Economia

"As pessoas querem ficar em casa a morrer à fome?"

Para o presidente do Fórum para a Competitividade subir o salário mínimo nacional ‘é criminoso’ e justifica que o valor é baixo porque a estrutura económica está ‘completamente ultrapassada’. No entender de Ferraz da Costa, ‘quem tem peso é a classe média que é muito tributada em Portugal e não tem ninguém que tenha coragem para a defender’.

O que acha do Orçamento do Estado para o próximo ano que já foi aprovado na generalidade?

Acho que o Orçamento é um exercício obrigatório, mas este ano ninguém faz grande ideia do que vai ser a realidade que se pretende antecipar nas contas no que diz respeito às receitas e, em alguma medida, até em relação às despesas. Acredito que o Governo consiga ter mais controlo sobre as despesas do que sobre as receitas porque vai haver uma quebra muito acentuada da matéria coletável, nomeadamente em termos de IRC. Há muita gente que tem rendimentos que estão fortissimamente afetados. Basta pensar nos senhorios que não estão a receber rendas ou que estão a receber uma fração do que recebiam. Muitos pequenos negócios de empresários em nome individual praticamente desapareceram. Se os Pastéis de Belém vendiam 40 mil pastéis por dia, se calhar agora vendem 40. Isso é uma coisa que vai, com certeza, ter grandes consequências na cobrança dos impostos que, no ano passado, ainda aumentou. Este ano acho que vai cair. Houve um conjunto de medidas que foram adotadas noutros países, no sentido de permitir que empresas que apresentaram as contas de 2019, possam não pagar os impostos em 2020 e possam empurrar para a frente a cobrança para que tenham recursos para investir e, em muitos casos, para pagar as moratórias também. É também muito difícil prever o que vai acontecer com os bancos. Até encontramos bancos que pediram para que fosse feito o alargamento, mas há outros que estão com medo dessa situação. É muito provável que aumente muito o volume dos créditos que ficam em situação irregular.

Nos últimos resultados dos bancos viu-se que as moratórias estavam a penalizar os lucros...

Para muitos bancos quando isso acabar vai ser uma realidade muito preocupante. Sem falar no esquema de transferências de rendimentos que são operados por estes novos layoffs que vão até 80% do vencimento. É muito generoso e duvido que haja dinheiro para pagar isso durante não sei quanto tempo. Não sei se não era melhor dar menos e...

O regime anterior era 66%...

Sim. E se calhar vamos chegar a uma situação onde não se pode dar mais do que 40% ou 50%.

Segundo a DGO, até setembro, o défice agravou-se em quase 8 mil milhões com quebra muito grande de receitas e um aumento muito grande de despesas...

Acho que este Orçamento do Estado é um exercício interessante mas dificilmente não terá de ser retificado, se calhar, várias vezes.

A pandemia acaba por deixar as contas incertas. A taxa de desemprego prevista no OE não chega aos 9%. É uma meta otimista?

Sim. Quando acabarem esses esquemas todos de apoio vamos ter números muito mais elevados, até porque, está-se um ambiente, nas últimas semanas, no sentido de não ter um confinamento como já tivemos mas ter restrições praticamente do mesmo tipo. E vão-se anunciando coisas e possibilidades: aparece um autarca que diz que era melhor fechar as grandes superfícies, outro vem dizer que as escolas é que deviam fechar. Estamos a criar uma instabilidade brutal e também a dificultar muito o turismo, quer o interno quer algum externo que existia ao longo do ano. Estamos a tornar mais difíceis as viagens de negócios e tudo o que seja prospeção de novos mercados e contactos com os clientes mais importantes, as empresas têm de estar presentes, não se pode fazer tudo através da internet. Acho que vamos ter um 2021 muito difícil.

Se calhar mais que 2020 porque, pelo menos, janeiro e fevereiro foram meses normais...

Onde é que vão os tempos da recuperação em V...

A instabilidade também se verifica na política e o Orçamento é uma demonstração disso...

