Opiniao

Uma semana de votações

1. As eleições nos Açores ocorridas no passado domingo vieram animar toda a semana dada a perspetiva de, em termos regionais, termos uma ‘rosquilha’ (doce açoriano) em vez de uma ‘geringonça’. A vida é engraçada e vemos os argumentos pressurosamente invocados por António Costa de mais uma vitória do Partido Socialista (fazendo relembrar Passos Coelho em 2015) esbarrarem na dificuldade de formar governo, dado a Esquerda ter apenas 28 deputados (em 57 na Assembleia Regional). Cá se fazem, cá se pagam!
Aliás, a situação é quase inultrapassável porque, racionalmente, não estou a ver a Iniciativa Liberal (que elegeu um deputado) a dar a mão a um governo PS, como não imagino o CDS com 3,5 deputados ou o PPM com 1,5 (dado terem um em coligação) facilitarem a vida a Vasco Cordeiro. Uma coligação de Direita também parece difícil porque não acredito que o PSD de Rui Rio vá formar um Governo Regional a depender do Chega que elegeu dois deputados. 
Estas eleições mostraram que, também nos Açores, existe uma certa saturação com o PS omnipresente, localmente na figura de Vasco Cordeiro. Fosse Bolieiro um líder carismático e era mesmo desta que o PS teria sido varrido do governo açoriano. Assim, o imbróglio está montado enquanto a economia regional agoniza, sobretudo pela falta do turismo que localmente já representava grossa fatia do PIB regional.
Perante o impasse que se perspetiva, acho sinceramente que, a prazo, poderá ter de haver novas eleições. Nos entretantos, como a política é tortuosa, até admito que a Direita irá esperar que o PS se enterre ainda mais pelo que, ‘por milagre’ e em nome do interesse regional, sirva cinicamente a Vasco Cordeiro uma abstenção que lhe permita formar um governo que ficará sempre preso por um fio.
Entretanto, como se vem vendo nas sondagens nacionais, a subida do Chega é a consequência natural do descontentamento de uma Direita que não se revê nacionalmente em Francisco Rodrigues dos Santos, muito precocemente nomeado líder do CDS e, sobretudo, na dupla Rio e Marcelo, ambos muito condescendentes com o Governo de António Costa. A certa altura, a desilusão é tão grande que buscam uma certeza com alguém que sabem que nunca irá ser tolerante com esta Esquerda tão radical.

2.Ver o Orçamento aprovado com o apoio do PCP, PEV e PAN, além de duas deputadas independentes, é verdadeiramente, assistir, à reciclagem da ‘geringonça’. A verdade é que Costa sempre encontrou na estabilidade do PCP a certeza de que o combinado é para cumprir. Um partido estável, com uma liderança que não é folclórica nem teatral, deu enorme lição a um Bloco que tanto exigiu.
O Bloco tem aliados de peso no Governo, com Marta Temido e, sobretudo, a dupla Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro. Assim, julgou que conseguiria atingir os seus desideratos, mas acabou por ser, em toda a linha, o grande derrotado deste OE 2021. Mais, exigindo o Céu e a Terra nas negociações que teve, encostando o PS às cordas, devia saber que Costa não gosta de ser apertado e serviu a vingança fria, não se importando nada de colar o Bloco à Direita.
Agora, sobra para Marisa Matias que queria ser a alternativa de esquerda a Marcelo e vai ter uma enorme estrada a percorrer. Não lhe chegava ter Ana Gomes a disputar os seus votos, como inicia as Presidenciais com o anátema do Bloco ter sido colado à Direita, depois de o PS acusar os seus dirigentes de mentirem em diversos momentos das negociações. Será que Marisa vai desistir? Não creio sinceramente que o faça, mas a sua votação poderá ser verdadeiramente inexpressiva.

3.As eleições no Benfica deram LFV. Estava escrito nos astros que seria reeleito. Fez campanha a solo, nunca foi a debates com qualquer dos oponentes, tamanho o receio da estrutura de qualquer vantagem que tivesse fosse volatilizada por alguma prestação mais pobre, ainda teve a BTV como aliada ao omitir referências a eleições. Oficialmente conseguiu 62,6%, Noronha Lopes 34,7% e RGS foi varrido com 1,6%.
Foram mais de 38 mil sócios a irem votar. Ao contrário do que sempre sucedeu em eleições de elevadas afluências, estas serviram para entronizar LFV em vez de eleger opositores. Muitos estiveram três horas em filas para votar dando provas ímpar, a nível nacional, de um amor ao Clube e, nas longas horas em filas, discutiam entre a necessidade da mudança e as vantagens da continuidade e estabilidade. 
Venceu o Benfica, mas ninguém merecia que existindo votos físicos, conforme pedido pelas alternativas a LFV, não fossem os mesmos contados. Não sendo o programa informático certificado de forma independente, essa contagem afastaria nuvens que a vitória de LFV não merecia, até porque ‘quem não deve não teme’!