Politica

Açores. Minoria de esquerda deixa PS em maus lençóis

PS só conseguirá governar com apoio da direita. PSD não fecha a porta a uma geringonça de direita.

O PS ganhou as eleições, mas para governar precisa da direita. O PSD perdeu, mas se conseguir unir a direita pode chegar ao poder. Foi este cenário complexo que resultou das eleições regionais nos Açores e só os próximos dias poderão dar pistas sobre o futuro da região.

Nenhuma solução é simples para assegurar a governabilidade. Os socialistas, que governam a região há 24 anos, perderam a maioria absoluta e os deputados eleitos pela esquerda não são suficientes para assegurar a estabilidade. O BE manteve os dois deputados, mas a CDU perdeu o único que tinha. Mesmo com o PAN, que elegeu pela primeira vez, os socialistas não conseguem atingir os 29 deputados necessários.

Vasco Cordeiro garantiu que vai começar a trabalhar para “ser esse garante de estabilidade, de segurança, para que os Açores e os açorianos possam sair desta situação complexa em que vivemos derivada da situação da pandemia de covid-19”.

Os próximos dias vão ser de contactos intensos entre todas as forças políticas para avaliar eventuais acordos. O presidente do PS, Carlos César, admitiu, nas redes sociais, que Vasco Cordeiro “vai ter uma tarefa mais complexa para constituir Governo”.

Curiosamente, a primeira reação oficial do PS-Açores na noite eleitoral – mal fecharam as urnas e quando as primeiras projeções ainda apontavam para a possibilidade de os socialistas ainda chegarem à maioria absoluta – foi do diretor de campanha, Francisco César, que começou por saudar “mais uma expressiva vitória” do Partido Socialista. Um cenário que o apuramento dos votos viria não só a não confirmar, como acabaria por ditar uma minoria parlamentar das forças políticas da esquerda açoriana.

uma aliança difícil O cenário não é menos complexo à direita. Os partidos juntos conseguem uma maioria, mas um acordo não será tarefa fácil.

José Manuel Bolieiro não fechou a porta a uma ‘geringonça’ de direita: “O quadro é tão ambivalente que pode admitir tudo”. Mas, para isso, teria de conseguir uma aliança com vários partidos, ou seja, CDS, Chega, PPM e Iniciativa Liberal.

“Não é fácil”, disse, na noite eleitoral, o presidente do partido, Rui Rio.

Há, de facto, um grande problema para os sociais-democratas lograrem apear o PS do Governo do arquipélago. A possibilidade de o PSD chegar ao poder não é viável sem o apoio do Chega, que conseguiu eleger dois deputados. E André Ventura afasta, para já, esse cenário.

“Aqueles que rejeitaram tudo o que defendemos, que negaram punir os bandidos, que se afastaram quando quisemos rever a Constituição e acabar com clientelismos, vêm agora pedir sem vergonha a nossa mão, sem ceder um milímetro para aquelas que são as grandes propostas do Chega. O que querem? O que esperavam? Que fossemos uma muleta do sistema? Não somos!”, escreveu ontem, nas redes sociais, o líder do Chega, em reação aos resultados eleitorais e às declarações dos outros líderes partidários nacionais e regionais.

a vitória dos mais pequenos Uma das novidades destas eleições foi a entrada para o Parlamento Regional dos Açores de três novas forças políticas. O Chega, o Iniciativa Liberal e o PAN elegeram pela primeira vez deputados. Destes, o partido de André Ventura foi o mais votado com cerca de 5%. Não conseguiu, porém, ultrapassar o CDS e ser a terceira força política, como pretendia. Liberais e PAN ficaram perto dos 2%. Contas feitas, a Assembleia Legislativa dos Açores passa a ter representantes de oito forças políticas.

PCP de fora. A má notícia da noite foi para os comunistas, que perderam o único deputado que tinham com apenas 1,68% dos votos.

Jerónimo de Sousa admitiu que “a perda de representação parlamentar pela CDU constitui um resultado particularmente negativo na vida política regional, um significativo empobrecimento democrático e sobretudo uma fragilização da intervenção em defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo açoriano, como aliás já foi comprovado entre 2004 e 2008, período em que a CDU não teve representação parlamentar”.

O secretário-geral do PCP justicou este resultado com “a dispersão de candidaturas” e “a expressão da continuada ofensiva anti-comunista que não deixou de se reflectir na região”, mas também com “as acrescidas dificuldades que a epidemia colocou na construção da campanha da CDU, que tem na participação e no contacto directo elementos centrais no esclarecimento e na mobilização para o voto”.

“O PS venceu estas eleições e, nos próximos tempos, começa esse trabalho de também ser esse garante de estabilidade, de segurança, para que os açorianos possam sair desta situação complexa em que vivemos”