Biblioteca Pessoal

Aquele ar que apenas se sente no arquivos

Se há autor que ocupa um lugar de honra na minha estante é o russo Anton Tchékhov (1860-1904). Nos últimos anos tenho-o lido com devoção, mas intermitentemente, e ainda me falta um longo caminho para percorrer – estou nestes dias a terminar o quarto dos nove volumes dos seus contos, e depois ainda há as novelas, A Ilha de Sacalina, as peças de teatro e as biografias por Henri Troyat e Ígor Sukhikh, que espero um dia poder ler.

O que me fascina tanto nele? Poderia dizer que é a forma como nos põe diante dos olhos a Rússia do século XIX, em especial os ambientes rurais; poderia dizer que é como combina esse mundo antigo com um entendimento, uma linguagem e um cepticismo modernos; poderia louvar a sua capacidade para, com poucas palavras, fazer uma descrição que nos transporta para um cenário envolvente, sugestivo; poderia, finalmente, notar como, sendo ele médico de profissão, mostra conhecer tão bem não apenas o corpo e os seus humores como a mente e os seus abismos.

Mas para lá de tudo isso há outra coisa ainda, que é mais difícil pôr por palavras – a afinidade particular que sentimos com certos autores. E o puro encanto de uma grande escrita. Peguemos numa passagem deste volume IV: «O solar era uma coisa de mau gosto, pesada, com a sua fachada semelhante à de um teatro. Erguia-se com deselegância no meio da verdura e feria os olhos como um calhau grande deitado para a relva aveludada. Fui recebido à entrada principal por um velho lacaio obeso de casaca verde e grandes óculos de prata; sem me anunciar, limitando-se a deitar um olhar enojado à minha figura empoeirada, levou-me para dentro. Quando eu subia uma escada atapetada, cheirava, não sei porquê, a cauchu; em cima, no vestíbulo, atingiu-me aquele ar que apenas se sente nos arquivos, nos aposentos senhoriais e nas casas de comerciantes: um cheiro repassado a qualquer coisa que viveu outrora e já morreu, deixando nas salas a sua alma».

O tom é de um pessimismo é desolador, quase angustiante. As personagens são muitas vezes feias, grosseiras, mesquinhas, cínicas, maldosas. Mas tudo isso é transfigurdo por Tchékhov numa escrita que proporciona um prazer imenso. Por Tchékhov e pelos tradutores destes volumes, diga-se. Nina e Filipe Guerra fizeram um trabalho do outro mundo, tomando opções nem sempre óbvias mas que soam sempre naturais; opções que preservam as qualidades do original, o mantêm vivo, e transmitem, mesmo aos neófitos, o sabor da vida e da cultura russa. Seria injusto que a admiração pela arte de Tchékhov nos fizesse esquecer como devemos estar-lhes gratos por isso.