Opiniao

A China, Taiwan e a eleição americana

Taiwan tem sido beneficiada pela tensão crescente entre os Estados Unidos e a República Popular da China (RPC). A tendência vem de longe e Donald Trump é considerado, por muitos taiwanenses, como o mais pró-Taiwan presidente americano desde 1979, ano em que Washington deixou de ter relações diplomáticas com o país, e passou a tê-las com Pequim.

por A.P.G

Na segunda-Feira, 26 de Outubro, começou em Pequim a reunião do Comité Central do Partido Comunista da China para preparar e discutir o Plano Económico quinquenal para o período 2021-2025. Os presentes foram umas centenas de representantes dos cerca de 90 milhões de militantes do Partido. As boas notícias são que, no terceiro trimestre de 2020, a economia chinesa, apesar do Corona Vírus, cresceu quase 5%, ao mesmo tempo que as outras grandes economias mundiais, no mesmo período, registavam grandes quedas: 9% para os Estados Unidos, 10% para o Japão, 12% para a Alemanha, 14% para a França e mais de 20% para o Reino Unido.

A economia chinesa foi muito pouco atingida, cresceu 6,8% no primeiro trimestre e 3,2% no segundo. Em contrapartida a desconfiança em relação à China é muito grande nos países do Ocidente Euroamericano.

Xi e os seus colaboradores têm, no entanto, que levar em conta alguns factores negativos, sobretudo políticos, que acompanham estas boas notícias económico-políticas. Factores políticos com repercussões económicas.

No discurso de abertura, o presidente Xi Jinping, referiu-se à entrada da RPC na guerra da Coreia, há 70 anos, guerra que, para ele, terminaria com uma vitória sobre os Estados-Unidos. Tratou-se de um “empate técnico” – que ainda hoje subsiste com as duas Coreias – mas Xi parece ter querido usar a efeméride como um aviso a Washington neste momento de crescente tensão.

O facto é que se a economia chinesa sofreu menos que as outras, com o vírus que veio da China, a desconfiança em relação à China, ao governo chinês, aos produtos chineses, radicou-se entre as populações dos países que sofreram mais e é, neste momento claramente negativa. Acrescenta-se a isso as proibições e sanções americanas aos produtos chineses, especialmente na área da informática e das telecomunicações, prevenções que começaram a ser seguidas pelas principais nações asiáticas e europeias, do Japão e da Índia à Alemanha e ao Reino Unido. Por isso o discurso de Xi Jinping e a estratégia na reunião do Bureau Político que precedeu a reunião mais alargada do CC, foi no sentido de um voltar para dentro. É o conceito da “circulação dual”, com uma maior focagem na economia doméstica e no mercado interno, bem como no desenvolvimento endógeno das tecnologias de ponta que, agora, serão mais difíceis de obter no mercado internacional. 

 

O Caso de Taiwan

Taiwan tem sido beneficiada pela tensão crescente entre os Estados Unidos e a República Popular da China (RPC). A tendência vem de longe e Donald Trump é considerado, por muitos taiwanenses, como o mais pró-Taiwan presidente americano desde 1979, ano em que Washington deixou de ter relações diplomáticas com o país, e passou a tê-las com Pequim.

Desde 2017, tem havido em Washington, uma política progressiva de degelo em relação à “Ilha Nacionalista”, que tem acompanhado logicamente, a escalada da crise com Pequim. Nesta linha bipartidária – a política em relação à RPC e a Taiwan deve ser dos pouquíssimos pontos em que Republicanos e Democratas convergem nos Estados Unidos - o Congresso aprovou na Terça-Feira, 20 de Outubro dois diplomas chave.

O primeiro – o China Task Force Act – é apresentado pela China Task Force da Câmara dos Representantes e desmultiplica-se numa série de medidas – 137 – destinadas a confrontar a influência global da RPC até ao fim da sessão legislativa em 3 de Janeiro de 2021. O segundo, chama-se Taiwan Relations Reinforcement Act e é da iniciativa de dois congressistas – do republicano Marco Rúbio e do democrata Jeff Merkley – e tem por objectivo reforçar o estatuto diplomático das relações entre Washington e Taipé e melhorar em vários sectores as relações bilaterais. Nomeadamente propor a Taiwan a criação de institutos culturais semelhantes aos Institutos Confúcio e incrementar as bolsas e contactos universitários e educacionais.

