Sociedade

Centros de Saúde. "As equipas chegaram ao limite, estão sobrecarregadas"

Em plena pandemia, como é realizado o atendimento aos doentes não-covid nos centros de saúde? O SOL tentou dar resposta a esta questão ao visitar unidades, da região de Lisboa, com falta de médicos de família.

Pela longa Avenida Salvador Allende, por estes dias, encontram-se dezenas de pessoas com exames, análises e outros papéis nas mãos. Algumas, apenas com o telemóvel junto da orelha a informar algum amigo ou familiar de que não conseguiram ter x consulta ou realizar y procedimento. De máscara de tecido com padrão floral e a baixa a comprovar a incapacidade temporária, Isabel Branco, de 65 anos, saiu do Centro de Saúde de Oeiras. Apressada, a auxiliar de ação educativa que já trabalhou em diversas escolas do concelho, durante 40 anos, lia as mensagens que o marido lhe havia enviado. “Se me chama por alguma razão, largo logo aquilo que estou a fazer e ele diz ‘Só agora é que vens?’”, começou por explicar a mulher que não consegue trabalhar com crianças atualmente por não estar “psicológica e fisicamente bem”.

É acompanhada por um psiquiatra, mas como “o atendimento agora está melhor” e tem de se dirigir mensalmente ao centro de saúde, não só pela depressão e pelos problemas de coluna de que sofre mas também pelo estado de saúde agravado do companheiro, não prescinde das consultas com o médico de família. Assim, não faz parte da lista de 49.582 utentes do ACES [Agrupamento de Centros de Saúde] Lisboa Ocidental e Oeiras, de um total de 169.704 utentes inscritos, do qual faz parte este centro de saúde, que não têm médico de família (MdF) atribuído segundo dados veiculados na área do Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários, no site do Ministério da Saúde (MS), referentes ao mês corrente. No mês de setembro, 23.607 utentes de 246.252 não tinham acesso a um MdF, isto é, confirma-se que foi o período com menos utentes inscritos registados mas com mais sem MdF atribuído. Todavia, Rafic Nordin, Diretor Executivo do ACES Lisboa Ocidental e Oeiras traçou outro cenário e frisou que, de acordo com a consulta efetuada ao RNU (Registo Nacional de Utentes), no passado dia 29 de outubro, "o número de utentes do ACES Lisboa Ocidental e Oeiras corresponde a 275.595, dos quais 26.980 não tinham médico atribuído", juntando que "no corrente mês de outubro foram colocados novos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF), estando a decorrer a elaboração das listas de utentes para atribuição de médicos de família (MF)".

“Houve uma fase muito má, agora está tudo melhor, atendem as pessoas com mais rapidez. No início da pandemia era assim tudo um bocadinho à bruta”, esclareceu Isabel. Para Nordin, existem “alguns problemas expectáveis nas unidades onde predominam utentes sem médico e com falta de outros profissionais de saúde”, mas asseverou que este ACES tem um Índice de Desempenho Global “muito acima da média” da Região de Lisboa e Vale do Tejo. Sobre os eventuais problemas que podem ter sido detetados “face à subida exponencial de utentes positivos para COVID-19 e de utentes em vigilância ativa”, afiançou que o ACES “tem tido um acréscimo de trabalho, pelo que a resposta aos utentes poderá não ser tão célere quanto o desejável”, todavia, nesse sentido, foram atribuídos “diversos recursos extraordinários e horas de profissionais de saúde de forma a assegurar a realização de todas as atividades para esta unidade”. Este ACES é composto por 17 Unidades de Saúde Familiar "todas com utentes com MF atribuído", 3 Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados "onde estão inscritos os utentes sem médico de família para além de utentes com MF atribuído", 3 Unidades de Cuidados da Comunidade "para programas de intervenção comunitária".

A importância dos cuidadores informais Isabel é uma das 800 mil cuidadoras informais portuguesas. O marido tem 75 anos, mas foi diagnosticado com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica aos 50. “Resguardo-me, uso luvas, máscara e desinfeto as mãos”, avançou, lembrando que, em casa, o marido que respira com auxílio de um suporte de oxigénio “fica muito aflito” quando não está presente.