Estamos obviamente em navegação à vista. Ninguém sabe quanto tempo é que o Governo vai durar e temos, em alternativa, um acordo com o Bloco e com o PC que é o pior que podia haver para a atividade económica.

João Leão disse que era um documento a pensar nas exigências da Esquerda: apoios extraordinários, aumento do subsídio de desemprego, etc. O PCP absteve-se. Ficou surpreendido com o chumbo do Bloco?

Nem sei que lhe diga. Que o PC não está interessado em eleições já, parece-me óbvio. Se calhar não estariam interessados em eleições nunca. Eles não são grandes adeptos das democracias, nunca foram. Só cá em Portugal é que têm esse discurso. Em relação ao Bloco não sei. Acho que eles devem ter alguma agenda oculta de querer rebentar com a economia para depois construírem um país novo a partir das cinzas ou qualquer coisa desse género. Não se percebe. Cada vez há regras mais afastadas das realidades empresariais e isso é muito difícil. Temos ainda por cima uma circunstância que vai tornar as coisas mais difíceis em termos de recuperação que é o facto da nossa economia estar já muito integrada com a economia espanhola e a Espanha ter tido talvez a pior performance económica dos países da União Europeia em termos da queda da sua economia. Neste momento, com a tensão política brutal que há em Espanha e com o número de casos e tudo isso, dali também não vai vir coisas que nos ajudem.

É o fim da ‘Geringonça’?

Hesito entre pensar que uma boa parte do Partido Socialista está com o Bloco e com o PC e que é um Partido Socialista muito mais à esquerda do que era no tempo de Mário Soares e de António Guterres. Mas é uma hipótese. A outra é que eles só estão nisto porque é aquilo que precisam para sobreviver. Se amanhã tiverem a sobrevivência virada para o outro lado, virar-se-ão eventualmente para o outro lado e metem o socialismo na gaveta. Mas este Orçamento não é uma viragem no sentido da economia demarcada, de dar condições às empresas para criarem postos de trabalho, do aumento do produto através do crescimento das exportações.

Para as empresas não há nada. A única garantia é que não há o aumento de impostos...

Que acaba depois por não ser completamente verdade. Há aumentos.

E medidas como apoio extraordinário, ou o IVAucher?

O IVAucher? Acho que foi para fazer uma coisa gira, mas acho que pedir a alguém da Autoridade Tributária para arranjar um esquema para ajudar um setor, podemos ter a certeza que vai criar uma situação mais complicada do que a que existia antes. É preciso gastar não sei quanto para poder vir a ter no futuro um apoio. Os ingleses fizeram isso com bastante sucesso em Londres (e noutras zonas) e, de facto, era um esquema de subsidiação que beneficiava qualquer pessoa que fosse a um restaurante, inglês ou estrangeiro, e era abatida a fatura na hora. Aqui é só para dizer que fazem...

E para acalmar um pouco o setor da restauração, do turismo e das artes...

Ou acalmar o setor ou acalmar os dirigentes do setor que também têm que mostrar algum trabalho às bases associativas que sempre tiveram muito perto do PS. A baixa do IVA para a restauração foi uma medida, pelo menos discutível, e que custou centenas de milhões de euros, resultou dessa proximidade.

A AHRESP acenava com a criação de postos de trabalho...

Os postos de trabalho vieram a confirmar-se e confirmavam-se em qualquer circunstância. Foi o fluxo turístico que os criou. Como é a falta de turistas agora que os vai matar. Nesse setor o que conta são os clientes.

Como vê o reforço de 500 milhões para a TAP?

Não devem chegar. As previsões internacionais para a recuperação da aviação comercial apontavam para 2024. Neste momento começam a apontar para 2025. É evidente que a retoma mundial vai ser mais lenta e, portanto, o que temos pela frente é uma decisão sobre se o Estado português acha que pode apoiar uma companhia com aquela dimensão durante três ou quatro anos com prejuízos permanentes e a manter uma empresa com aquela dimensão que neste momento é manifestamente excessiva. Acho que vai ser muito difícil e o que pode vir a acontecer é começarmos a gastar esses subsídios para tentar adiar a reestruturação e depois temos que a fazer à mesma. E andámos a manter uma estrutura que não serviu para nada porque acaba por desaparecer à mesma. Nessa altura saía mais barato cortar mais cedo.

