Sociedade

Mulheres em situação desesperada

Com o novo vírus a passear-se cada vez mais seguro pelo país e a roer uma economia já frágil, as mulheres, sobretudo mães e grávidas, são as trabalhadoras mais atingidas pelo desemprego. Quem o diz é Ana Rosa Rebelo, diretora técnica da Congregação das Irmãs do Bom Pastor, uma casa na zona de Sintra que recebe mulheres em situações de grande miséria e vítimas de violência doméstica.


Os efeitos socioeconómicos da pandemia afetaram de alguma forma o trabalho da vossa instituição?
Completamente. A começar pelo perfil das pessoas que agora procuram ajuda. Até aqui, só acolhíamos mulheres em situação económica carenciada ou vítimas de violência doméstica que não estivessem em situação de perigo – porque estas, por uma questão de proteção, vão para as casas-abrigo –, mas, desde que foi declarado o estado de Emergência até à atualidade, fomos surpreendidas com dois tipos de realidades muito preocupantes. Começou a haver, da parte da Segurança Social, muitos pedidos para que acolhêssemos também mulheres que perderam o emprego e foram desalojadas das suas casas, e imensos casos de mulheres grávidas sem qualquer tipo de retaguarda. Nunca tivemos tantos pedidos de futuras mães. E o problema é que as instituições como a nossa não estão a conseguir dar resposta a todos estes casos.

Quer dizer que as instituições estão a rebentar pelas costuras?

 Sim, porque a covid também nos paralisou. As mulheres que aqui chegam passam primeiro por um período de integração. Têm um acompanhamento especial, quer ao nível psicológico quer ao nível do desenvolvimento das suas competências, para poderem vir a gerir as suas casas e entrar no mercado de trabalho. E o que sentimos, mal a covid entrou no país, é que os projetos de vida delas ficaram em suspenso porque todos os serviços paralisaram. Sempre que aqui entra uma nova utente, há uma série de procedimentos para fazer: é necessário alterar a morada no Cartão de Cidadão; se houver crianças, tem de se tratar do abono na Segurança Social; se é caso para regular as responsabilidades parentais, precisam de se deslocar aos tribunais… Mas tem estado tudo fechado, só funcionam por marcação. E estamos há meses nisto.

Um mundo com uma grande carga kafkiana…

Tenho aqui mães que estão à espera de tratar do Cartão de Cidadão e só têm agendamento para o ano que vem. Por outro lado, estas mulheres têm um baixo nível de escolaridade – e daí encontrarem emprego sobretudo na área das limpezas, que é menos exigente em termos de qualificações –, havendo necessidade de investirem na sua formação. Mas, por exemplo, só em outubro é que o Centro de Emprego voltou a abrir candidaturas para cursos de formação profissional, que tinham sido suspensas. Ora, sem emprego, estas mulheres não podem sair das instituições e dar lugar a outras. E todas as instituições estão a lidar com o mesmo problema.

 Então, o que vai acontecer a estas mulheres grávidas que precisam de acolhimento?

Não vai ser fácil arranjar lugar para elas, mas algumas vão ter de ser deslocadas para fora da Lisboa e outras zonas do país. Vamos ter de fazer isso certamente, e o problema é que se trata de pessoas já muito fragilizadas emocionalmente e que, com esse desenraizamento, sentir-se-ão mais deslocadas e perdidas.

Qual a razão para este súbito aumento de pedidos de ajuda de mulheres grávidas? O que é feito dos seus companheiros e da família?

Uma mulher grávida não consegue arranjar emprego em lado nenhum. Há direitos que as entidades patronais não querem pagar. O que eu sinto é que elas já estavam numa situação precária, muitas sem emprego. Com a pandemia, as coisas pioraram ainda mais. Algumas porque não tinham trabalho nem qualquer suporte familiar, outras porque as famílias ou os companheiros também foram afetados pelo desemprego e uma criança a caminho é mais um encargo.

O ser humano está mais sozinho do que nunca?

O desespero leva, por vezes, a uma certa desumanização.

Isto quererá dizer que este novo vírus, que virou o mundo do avesso, trouxe à tona o lado patriarcal de uma sociedade em que a mulher continua a ser discriminada no mundo do trabalho, o que faz com que talvez seja a mais prejudicada durante a pandemia?

Não tenha dúvidas! As nossas mulheres são ainda mais discriminadas pelo facto de serem mães sozinhas e terem de faltar ao trabalho para cuidar dos filhos. Por exemplo: tenho aqui uma mãe que está a trabalhar com um contrato de seis meses que termina em fevereiro, e já sabe que muito provavelmente não vão renovar-lho porque o filho está muitas vezes doente e ela, claro, tem faltado. Antigamente, havia os avós que ficavam com as crianças; agora, há cada vez menos esse apoio. E muitos destes trabalhos funcionam por turnos, sem feriados nem fins de semana. Quem fica com as crianças? Daí a nossa preocupação em arranjar-lhes empregos que se adaptem aos horários das creches. A entidade empregadora nem pensa duas vezes quando apanha uma mulher nestas condições. Perdeu-se a solidariedade. O empresário só pensa na tarefa e no lucro.

Diz que estas mulheres foram obrigadas a sair das suas casas, mas uma das medidas do Governo nesta fase foi, precisamente, a proibição de despejos...