“Mandei os papéis para Lisboa, caminhei para lá montes de vezes, mas é preciso ir uma Junta Médica a casa, para saberem se realmente é verdade que tenho de tomar conta dele. É a terceira vez que entrego papéis”, disse sobre o pedido de reconhecimento do Estatuto do Cuidador Informal. “A pensão dele é pouca, também não recebo muito da baixa, dava muito jeito o pouquito que podem dar”, confessou com a voz trémula, acrescentando no fim que vive com cerca de 800 euros. Espera juntar-se brevemente aos 530 cuidadores informais que obtiveram o estatuto, sendo que o número total de pedidos atinge os 2700 como foi explicitado no Parlamento, pela Ministra da Segurança Social Ana Mendes Godinho, na passada segunda-feira.

Rafic Nordin, que ingressou na carreira de Medicina Geral e Familiar em 1983 e já desempenhou cargos como o de Presidente do Conselho Clínico do ACES Amadora, de 2009 a 2012, aclarou que “as horas médicas contratadas para a prestação de cuidados são suficientes para dar resposta às várias solicitações dos utentes sem médico”, sendo que “a qualidade e celeridade dos cuidados de saúde indispensáveis às grávidas e crianças estão garantidas pelos médicos especialistas em MGF que têm horas atribuídas para estas consultas”.

Mas, para Isabel, “o que falta aqui é o que eles dizem, coitados, são médicos de família”, adiantou enquanto enviava uma SMS ao marido. Têm uma filha de 36 anos que vive em Almada, todavia, esta não os consegue auxiliar financeiramente “Tenho de esticar o dinheiro para conseguir apoiá-la”, disse, antes de narrar o quotidiano cuja organização permanece intacta há vários anos: levanta-se por volta das 8h30, vai comprar pão fresco e os jornais, ajuda o marido a fazer a higiene, dá-lhe o pequeno-almoço, tenta entretê-lo com a leitura das notícias, trata da lida da casa, faz comida e tira um bocadinho para si. “Faço palavras cruzadas, abstraio-me de tudo. Às vezes, o meu marido fala comigo e nem oiço nada. Sei que ele está bem, estou ali ao pé dele, estou perto”, rematou.

“Conheço o meu marido desde os 22 anos, mas estou casada há 20 e poucos. Um dia, deu-lhe na cabeça e quis casar”, recordou, sorrindo enquanto os olhos denunciavam alguma nostalgia. Ambiciona reformar-se antecipadamente e, acerca do futuro, não tem grandes expectativas, apenas ser avó. A filha pede-lhe que tenha calma, mas Isabel não é capaz. “Acho que vou eu primeiro desta para melhor do que ele. Só quero que legalizem tudo, que eu tenha o estatuto. Os políticos têm de ver, com olhos de ver, os cuidadores informais. Às vezes, recebe aquele que tem e aquele que não tem não recebe ou recebe uma fatia pequena”, denunciou, realçando que “as cervicais estão quase todas coladas”, tem “uma anca descaída” que lhe provoca “dores horríveis”, os joelhos “cheios de artroses” e “problemas no coração” que a levam a integrar a lista de espera para a realização de uma ablação (procedimento médico para o tratamento das arritmias cardíacas).

Nas palavras de Rafic Nordin, “o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras tem procurado atrair e reter o maior número de MdF”, por meio da integração dos médicos em Unidades de Saúde Familiar, da construção e melhoramento dos edifícios das unidades de saúde, de uma resposta integrada com o centro hospitalar de referência, autarquias e comunidade local, evidenciando que “há ainda a realização de projetos inovadores e a possibilidade de realização de outras atividades pelo profissionais”, até porque “é o ACES da Região de Lisboa e Vale do Tejo mais pretendido pelos novos especialistas de MGF e anualmente consegue preencher praticamente todas as vagas disponíveis”.

A solidão na terceira idade e a autonomia forçada A aproximadamente 10km dali, Maria de Lurdes Fidalgo apoiava os braços no tejadilho do carro da filha, olhando para o edifício da Unidade de Saúde Familiar (USF) da Cidadela, que faz parte do ACES Cascais. Aos 72 anos, afirmou que foi operada às ancas no passado dia 21 de fevereiro, teve “uma recuperação muito boa”, mas naquela quarta-feira aguardava pela filha que tinha ido falar com a médica de ambas. “Sou doente de risco, só vou lá dentro se a doutora quiser medir-me a tensão. Marquei esta consulta porque, quando começou a pandemia, isto estava fechado. Há um ano que não faço exames nenhuns nem análises”, clarificou a idosa que padece de problemas na tiroide e de hipertensão.