Foi uma decisão do Governo ficar com a maior parte da TAP um pouco antes da pandemia. Ninguém estava à espera deste problema...

É obvio que a TAP tem uma dimensão muito grande para a dimensão do país. A Espanha deixou de ter uma Ibéria completamente espanhola e é não sei quantas vezes a dimensão de Portugal e tem também um volume de tráfego para a América Latina brutal porque há muitas relações económicas, culturais...

A TAP começou a apostar nos últimos tempos nos Estados Unidos e no Brasil mas também por causa de David Neeleman...

É evidente que a TAP fazia muito negócio canalizando passageiros da Europa para o Brasil e vice-versa. Isso foi, com certeza, bem feito e dava muito negócio, muito movimento.

Acha que foi teimosia do Governo em ter a tal empresa de bandeira que se falava tanto? Das outras já nenhuma está nas mãos dos portugueses. EDP, REN...

Sim, não faz muito sentido. Faria mais sentido nas outras que referiu.

E o caso do Novo Banco? Vão ser os bancos a emprestar dinheiro ao Fundo de Resolução ...

Já tem sido desde o princípio.

Mas agora será mais violento?

Depende do número de anos que possam amortizar. Quer dizer, não são os contribuintes diretamente. É evidente que os contribuintes não vivem bem numa situação em que o sistema financeiro esteja em muito má situação. Parece que o fim está à vista. Depois não haverá mais.

Depois os bancos, indiretamente, acabam por aumentar comissões...

Tentarão aumentar os custos no que puderem. É evidente que se tiverem condições menos competitivas vão aumentar os custos para os utilizadores, mas isso é verdade com tudo. Se o combustível subir, mais tarde ou mais cedo os táxis aumentam a bandeirada.

Há pouco falou sobre o fim das moratórias. Acha que estamos a empurrar o problema com a barriga? Depois podemos assistir outra vez ao problema do crédito malparado?

Em determinados setores é garantido que sim. Se pensarmos que, em termos gerais, as senhoras este ano compraram fatos de banho e não compraram as outras coisas todas, o setor do vestuário não pode estar muito bem. E isso é verdade para quase tudo, não é?

E se houver um novo confinamento...

Será ainda pior. As pessoas compram pantufas para passar o inverno. Não vão comprar botas, nem sapatos, nem carteiras, essas coisas todas.

E cria-se um efeito bola de neve..

Sem dúvida.

A economia consegue sobreviver a um novo fecho do país?

Já estamos a caminho disso. Fechar oficialmente como da outra vez não acredito que fechem.

Até pelas pressões dos setores...

É cada vez mais difícil fechar. E há muita gente que neste momento está com elevados níveis de poupança. O rendimento não caiu muito porque em muitos casos os ordenados foram compensados por esquemas de layoff ou as empresas foram apoiadas para manter os postos de trabalho. Portanto, as pessoas estão numa situação bastante semelhante, deslocam-se muito menos, trabalham mais em casa, vão menos ao restaurante, fazem menos compras, não vão aos centros comerciais comprar uma coisinha e depois mais duas ou três. Isso tudo faz com que a taxa de poupança quase que dobrou.

Contrariando a tendência histórica de termos sempre um nível baixo de poupança...

É o que o Friedman demonstrou: o consumo não depende só do rendimento do período anterior, depende do rendimento do período anterior e das perspetivas para o futuro e, neste momento, como as pessoas, logicamente têm perspetivas muito preocupantes, estão a defender-se e querem criar algumas reservas. Acho que é uma atitude de bom senso.

Pela primeira vez os portugueses estão prudentes?