Mas o mais importante foi o anúncio na Segunda-Feira, 26 de Outubro, que o governo de Washington aprovou a venda a Taiwan de equipamentos militares vários no valor de U. S. Dólares 2.37 Biliões. Esta venda foi anunciada pelo Pentágono e aprovada pelo Departamento de Estado. O grosso da encomenda são armas destinadas à defesa costeira das ilhas incluindo 100 Plataformas de mísseis Harpoon de Defesa Costeira, bem como radares móveis, mísseis de superfície, tanques, artilharia.

A principal novidade e vantagem destas armas é que vão modernizar a capacidade de lançamento de mísseis de longo alcance por Taiwan e assim reforçar a capacidade de dissuasão em relação a um ataque de surpresa da RPC. Mostram também um salto qualitativo na relação Estados-Unidos Taiwan. Pequim foi anunciando, como resposta, sanções contra as empresas, entre elas a Boeing, a Lockheed Martin e a Raytheon, responsáveis pelas vendas.

Um salto qualitativo que tem, atrás de si, uma base muito rara hoje na política norte-americana – ser bipartidário. Na realidade, quanto à defesa de Taiwan contra uma ameaça militar da China Continental, todos os políticos norte-americanos, da extrema esquerda à direita, de Sanders a Trump, estão de acordo.

Por outro lado, Washington tomou iniciativas estratégicas autónomas, para conter a China. Durante muitos anos, Pequim foi visto como um possível parceiro no desenvolvimento económico; quando muito um concorrente pacífico. Mas os indícios político-militares recentes, o aumento espectacular dos orçamentos militares de Pequim, a construção de ilhas artificiais no mar da China, a expansão em termos de bases militares, gestão de portos e direitos quase soberanos em espaços africanos, a tentativa de interdição de direitos de passagem marítima no estreito de Taiwan, tudo isso foi levantando a suspeição dos serviços de inteligência e dos militares norte-americanos.

Ao mesmo tempo, uma análise dos comportamentos agressivos das autoridades de Pequim como a repressão de Hong-Kong, e a abertura de hostilidades com a Índia no Hymalaya, uma espécie de febre de multiplicar pontos de tensão reforçou esta suspeição, embora estes movimentos se atribuam, a problemas internos de Xi Jinping, para controlar as máquinas do Partido e do poder.

Numa linha de aviso, a US Navy enviou um grupo de combate, liderado pelo porta-aviões USS Ronald Reagan, para a área de operação da 7ª Esquadra que se juntou a outro porta-aviões o USS Nimitz. Os dois Carrier Strike Groups destinam-se, segundo fontes oficiais da Marinha, a provar “a decisão dos Estados-Unidos de voar, navegar e operar em toda a parte que lhes é permitido pelo direito internacional.”

 

Quem é o favorito de Quem

Nas vésperas da eleição presidencial – e no segundo e último debate – Trump e Biden discutiram qual dos dois faria melhor frente à China. Mesmo sendo possível a marcha para um mundo multipolar – e não bipolar e muito menos unipolar – a noção de que a China quer avançar para o primeiro lugar das potências e aí substituir os Estados-Unidos parece ser uma preocupação dos dois candidatos. Ambos, nesse espírito, se quiseram apresentar como os mais capazes de enfrentar Pequim.

A questão é, mais que a política frente à China, quais os instrumentos dessa política. Aí, enquanto Trump parece, caso for reeleito, empenhado numa estratégia de Realpolitik, recorrendo a alianças bilaterais ou regionais para conter a China, Biden é capaz de insistir numa utilização das instituições internacionais multilaterais, cuja eficácia está, cada vez mais em decadência; ou, como no caso da Organização Mundial de Saúde, estão já muito na esfera da influência chinesa.

Também a indústria americana aqui se divide. Enquanto uma parte das indústrias tradicionais apoia a política de reindustrialização de Trump, a Big Tech, - empresas como Facebook, Google, Amazon e Apple – estão claramente com o candidato democrata, com um núcleo de importantes quadros oriundos de Silicon Valley na sua campanha. As razões são duplas: não querem perder o mercado chinês e receiam as leis anti-Trust da Administração Trump. Também por isso o Facebook e o Twitter silenciaram as notícias referentes ao caso Hunter Biden – Joe Biden e ao seu alegado tráfico de influência junto de empresas ucranianas e chinesas, pela família Biden, quando o agora candidato era Vice-Presidente de Obama.