Não esconde que conhece casos de utentes que já perderam os médicos de família, como a própria irmã, mas nunca teve problemas nesse âmbito. “A minha filha vai buscar as receitas dos meus medicamentos”, disse uma das 169.249 utentes do ACES Cascais que, neste mês, não conseguiu atribuir MdF a 4969 utentes. Porém, a realidade do último mês era substancialmente diferente: 32.549 dos 209.950 cidadãos deste ACES não tinham acesso a um acompanhamento regular. “Os médicos aqui, que eu saiba, não estão satisfeitos. E o pessoal de secretaria não presta para nada. Podemos estar um dia inteiro a ligar que ninguém atende”, elucidou com alguma indignação à medida que tossia ligeiramente devido aos anos prolongados de tabagismo. “O cigarro acaba por ser a minha companhia”, justificou, adiantando que já fez reclamação do atendimento prestado na unidade “Foi a minha médica que me incentivou a fazer queixa. Só atendem quem querem”, concluiu a mulher que vive sozinha com o gato, mas é “abençoada” pela presença constante dos filhos e da neta.

“Habituei-me a ser independente quando o pai dos meus filhos morreu há 22 anos”, confessou Maria de Lurdes à medida que os olhos ficavam marejados de lágrimas. Afinal, João Fidalgo, arquiteto de profissão e ex-guarda redes do Sport Lisboa e Benfica, deixou-a viúva quando teve um acidente de viação em Aveiro. Agora, apesar da saudade, considera que leva a vida seguindo o lema “Dá Deus o frio conforme a roupa”.

Sempre trabalhou como chefe de cozinha, mesmo quando “tinha vários carros conduzidos por chauffeurs”, e não esquece as suas origens. Uma de onze irmãos, ajuda a irmã de 74 anos. “Coitada, ainda ontem lhe dei comida. Tem uma filha que ganha 5000 euros, mas que a abandona”, disse, acrescentando que “é uma pessoa que chora muito. Foi operada à vista mas está sempre na mesma. Ganha 600 e tal euros, só de renda paga 400. Ninguém ajuda ninguém”. Mas, segredando, admitiu que a filha não tem conhecimento deste apoio. “Dependo muito da ajuda dela porque a reforma são 430 euros e pago 350 de renda. Dou 100 e a minha filha põe 250”, suspirou, não deixando de contar que no dia anterior havia comprado couves, feijão, pão, ração para o cão e fruta à irmã que “anda com umas manias de suicídio” e diz, todos os dias “que tem os comprimidos todos num frasco”. “A gente nunca sabe”, murmurou.

Se pudesse conversar com um membro do Governo, pediria o aumento do valor da reforma porque esta “nunca aumenta”. Acerca das condições em que a terceira idade vive, como o isolamento e o abandono por parte dos familiares, não ocultou o desagrado e a frustração. “Hoje, os filhos descartam os pais. No meu tempo, havia outro tipo de educação. Só querem saber dos bens materiais e mandam os pais para os lares”, assegurou, lamentando a morte lenta do “sentimento de família” e revelando com orgulho que “os avós morreram em casa e sempre foram acarinhados”.

“Tem de se vir aqui quer faça chuva ou sol”, declarou Maria de Lurdes, indo ao encontro da perspetiva de Diogo Urjais, Presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, para quem “o atendimento aos doentes não covid é uma parte fulcral das unidades de saúde mas, infelizmente, tem-se realizado de uma maneira assimétrica no nosso país”. Na ótica do enfermeiro da USF Dom Diniz, em Leiria, as USF respondem às necessidades dos utentes, mas o trabalho tem aumentado e os recursos humanos e físicos mantêm-se iguais. “Obviamente que as equipas chegam ao limite, estão sobrecarregadas por todas as diversas atividades”, ilustrou, aludindo à burocracia – “trabalho que podia ser resolvido de outra forma, porque se gastam tempo, energia e recursos ligados a processos” – e às condições físicas das unidades funcionais – “que não estão preparadas para prestar cuidados em segurança aos pacientes” –, explicou, o dirigente que considera que o número de utentes que se podem acumular nas salas de espera é reduzido e não se soluciona somente com o cumprimento de horário rigoroso pelos profissionais de saúde. O enfermeiro de família destacou que a resposta presencial foi reduzida “devido a estas condicionantes e as pessoas esperam no exterior dos edifícios” que, devido a “uma falta clara de financiamento nos últimos anos”, têm 15, 20 ou mais anos e atingem “um limite de sobrecarga”.