Não sei se é pela primeira vez porque nos casos anteriores, se calhar tiveram razão para gastar além do que podiam porque o que é certo é que não lhes aconteceu nada.

Aí, mais uma vez, as premissas do Orçamento estão em risco porque aposta muito no aumento da economia com base no consumo...

Aí é que é o grande erro. O Governo convenceu-se que se conseguir injetar poder de compra as pessoas vão comprar e isso faz subir a atividade económica. Acho que não é verdade porque, em primeiro lugar, as pessoas aforram o dinheiro, e em segundo lugar, mesmo que fosse verdade, isso iria originar mais consumo de bens importados. Há, por exemplo, um aumento de compra de automóveis de novos e em segunda mão porque as pessoas não querem andar nos meios de transporte coletivos.

Têm receio. E o mercado agora tem mais oferta dos carros em segunda mão por causa dos Uber, rent-a-car...

Milhares deles. É capaz de haver 30 ou 40 mil automóveis que não são utilizados que estavam no rent-a-car. O rent-a-car, não sei, mas é capaz de ter, a nível nacional, para aí 100 mil carros.

Disse, há pouco tempo, que Portugal não tinha condições para acudir a todos os portugueses e que as pessoas vão ter de se fazer à vida. O que quer dizer com isto?

Há casos em que vão ter de mudar de profissão. Já aconteceu. Se falar com guias turísticos, estão com certeza a fazer outras coisas. A maior parte deles fazia isso como profissão e vivem de quê? Com certeza que estão a procurar outras atividades. Houve uma altura – e nesse aspeto esta crise é pior que anteriores – porque havia países que estavam melhor e outros estavam pior, normalmente não estavam todos na mesma fase do ciclo económico. Neste momento, em quase todo o mundo rico, aconteceu ao mesmo tempo. É na Europa, é nos Estados Unidos...

Na altura da Troika muitos portugueses foram para fora, as empresas que puderam apostaram em mercados externos. Neste momento isso não é solução...

Está tudo muito fechado. Uma das coisas importantes e que cá se fez com algum atraso foi a melhoria dos seguros de crédito à exportação, ao aumentar os plafonds. Porque havia empresas que poderiam fazer os negócios mas não tinham condições para o fazer por causa dos seguros de crédito.

O Fórum para Competitividade foi sugerindo algumas medidas que poderiam ser incluídas no OE para as empresas. Não foi nada contemplado?

Não, pedimos há dois ou três anos de uma maneira mais insistente deixarem de aplicar imposto de selo aos financiamentos para exportação. Os espanhóis não têm. As nossas empresas levam logo uma desvantagem de 2 ou 3% nos concursos internacionais. Isso é importante. Tínhamos de ter um esquema mais favorável. Mas tributar menos as exportações poderia ser considerado uma ajuda do Estado às empresas para fomentar as importações e, como tal, era preciso que o Estado português conseguisse junto da Direção Geral da Concorrência em Bruxelas fazer passar esse esquema. Começo a convencer-me que atualmente não há, no Ministério das Finanças, quem seja capaz de tratar desses assuntos a nível internacional. Por que razão os espanhóis conseguem e nós não conseguimos?

No caso do IVA da luz foi possível...

Pois, então se calhar há umas coisas que queremos. Acho que era muito importante aumentar as exportações porque íamos num caminho crescente e agora andámos para trás. O futuro da economia portuguesa há de estar no caminho para chegarmos aos 80% da exportação sobre o PIB que é o que os países com maior crescimento económico da União Europeia têm. As Holandas, as Dinamarcas... Se tivermos mais exportação no total da atividade económica, isso significa que vamos ter em alguns setores empresas com dimensão para serem competitivas em termos internacionais. E essas empresas, sendo competitivas em termos internacionais, têm uma vida mais estável, estão menos dependentes da conjuntura interna, pagam salários mais elevados. Não me canso de repetir que as empresas acima dos 250 trabalhadores têm um valor acrescentado bruto de 48 mil euros por pessoa e as micro 12 mil. É quatro vezes mais. É uma diferença brutal e é evidente que também podem pagar ordenados que é o dobro do que os outros podem pagar. Isto é uma birra ideológica de não se aprovar nada que facilite o aumento do crescimento. Até porque agora foram aprovados uns esquemas de uns fundos que podem concorrer ao SIFIDE para apoiar a investigação, o desenvolvimento das empresas e ajudá-las a crescer. Não está previsto em Portugal nenhum esquema de consolidação, quando todos sabemos que há setores onde, para que isso venha a ter frutos, se calhar deviam juntar-se duas ou três empresas para ganharem massa crítica. Isso está excluído. E está excluído porquê? Não está excluído por regras da União Europeia. Está excluído por regras nacionais porque não querem isso.

