Opiniao

Joe Biden vence. E agora?

As circunstâncias eleitorais favoreceram Biden. Um quarto de milhão de americanos morreu na pandemia, maltratados pelo ex-presidente; pelo menos 6 milhões caíram na pobreza.

Por Mendo Castro Henriques

Professor Universitário

Após um processo eleitoral tormentoso, Joe Biden vence em 2020 e os EUA livram-se de um pesadelo chamado Donald Trump, derrotado pela sua própria atitude moral com dezenas de escândalos, centenas de conflitos na rua e milhares de mentiras.

As circunstâncias eleitorais favoreceram Biden. Um quarto de milhão de americanos morreu na pandemia, maltratados pelo ex-presidente; pelo menos 6 milhões caíram na pobreza. A fatia do rendimento nacional da classe média caiu para 43% em 2018, e o número de bilionários subiu para 614 com uma fortuna de quase $ 3 triliões. Joe Biden teve a coragem e a sabedoria de reagir a este caos.

E, contudo, apesar do apoio das elites do Big Money, Big Tech e Big Media, a vitória de Biden é limitada. Trump é derrotado, mas o trumpismo continua vivo pois ganhou muitos mais votos do que em 2016 e a América continuará a pagar o custo de fraturas culturais, económicas e raciais que continuam para além do ciclo eleitoral.

A candidatura de Biden limitou as suas promessas em deferência aos grandes interesses; até a Fox News mostra que a maioria dos americanos, e sobretudo os jovens, querem uma espécie de social democracia, com um New Deal Verde para estimular a economia e com impostos mais bem distribuídos para financiar programas de bem-estar social e saúde para todos.

Agora, Joe Biden tem uma herança difícil. O seu partido vai ter de corresponder aos apelos da população e enfrentar a oposição trumpista. Se Biden não ganhar o Senado em janeiro de 2021, não conseguirá o necessário New Deal Verde. Se além disso, ficar refém de um Supremo Tribunal potencialmente hostil, o partido republicano vai minar as decisões e explorar a desilusão dos americanos com um governo muito pouco ativo. No que mais interessa ao mundo não-americano, a política externa do partido democrata deverá ter ainda falta de multilateralismo, exceto na maior compostura para com os aliados da NATO. Vamos ver.

 

6 de novembro de 2020