Entre o diagnóstico precoce e as consequências do tardio Quem vive na pele as consequências da lotação dos cuidados de saúde primários é Maria de Fátima Baleia, de 57 anos, que tem um “angioma na cabeça”, isto é, em termos formais, um tumor benigno que lhe surgiu no cérebro devido a uma acumulação anormal de vasos sanguíneos. Está sem médico de família há dois anos, mas a doença deu os primeiros sinais há quatro. Quando não consegue obter a prescrição de medicação junto da USF da Cidadela, contorna o problema recorrendo ao médico que a acompanha no Instituto Português de Oncologia (IPO). Não obstante, “temos diagnósticos de diabetes, hipertensão e cancro por fazer”, e quem o sustentou foi Rui Nogueira, Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. “Por exemplo, se fazemos 5000 diagnósticos de cancro por mês, com o distanciamento que temos de consultas, com a dificuldade de acesso a exames complementares, ficamos com trabalho por fazer”, deslindou, somando a esta equação a incógnita do diagnóstico tardio: “Quando um doente com cancro vem mais tarde, o prognóstico é sempre pior. Há cancros que andam por aí e não sabemos”. Não é este o caso de Maria de Fátima, mas com o sofrimento estampado nos passos dados a custo para se aproximar da paragem de autocarros e sentar-se no banco de metal frio, acusou a precariedade das condições de vida. “Precisava de ajuda para tudo. Estou toda apanhada do lado esquerdo”, disse.

SNS versus Saúde Privada Prazeres Diogo acompanhava o aumento da fila de utentes com receio no Centro de Saúde de Algueirão e Mem Martins, unidade pertencente ao ACES Sintra. “Não venho aqui há dois anos, recorro ao seguro de saúde. Agora, como fui operada, e preciso dos papéis da baixa para entregar à minha entidade patronal, tive de me dirigir aqui. E o meu espanto é muito grande porque não imaginava encontrar isto assim”, expressou, com o braço ao peito vinda diretamente do hospital. Na opinião da mulher de 55 anos, “o SNS é uma vergonha” e sente-se agradecida por não ter de recorrer com frequência ao mesmo. “O segurança simplesmente diz-me para esperar”, expressou com a deceção notória na face. “Acho que deviam aceitar que deixasse a minha papelada e enviavam-me a baixa por e-mail. Não sei, deviam arranjar uma maneira mais simples. Está a passar o efeito da anestesia, estou a ficar cheia de dores e terei de ficar aqui até não sei quando”, verbalizou lançando um esgar de dor perante o ombro magoado. Telefonou para a secretaria da unidade de saúde e ninguém atendeu. A sua vez, o marido enviou um e-mail e não obtiveram resposta. No ACES Sintra, neste mês, 30.471 utentes, dos 261.681 inscritos, não tinham médico de família. No mês passado, os valores eram de 357.582 inscritos e 95.748 sem MdF.

Para reverter este panorama, Rui Nogueira acredita que “há medidas que têm de ser implementadas e uma delas é a formação de mais médicos na região de Lisboa e Vale do Tejo”. O médico insistiu que devem ser dadas “mais condições às unidades para esta formação, apoiando o internato médico, com mais unidades estruturadas e formadores com idoneidade”, pois “os médicos não se fazem de um dia para outro e não é quando precisamos de contratá-los que os vamos procurar”, visto que “muitos vão para os privados e outros emigram, infelizmente”.

O enfermeiro Diogo Urjais evocou as condições laborais que os médicos enfrentam, sendo que “não falamos apenas de questões monetárias”, uma vez que “as pessoas vêm com formação de base, com metodologias diferentes, e depois são colocadas em extensões, sozinhas, com listas de utentes enormes que não tem médicos de família e que estão ávidos de contacto com um profissional de saúde”, com a agravante de que nem sempre existe pessoal administrativo suficiente e os médicos “perdem tempo com burocracias”.

Mas esta aparente inexistência de medidas é justificada, pelo pós-graduado em Gestão de Unidades de Saúde, na Universidade da Beira Interior, através da “falta de vontade política, apenas e só”, na medida em que “o discurso politico, não deste Governo em particular, mas de todos, é que os cuidados primários são um pilar do SNS”, mas “todas as medidas, no concreto, nunca estão alinhadas com esse discurso”.