O Governo não quer fusões?

Não, não querem o aumento da dimensão das empresas porque o Bloco não deixa. No fundo voltamos à conversa do início. Temos aqui uma contradição. O Bloco não gosta de nada. Gostava era de voltar a 1917, criar umas condições parecidas com isso. Também o doutor Álvaro [Cunhal] sempre achou que era possível, sempre teve a esperança de que a União Soviética ajudasse a implantar um regime comunista em Portugal, toda a vida. Temos uma Constituição que foi feita em circunstâncias politicamente muito complicadas. Era o fim de um regime autoritário e queriam fazer uma transição para o socialismo que é completamente contraditório com a nossa pertença na União Europeia. Estamos num espaço de economia de mercado temperado por um sistema social europeu, o que quiser, mas a base do desenvolvimento são as empresas e as decisões tomadas com base das regras de uma economia de mercado e de defesa da concorrência. Aqui os objetivos são os contrários a esses.

O Bloco esquece-se que são as empresas que pagam os salários e que não somos todos funcionários públicos?

Eles também não ambicionam ter 100% dos votos. No fundo, o que é que se passa aqui? 46% dos agregados familiares não pagam IRS. São fundamentalmente as pessoas que eles querem que votem no Bloco, no PS ou no PC. E depois temos os outros todos e quem tem peso é a classe média que é altissimamente tributada em Portugal e não tem ninguém que tenha coragem para a defender. Para ter coragem para os defender era preciso dizer que não podemos ter um OE que represente 50% do PIB.

Vê-se pelas medidas. Não são para a classe média...

É para os eleitores deles...

Até no alívio dos escalões de IRS, não estamos a falar de um alívio verdadeiro...

Mas apesar de tudo acho que é bom.

Estamos a dar mais cedo...

Mas estamos a dar e é muito difícil de fazer ao contrário. Agora com tudo igual vamos aumentar a taxa de retenção, estava aí tudo aos gritos.

Durante a troika tivemos aumento de escalões.

Sim. E tivemos aumento brutal de impostos na sequência daquela decisão do Tribunal Constitucional.

Se fosse Mário Centeno à frente teria sido um documento diferente?

Não sei se o Orçamento é para cumprir. Qual é a importância real do documento? Já nas vezes anteriores não foi. É possível olhar para o Orçamento e tirar dali uma antecipação do que vai ser a vida orçamental do Estado? Acho que não. Aliás, em 2011 foram aprovados seis leis comunitárias, seis regulamentos -– o chamado o Six Pack – para alterar as regras da política orçamental no sentido de, em determinadas áreas, poder haver uma apreciação plurianual porque a maior parte dos grandes problemas não se resolvem no Orçamento. Era preciso existir uma programação plurianual e ter-se um compromisso para isso. A Assembleia não pode dizer ‘vamos gastar nos próximos cinco anos X por ano’. O que podem dizer o que vão gastar este ano. Independentemente das decisões serem as melhores ou não. Há uma direção geral para tratar desse assunto. Já houve um diretor geral que até se demitiu. Não se sabe quando é que vai entrar em vigor. Essa visão plurianual era muito importante. Assim é difícil olhar para o Orçamento e perceber o que vai acontecer porque a maior parte do investimento público não está lá porque está à espera da aprovação de Bruxelas. Isso é uma coisa que vai ter dimensão e que não consta no Orçamento.

