Desporto

Futebol. Um golo e um cigarro

Tempos houve em que futebol e tabaco andavam de mãos dadas. Em Portugal chegou a haver um Benfica-Sporting aos maços.

Stanley Matthews não fumava como uma chaminé, mas delambia-se com o seu cigarrinho de quando em vez. Aquele que ficou para a sempre conhecido como o Feiticeiro do Drible esteve em Portugal em maio de 1947 e saiu de cá muito mal impressionado. Um dos motivos prendeu-se, precisamente, com o seu hábito de fumador. Na autobiografia que intitulou The Way it Was, queixou-se amargamente de ter sido abordado por um polícia enquanto utilizava um isqueiro para acender um cigarro à porta do hotel em que a seleção da Inglaterra, da qual fazia parte, se encontrava instalada. Foi vítima de um caricato decreto-lei de novembro de 1937 que obrigava os possuidores de isqueiros a comprar uma licença no valor de 10$00, o decreto 28219, um pequeno papel selado que, no caso de não ser apresentado ao agente de autoridade em causa levava a uma coima de 250$00. Ora, para Stanley Matthews 250$00 não era um dinheirão por aí além, mas que ele ficou enxofrado, ficou, mesmo depois de a Inglaterra ter batido Portugal por 10-0, no célebre jogo dos dez-a-fio. Fumegou de tal forma pelos ouvidos que só há outra referência a Portugal nas centenas de páginas do livro: a polícia voltou a embirrar com ele e com alguns dos seus companheiros por terem avançado pela praia do_Estoril em calções de banho, não cumprindo, igualmente, outro decreto-lei na altura em vigor que obrigava os homens a usar fato-de-banho completo, isto é, com alças e tapa-peito. Parecia que as autoridades portuguesas estavam decididas a transformar Sir Stanley num cadastrado.

Conheci dezenas de jogadores que fumavam, e muito. Alguns até nos intervalos dos jogos. E em segredo, claro. Na sociedade de hoje em dia, o hábito de fumar passou a chamar-se vício e é quase crime. Raros são os lugares públicos onde o velho cigarrinho é autorizado e uma beata atirada para o chão é sancionada em valores bem mais alto do que a multa aplicada a Stanley Matthews. Mas, como diria Fernando Pessoa, no seu Quinto Império, «Eras sobre eras se somem/No tempo que em eras vem», e noutras eras o tabaco não era apenas bem aceite pela maioria quase exclusiva da população mundial como tinha um peso assinalável na vida do futebol.

 

Uma ideia peregrina

Em 1871, uma cigarreira americana chamada Allen & Ginter resolveu combater o natural esmagamento dos cigarros que eram vendidos em pequenos cartuchos de papel: surgiram as caixinhas de cartão. Pouco depois, e bem à americana, houve alguém que teve a ideia peregrina e rentável de utilizar esse espaço cartonado para publicidade. O nome de stiffeners popularizou-se. E, em Inglaterra, o projeto de Allen & Ginter foi desenvolvido pela W. D. & H.O. Wills. Com uma novidade: além da publicidade, os pacotes traziam cromos de jogadores de criquete e de futebol famosos de forma a que os fumadores pudessem igualmente guardar essas imagens, colecionando o maior número possível das estrelas que admiravam.

Futebol e tabaco passaram a ser, num riscar de um fósforo, irmãos gémeos. Gordon Howsden, no seu livro Collecting Cigarette and Trade Cards, esclareceu: «No final de 1800, em Inglaterra, havia muita gente que não tinha acesso a livros e os jornais resumiam-se a imagens geralmente difusas. O aparecimento destes cromos trouxe colorido à vida de muitos, além de os seus proprietários descobrirem uma forma de entretenimento, ora trocando cromos uns com os outros, ora discutindo sobre as carreiras dos jogadores em causa».

A indústria tabaqueira pode não viver tempos áureos, mas todos de nós que somamos a existência em mais de cinco décadas recordamos da força que tinha até surgir a convicção científica de que fumar prejudica seriamente a saúde. Dias houve em que o gesto de fumar não ficava apenas ligado a um certo estilo, ou elegância, como até – algo impensável nestes anos 2000! – à força e capacidade físicas. Daí a trazer os atletas para o campo dos ilustres fumadores foi mais um riscar de fósforo.

O nosso Stanley Matthews, para usar um exemplo bem a propósito, não tardou a assinar contrato com a Craven ‘A’, uma marca que exibia a sua foto de cilindrozinho de papel entre os dedos, não apenas nos pacotes como também em cartazes gigantes espalhados pelas ruas das cidades de Inglaterra. ‘Smooth, Clean, Smoking’, dizia um deles. E o próprio Stanley aconselhava vivamente todos os seus fãs a chupá-los até ao filtro: ‘The Cigarette for Me’. Pela performance terá recebido algo como 3 mil libras, e manteve-se fiel à marca até ao fim da vida.

Em Portugal a rivalidade entre Benfica e_Sporting também chegou aos maços de tabaco:_Sporting, da Companhia Portuguesa de_Tabaco, anunciando-se tabaco claro, suave e aromático; Benfica, da Tabaqueira, cigarros com filtro. Já o Porto, era Porto. Com barco rabelo e Ponte D. Luís. Mas sem Futebol Clube.