Recorde-se que, a 13 de outubro, o Governo divulgava o investimento nas unidades de cuidados de saúde primários, do SNS, até 90 milhões de euros. No site oficial do SNS, lê-se que “a medida servirá para melhorar instalações e equipamentos e permitir meios complementares de diagnóstico e terapêutica nas instituições e serviços públicos de saúde”. Todavia, Diogo Urjais mantém o seu descontentamento: “O orçamento retificativo teve uma verba pequeníssima, este orçamento a mesma coisa e, para além da verba, é preciso fazer políticas de fundo”, continuou, ponderando que “não vale a pena aumentar a verba se não modificamos a gestão”.

“Acho que isto da pandemia só serve de desculpa para esta vergonha. Este centro de saúde sempre foi mau. As coisas podiam funcionar de forma diferente. Com mais pessoal administrativo, por aí haveria uma solução”, mencionou a sintrense que é atendida pela mesma médica “excecional” há mais de 20 anos. No entanto, com respeito às administrativas, “são poucas e nada eficientes” na sua perspetiva. “Só sei dizer que o SNS é degradante. Não venham o Presidente e o primeiro-ministro dizer que não falta nada porque falta tudo”, complementou, esperando que a almejada baixa profissional lhe fosse passada naquele dia.

A problemática da comunicação de saúde “Tomo medicação para a hipertensão. Sou daqueles tipos que estiveram na Guera do Ultramar, tenho as minhas sequelas e tenho de andar em cima delas”, começou por dizer Eduardo Botelho José, de 79 anos e ex-combatente. Está a tentar ter consulta com “algum” médico há seis meses, pois a profissional que o acompanhava morreu. Por agora, tem “pouca esperança”, pois já se dirigiu ao centro de saúde “umas três vezes”, tendo recorrido “aos privados” porque não conseguiu ser atendido. Considera-se privilegiado por ter trabalhado no setor autómovel e usufruir de uma reforma que lhe permite viver “sem problemas”, faz caminhadas, isola-se na companhia da esposa da mesma idade, convive menos e sente muitas saudades dos netos. “É sempre chato não os vermos”, mas faz um esforço porque “temos de pensar em viver com esta pandemia porque não vai passar assim tão rapidamente”. Sobre o centro de saúde, e perscrutando as dezenas de pessoas que se aglomeravam no exterior do mesmo, não hesitou em avançar que “há muitos anos que é sempre a mesma coisa. Há dificuldade em ter uma consulta e a quantidade de médicos é insuficiente”, mas, brincando, explicou que “desde que os seguranças começaram a fazer de enfermeiros e de administrativos, tudo é difícil”, reconhecendo mesmo assim que “fazem aquilo que podem, coitados, não podem fazer tudo”.

“Eu compreendo que não é fácil governar”, admitiu com a sensatez marcada no tom de voz, lembrando que “há diversas opiniões e estamos muito mal informados em termos gerais” porque “a comunicação é muito fraca. A maior parte das pessoas da terceira idade vive muito a televisão e são-lhes incutidas coisas que não correspondem à verdade”. A problemática da comunicação de risco para a saúde pública preocupa igualmente Rui Nogueira, que relevou a ideia de que “as pessoas não estão a perceber e temos um problema de comunicação incrível. Temos de chamar jornalistas para sabermos comunicar”, sugerindo que devia ser criado um spot publicitário, transmitido frequentemente, para alertar os portugueses para a necessidade do distanciamento social, da etiqueta respiratória, do uso de máscara e do isolamento. Por fim, desencantado, lançou a pergunta: “O que é o isolamento? Quantas coisas dessas passaram nos órgãos de comunicação social? Quando se diz que não se pode fazer uma jantarada com mais de cinco pessoas, qual é a parte que as pessoas não entendem? ‘É só hoje, é meu amigo, não há problema’ e ficam todos infetados”.