O dinheiro não é imediato...

Isto faz-me uma certa confusão. Pouca gente olha para isto com olhos de ver. Neste momento, ainda temos 20 ou 30% do quadro comunitário anterior por utilizar e estamos à espera da bazuca porquê? Porque não nos conseguimos organizar para gastar o que acaba em 2020?

Devia organizar-se...

Pois devia. E, de facto, a política orçamental era uma das áreas onde se devia organizar e a outra área eram os ministérios económicos. Não têm base. Não há gabinetes de estudos e planeamento em sítio nenhum.

Já foram anunciados os projetos do Programa Nacional de Investimentos...

Sim.

É um déjà vu dos projetos PIN do Governo de José Sócrates?

Faz lembrar isso porque eles pediram aos Ministérios tudo o que tinham lá na gaveta. O comboio Lisboa-Porto já lá está há 20 anos.

E não seria mais favorável, em vez de ser Lisboa-Porto, ser uma aposta Lisboa-Madrid, por exemplo?

Houve uma secretária de Estado que já fez grandes declarações a dizer que os espanhóis querem Lisboa-Madrid e que nós não queremos. Se nós temos interesse em ter uma ligação transversal para a Europa em bitola europeia, é evidente que vamos ter que chegar a um acordo com os espanhóis. Eles estão interessados em Badajoz-Madrid, é natural. E nós temos que aproveitar a outra parte.

O dinheiro não devia ser controlado por uma entidade autónoma ou independente?

Estamos a ver se conseguimos fazer alguma coisa nessa área. É preciso acompanhar as decisões. As infraestruturas são uma das áreas importantes.

O passado recente nem sempre mostrou os melhores exemplos. O Fórum chegou a falar sobre a ‘bazuca’ de Bruxelas?

Fomos respondendo sempre aos diversos documentos. Houve uma resposta nossa ao plano de Costa Silva, que acho mau porque em Portugal temos sempre muita vontade de nos dispersarmos por diversas coisas e uma grande dificuldade em ter uma aproximação seletiva que devíamos ter. Acho extraordinariamente discutível o projeto do hidrogénio e acho que vamos pôr os consumidores, as empresas e as famílias a pagar isso nas tarifas a um nível pesado. Acho que não temos dimensão, como país, para correr um risco tão grande em relação a uma tecnologia que não está madura. Já no caso das renováveis intermitentes, se tivéssemos investido nas fotovoltaicas mais tarde, tínhamos tido soluções tecnologicamente mais evoluídas e custos muito mais baratos. E os custos mais caros têm interesses garantidos, em que houve empresas que conseguiram fazer grandes negócios. Agora se calhar vai ser a mesma coisa.

Avançou cedo demais?

Sim.

O hidrogénio corre o mesmo risco?

Acho que sim. Percebo que a Alemanha gaste uma verba dessa dimensão porque é um país muitíssimo maior. Dificilmente terá acesso a combustíveis fósseis, como temos no Algarve e, espantosamente, desistimos de tentar utilizar.

Corremos o risco de a verba vir de Bruxelas e não ser utilizada da melhor forma?

É evidente que corremos esse risco. Acho que, em algumas das declarações de governantes, conseguimos ler nas entrelinhas que há muito medo de poderem ser criticados por não estarem a usar a ‘bazuca’ rapidamente. E usar muito dinheiro muito depressa e sem grande controlo dá sempre disparate.

Outro braço-de-ferro que podemos vir a assistir brevemente tem a ver com o aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN)...

A Associação Industrial Portuguesa encomendou um estudo económico sobre isso e a conclusão é claríssima: na conjuntura atual é imprudente e vai ter efeitos negativos sobre o emprego. Cerca de 16% do emprego em Portugal está em atividades não económicas: Estado, instituições de solidariedade social em que é muito difícil aumentar. Há vários países europeus, onde essas atividades não estão cobertas pelo salário mínimo, precisamente porque é muito pesado. Já viu o que é, se temos um conjunto de lares que estão sub-equipados em termos humanos e se ainda vamos aumentar mais os vencimentos vamos tornar as coisas mais difíceis.

