Opiniao

Meus amigos / Meus discos e livros e nada mais

1.Tentarei refrear os meus comentários de teor político. Enganei-me sobre os ideais de quem tenho apoiado sempre. Iludi-me sobre a realidade e as aspirações do meu país.

Percebi – oh ingenuidade! – a inutilidade de escrever o que tenho escrito.

Rendo-me à força das coisas, não à imposição da mentira mas ao seu desejo, que vejo triunfante. ‘Não queremos a verdade, dêem-nos mais mentira’, ouço!

Esperando no tempo que me resta poder ainda cultivar tranquilamente o meu jardim, como tanto desejam e insistem os meus.

2. Aprendi a ler com as histórias aos quadradinhos.

Sabiamente, o meu Pai comprava-me O Mosquito, já no termo de uma vida gloriosa: nos anos quarenta, atingira tiragens de 80 000 exemplares! Lia-me à noite as histórias em continuação, levando-me a imaginar o que aconteceria aos heróis no número seguinte. E eu sonhava com essas aventuras e ansiava poder lê-las sozinho, revivê-las. É talvez a melhor recordação de menino que guardo.

Um dia, já sabia ler, o meu Pai trouxe-me o Mundo de Aventuras, surgido há pouco. Cresci com ele, formei-me com os seus heróis. Vem desse convívio a mania que não me larga de estar sempre ao lado dos fracos e oprimidos, e de pensar que o bem e a justiça triunfam sempre.

Cisco Kid, Johnny Hazard, Rip Kirby, Mandrake, o Príncipe Valente (de que coleciono várias edições), personagens que um nacionalismo tão perverso quanto bacoco obrigou a certa altura a descaracterizar com nomes portugueses, como Cisco o Mexicano, João Tempestade, Ruben Quirino, D. Enigma...!

Descobri um dia que a preferência intrigante que tinha (e tenho) pelas terças e quintas-feiras se deve ao facto de serem esses dias da semana que me traziam o Mundo de Aventuras.

Emprestei, perdi as coleções, hoje raríssimas e muito valiosas. Anos e anos depois, quando pude realizar esse desejo, comprei-as num alfarrabista. Inteligente e sensível, a minha Mulher acreditou que me custaram 50 contos cada uma... Viajo muitas vezes por elas.

Muito cedo na minha vida o meu Pai partiu. «Não há guindaste que consiga erguer-te do coração das águas», escreveu Herberto Helder para a Mãe que também só fugazmente tivera.

Tudo mudou na nossa vida. Continuei a esperar avidamente pelos meus heróis. Mas passei muitas vezes a não poder encontrar-me com eles. «Hoje saiu o Mundo de Aventuras», dizia-me à saída do liceu, quando passava no largo onde vivia o meu grande amigo Mário Afonso, o ‘Augusto dos jornais’, que tantos exemplares vendera ao meu Pai. «Não trouxe dinheiro», dizia eu, triste. «Não faz mal, pagas depois»... Ele sabia que nunca iria receber. Nunca poderia de facto pagar-lhe... com dinheiro nenhum.

E foi assim que também o Augusto se tornou para sempre um herói do meu mundo de aventuras.