O que dizem os números? Em certos agrupamentos de saúde, os valores correspondentes ao número de utentes inscritos e àqueles que têm MdF alteraram-se significativamente entre setembro e outubro. No ACES Sintra, foram atribuídos médicos a 65.277 utentes. Para Rui Nogueira, “este fenómeno ocorreu devido à colocação de novos profissionais de saúde nas unidades”, o que se pode comprovar por meio da consulta do Mapa de Capacidades Formativas Nacional - Concurso IM 2020 FE, é percetível que no agrupamento anteriormente mencionado, foram colocados, no âmbito do Internato Médico, 17 profissionais de Medicina Geral e Familiar. Para o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, agrupamento com uma subida de 25.975 utentes sem MdF no espaço de trinta dias, foram chamados 10 médicos. Já no ACES Cascais, onde foram colocados nove médicos, a vida de 27.058 utentes inscritos melhorou, mas Rui Nogueira ressaltou que “ao nível nacional, 8% dos utentes não têm médico de família, 700 mil estão na região de Lisboa e 500 mil concentrados em três ou quatro centros de saúde”. Torna-se importante perceber que “1 em cada 3 utentes não tem médico de família”. Por outro lado, no ACES Lisboa Central, há menos 108.535 utentes inscritos. Aquí, a atribuição de médicos de família andou de mãos dadas com a inscrição dos pacientes: em setembro, 40.592 não eram acompanhados oficialmente nos cuidados de saúde primários e, em outubro, esse valor desceu até aos 13.095. Neste agrupamento, 13 mestres em Medicina iniciaram o regime de internato médico. Atualmente, as situações mais graves verificam-se no ACES Oeste Sul e no ACES Maia/Valongo, com 89.673 e 59.690 utentes sem MdF, respetivamente. Para Rui Nogueira, “as percentagens não colocam a descoberto a gravidade da situação na região de Lisboa e Vale do Tejo”, mas comparando estes dados com aqueles que estão disponíveis sobre o mesmo período, no ano anterior, conclui-se que no ACES Sintra, estavam 11.64% dos utentes sem MdF em outubro de 2020 e 23.03% em igual período do ano passado; no ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, 29.22% contra 7.51%; no ACES Cascais, os 2,94% atuais opõem-se aos 11,00% de outubro de 2019 e, no ACES de Lisboa Central, os 7,29% contrastam com os 11,08% apurados previamente.

O olhar de um imigrante A pouca distância da entrada do metro, Shahid Abdus, de 32 anos, olhava para lá do vidro do Centro de Saúde da Alameda. Há cinco anos, estava num voo com destino a Lisboa, deixando o Bangladesh para trás. Entretanto, trabalhou num restaurante no Rossio e num mini-mercado no Martim Moniz para conseguir trazer a esposa de 29 anos para junto de si. “O meu Inglês e o meu Português não são bons, mas vou tentar falar”, disse de boa vontade, revelando que é pai de primeira viagem. This is good, comentou, apontando para o edifício de uma das unidades que compõem o ACES Lisboa Central. Este agrupamento contabilizava, em setembro, 288.226 utentes inscritos e, destes, 40.592 não tinham médico de família. Em outubro, a situação é distinta: dos 179.691 utentes, 13.095 não têm MdF.

“Estamos a caminhar para o inverno. O coronavírus não tem respeito nenhum pelo inverno ou verão, é completamente esparvoado, atrevido. Até ataca profissionais de saúde”, disse, em tom jocoso, Rui Nogueira que também exerce as funções de médico de família e coordenador de Internato de Medicina Geral e Familiar na Administração Regional de Saúde do Centro. O profissional defendeu que a chegada do tempo frio “vai  trazer as infeções típicas do inverno e, em cima deste problema, temos o do coronavírus”, demonstrando que os médicos têm “muito medo, daí a grande aposta na vacina da gripe” porque a exigência com a vacinação tem de ser imperativa, para que se vacine “com muita atenção a população acima de 65 anos”.

Mas Shahid não integra o grupo de risco, não é idoso e, a seu ver, “o serviço é bom, eles ajudam-nos”. “No meu país, cobram tudo. Não temos dinheiro para aceder aos serviços de saúde. Por exemplo, se vamos a um doutor, temos de pagar quase 70 euros”, descortinou, sorrindo à medida que fazia um esforço para recordar os exames e as análises que a companheira já realizou para saber se está tudo bem com o bebé.

“Ainda não decidimos o nome. Esta é a última vez que estamos aqui. O doutor disse que temos de passar para o centro de saúde do Saldanha”, avisou, com a atenção dividida entre o discurso e a possibilidade do atendimento célere da jovem grávida. “É o meu primeiro filho, não sei se as grávidas costumam ser acompanhadas de forma diferente. Por agora, está tudo bem, no complaints”, concluiu.