A presidente da Comissão Europeia defende o salário mínimo comum a toda a Europa...

Isso é uma conversa de chacha. Eles querem ter vários. A partir do momento em que o Partido Popular Europeu deixou de ter maioria temos a presidente a dizer coisas para todos os lados para agradar a toda a gente. É o que ela tem feito.

Chegou a dizer que seria criminoso aumentar agora...

Sim. Acho que seria criminoso.

Mas não acha que o SMN continua a ser baixo em relação a outros países?

Os salários mínimos aqui são muito baixos porque a gente tem uma estrutura económica completamente ultrapassada, o que temos de fazer é alterá-la. Quando o valor acrescentado bruto nas empresas de maior dimensão é quatro vezes o que é o das micro empresas, enquanto tivermos na União Europeia a estrutura mais pequenina dificilmente vamos sair disto. E não é ao aumentar os salários que vamos resolver este problema porque sei qual é a consequência, é que muitas delas depois fecham. Temos aí uma destruição seletiva e há pessoas que defendem isso. Acreditam que é melhor acabar com as empresas pequenas. Acho que neste momento, o país não tem uma situação social para fazer uma coisa dessas, em cima dos problemas que já existem.

Já temos o layoff a mascarar a taxa de desemprego...

Sim e, por outro lado, temos neste momento o aumento da taxa de poupança. Acho que se discutia isso em termos completamente diferentes há dois anos e se calhar vai-se discutir isso em termos diferentes daqui a quatro ou cinco.

Mesmo que não haja acordo, o Governo vai aumentar à mesma o aumento do SMN?

Os parceiros sociais nunca se opuseram.

Mas as associações mais ligadas ao turismo e ao comércio poderão estar mais resistentes...

Não gostam de tomar posições que possam ser entendidas como antipáticas. Não acredito que se oponham. O que temos de aumentar é os salários médios que é o que interessa à maior parte das pessoas que trabalham, que estudaram, que se esforçaram, querem fazer uma carreira e que são os profissionais que o país tem de contar. E que têm retenções de IRS mais elevadas do que noutros países europeus. Para pagarmos o mesmo salário líquido em Portugal, a empresa tem de desembolsar mais do que em Espanha, por exemplo. Isso não é aceitável.

Isso é, mais uma vez, a tal estratégia do Governo...

Exatamente. Percebo perfeitamente que o PCP, o BE e uma parte do PS queiram aumentar o salário mínimo até porque aumenta as receitas da Segurança Social. É uma discussão inquinada à partida porque quer o ministro que propõe e a Segurança Social querem o aumento e, do lado das empresas, as que têm uma dimensão maior nem querem saber disso porque isso não os afeta. O que acho que não é completamente verdade porque, muitos de nós podemos dizer que não temos ninguém ao nível do salário mínimo. Mas quem é que faz as limpezas? E quem faz a portaria? E quem é que faz a segurança? São pessoas que trabalham nessas Manpowers e nessas organizações que são os maiores empregadores de Portugal. Têm mais de 10 mil empregados.

Acha que a meta de 750 euros até ao final da legislatura é populista?

É. Sou contra o salário mínimo e sempre fui. Não é solução e com essa política não conseguimos aumentar significativamente o nível do bem estar das pessoas.

Chegou a afirmar que, mesmo com o SMN, há pessoas que ganham mais do que deviam. Continua a achar isso?

Acho que sim. Em alguma medida, não é responsabilidade do próprio, nem é responsabilidade do patrão da micro empresa, onde as pessoas trabalham. Há atividades com determinada escala que não podem ter outras condições. Compare uma unidade automatizada de batatas fritas com uma senhora a fritar batatas, por muito que se esforce não consegue fazer o que uma máquina faz. Não é possível e continuamos a ter em Portugal um conjunto de atividades que se fazem como se faziam há 30 ou 40 anos.