Mas isso só funciona quando os contratos são legais e nós estamos a falar de mulheres em situações muito precárias. Por um lado, trabalham sobretudo nas limpezas, hotelaria e restauração, áreas muito afetadas desde que foi declarado o primeiro Estado de Emergência e que tiveram mesmo de fechar portas. Além disso, muitas dessas pessoas foram contratadas por empresas de emprego temporário, a maioria com contratos renováveis por um mês, o que as torna facilmente descartáveis para o empregador e não têm qualquer direito laboral nem social. Finalmente, estas mulheres, sozinhas e com filhos, sem qualquer tipo de retaguarda familiar, têm salários muito baixos e vivem em casas ou quartos sem contrato e sem qualquer recibo. Ora, quando deixam de poder pagar as rendas, também tornam a vida muito confortável aos senhorios que as convidam logo a sair, sem mais.

Qual é o estado moral destas mulheres quando cá chegam?

Estão desesperadas, confusas e deprimidas. Temos aqui uma senhora que tinha casa própria, mas já antes da pandemia estava em incumprimento e tinha uma ação de despejo do banco. Com o confinamento, os filhos também ficaram desempregados, o que piorou a situação. Ela estava doente e de baixa médica. Apesar de uma advogada ter feito uma exposição ao banco sobre a situação da família naquelas circunstâncias, foi despejada. De um momento para o outro, esta mulher perdeu tudo e em certas idades é muito difícil recomeçar do zero. Mas quem tem o apoio das instituições ainda consegue sobreviver, o problema é quando não se consegue essa ajuda. Como será a vida dessas pessoas, já imaginou?

Todas estas mulheres carregam histórias muito pesadas. Nesta fase, houve alguma que a tivesse marcado mais?

Tenho aqui uma jovem de um dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) que chegou a Portugal cheia de esperança. Tinha o 12.º ano e queria entrar no ensino superior, arranjou trabalho nas limpezas e alugou um quarto. Só que, entretanto, engravidou e arranjou um conflito com a senhoria e esta, um dia, atacou-a com uma faca e cortou-lhe a jugular... A rapariga esteve hospitalizada, em estado muito grave. Agora está bem. Portanto, houve aqui uma tentativa de homicídio que não é comum.

Os problemas mentais, segundo os médicos, aumentaram muito também durante a pandemia. Encontra algum relacionamento entre as duas?

Eu acho que as pessoas andam desesperadas com a falta de trabalho e de dinheiro. Acredito que algumas cometem certas loucuras que normalmente não fariam.

 

Isilda, 26 anos

Veio para Portugal cheia de esperanças. Mas o pai da filha deixou-a e hoje a sua vida é um inferno.

Há dias e dias. Para Isilda, 26 anos, os dias só são normais quando nada de mau acontece. Basta-lhe isso. Já teve a sua dose. Chegou à Congregação das Irmãs do Bom Pastor sentindo-se exatamente como a roupa que trazia no corpo, apanhada em contentores do lixo: como se fosse uma versão desvalorizada de si própria. No entanto, quando decidiu com o companheiro, ainda em Cabo Verde, vir para Portugal e deixar aos cuidados maternos a filha pequenita, estava cheia de expectativas: «Ia estudar, mas sabia que tinha de trabalhar muito para conseguir o que queria. Na altura, estava muito apaixonada, acreditava em tudo e o pai da minha filha tinha prometido que ia sacrificar-se para eu cumprir o meu sonho».

 Enquanto ele seguia o caminho rotineiro da grande maioria dos imigrantes, as obras, ela inscreveu-se em Geografia na Universidade de Évora. A ilusão desmoronou-se, porém, em três meses: «O meu companheiro tinha ficado na casa da mãe, em Queluz, trabalhava e até não ganhava mal. Eu pagava 180 euros de quarto, mas ele achou que eu andava a gastar muito dinheiro e disse-me para ir ter com ele».

Quando Isilda se juntou à família do companheiro, o resultado foi catastrófico. Os arquitetos do mundo ainda não conceberam um espaço igual para todos. Vive num bairro social, gueto de betão armado nos arrabaldes da capital, onde o cenário social é o tradicional: os homens trabalham como trolhas ou vivem de expedientes ilegais e às mulheres calha-lhes o trabalho incerto nas limpezas, sem contrato. Isilda seguiu o mesmo caminho.

Mas desde o início do ano que um vírus poderoso e itinerante faz escala por todo o mundo, soma mortes e traz desemprego. Numa sociedade resignada, parece que de repente se recuou ao tempo em que os trabalhadores não tinham direitos. Com o desapontamento a boiar-lhe no rosto, Isilda murmura: «Eu só estava de três meses, alguém contou na empresa que eu estava grávida e fui despedida».

O desemprego mede forças com a pandemia. O companheiro de Isilda também fica sem trabalho e, com a clausura, no apartamento acanhado com apenas dois quartos e que tem de ser partilhado entre cinco pessoas, rebentam as quezílias e a disputa pelo espaço. As hostilidades são irreversíveis: «Eu dormia na sala com o pai dos meus filhos, mas a minha cunhada não me queria ali, estava sempre a envenená-lo e ele não me dava dinheiro. Desinteressou-se de mim. Comecei a fazer o enxoval do bebé com roupa que apanhava nos contentores do lixo. Aproveitava o que aparecia também para mim e depois lavava muito bem».

Perante o desconhecido, o medo alastrou e torna-se parte da idiossincrasia nacional. Na vida de Isilda, já não havia dias bons: «De repente, adoeci. Fiz o teste, estava com a covid. Ninguém me queria em casa. Diziam que eu tinha de ficar em isolamento e que em casa não havia espaço para isso. A minha sorte foi uma assistente social que me arranjou um sítio para ficar. Mas foram tempos horríveis, sozinha, cheia de medo de morrer com o bebé e nunca mais ver a minha filha que está em Cabo Verde. Quando fiquei curada, vim para aqui. Agora, só espero refazer a minha vida, tirar um curso de manicure e pedicure, arranjar casa e trazer a minha filha para conhecer o irmão. Nem tudo pode ser sempre mau!».

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