Porque não se consegue mudar...

Acha que tem condições para fazer de maneira diferente ou que não gostava de fazer de maneira diferente? Isso tem quase tudo a ver com a qualificação das pessoas. Há muitos empresários por qualificar? Há. Trabalhadores? Também, quase todos em Portugal são pouco qualificados porque damos pouca importância ao ensino. Se for ver nas prioridades para os portugueses, o ensino aparece em sexto ou sétimo lugar, quando acho que é o mais importante.

Com a pandemia, o ensino está pior?

Ainda está pior. Vão fazer as crianças perder dois anos, não tenho nenhuma dúvida.

É uma fatura que se vai pagar mais tarde?

Sem dúvida. Na Alemanha, por exemplo, quando na escola há casos de covid fazem isolamento durante uma semana porque dizem que fechar mais quatro ou cinco dias já pouco acrescenta em termos de segurança. Preocupam-se em não tornar muito difícil a vida às pessoas para poderem contar com a obediência às regras durante mais três ou quatro anos até termos uma vacina.

Vai demorar assim tanto tempo até termos a vacina?

Nunca demorou menos do que seis ou sete anos. Trabalho neste setor há umas dezenas de anos e acredito que uma parte dos prazos que estão relacionados com as formalidades burocráticas podem eventualmente ser acelerados, mas há uma parte que não pode ser, nem a parte da investigação, nem a parte da testagem que é o que demora mais tempo. Há quem diga que a percentagem de falsos positivos é muito elevada e estamos a confinar pessoas quando não é necessário. Se acrescentarmos aos falsos positivos um prazo também excessivo é evidente que estamos a sujeitar percentagens muito grandes da população a isso. As administrações regionais de saúde não têm efetivos especializados para a gestão e planeamento e geram verbas e instituições com muita gente e com muitos recursos. Ao fim destes meses todos, ainda não vi nenhuma estrutura que fosse capaz de balancear os internamentos nos cuidados intensivos nos hospitais ou noutros conforme fosse necessário. Não se pode pegar no telefone e ligar para o diretor do hospital e pedir umas camas vagas. Não é assim, mas não há nada feito.

Supostamente o verão foi para planear esta nova vaga...

Acha que planearam alguma coisa? As equipas para os lares? Uma das razões do sucesso da Alemanha é que eles têm milhares de funcionários para acompanhar todos os casos e arrancaram logo com o problema dos lares. Em Portugal, a maior parte dos lares pertence às autarquias ou às misericórdias e toda a gente sabe a situação que existe.

E acha que as recomendações da DGS são coerentes? Assistimos agora à polémica em torno da Fórmula 1...

Estive na Fórmula 1 e tirei fotografias da bancada, onde se via os lugares vagos e os outros e de facto não havia muita gente. Fizeram imagens rasantes sobre o público, os fotógrafos sabem fazer essas coisas, e dão uma ideia que o espaço estava cheio de gente. A fotografia dá para mostrar muitos ou poucos. Havia algumas pessoas sem máscara, mas isso é igual em toda a parte. E em termos de país não é nada incoerente, tomara nós que para o ano houvesse dois ou três provas de Fórmula 1 ali. Havia 3600 pessoas que acompanharam as equipas que encheram os hotéis, os restaurantes, o que precisamos é disto porque temos uma economia voltada para o turismo. Temos um circuito ótimo no Algarve que foi pago por todos nós e que é uma infraestrutura magnifica, eles adoraram aquilo. Temos outro no Estoril, tomara a gente fazer várias coisas dessas. Estamos a falar do emprego das pessoas, da vida das pessoas. Agora está tudo a protestar? O que querem? Querem ficar todos fechados em casa mortos de forme? É assustador porque que as pessoas não pensam e nem querem saber se é verdade ou não. O QI de uma multidão é o QI do mais estúpido a dividir pelo número dos que lá estiverem.