Desporto

Andorra. O anão das montanhas

Adversária de Portugal na quarta-feira, num particular, Andorra tem sido um bom cliente: 5 jogos, 5 derrotas, um golo marcado, 22 sofridos.

Há três ou quatro anos, ao desfolhar o Mundo Deportivo, um jornal catalão onde conto com dois grandíssimos amigos e jornalistas, Paco Aguilar e Cristina Cubero, uma reportagem captou a minha atenção. Tinha como título uma pergunta – La Peor Selección del Mundo? –, e eu confesso que embirro profundamente com perguntas nos títulos porque, como dizia o meu velho mestre Carlos Pinhão, o leitor compra o jornal para obter respostas, e não para que o baralhem com questões às quais nem sempre sabe responder. O artigo era, salvo erro, de outubro de 2016 e Portugal, nesse mês, espancou o seu adversário da próxima quarta-feira na Luz, por 6-0, em Aveiro, num particular, tal como o desta semana.

Sejamos, por momentos, essencialmente práticos, como os ingleses caricaturados por_Carlos da Maia do divino Eça. A equipa nacional de Andorra recebeu o beneplácito da UEFA e da FIFA em 1996, sendo de imediato esculhambada pela Estónia, em Andorra-La-Vieja, por 1-6. A partir daí, cada partida parecia uma queda nas catacumbas do futebol mais medíocre do planeta. Até disputar o seu primeiro confronto oficial, na fase de apuramento para o Euro 2000, Andorra somou 12 jogos e só um deles não descambou em derrota – empate com o Azerbaijão (0-0) no dia 24 de junho de 1998. Os enxovalhos multiplicavam-se e mantiveram-se arrumados nas prateleiras dos calendários, com o primeiro confronto com Portugal a datar de 18 de agosto de 1999, derrota por uns muito simpáticos 0-4 no Estádio Nacional. Vitórias, nem vê-las.

 

A pilhéria...

Andorra é, politicamente, um principado. Encaixada em plenos Pirenéus, é um país anão no meio das montanhas. Criada por Carlos Magno, é hoje em dia um micro-Estado governado a meias pela França, na figura do Presidente da República, e pelo arcebispo católico de Urgel, uma das comarcas da Catalunha. Estranho? Sim. Ao ponto de o nosso Eça de Queiroz, sempre que questionado sobre o seu currículo, soltar com o descaramento digno do Alencar, d’Os Maias: «Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra!» República essa que jamais existiu, como está bem de ver.

 

Data histórica

Voltemos ao futebol. Dia 26 de abril de 2000. Data histórica e inesquecível para os andorrenhos. No 24.º jogo da sua curta existência, de repente, uma alegria. No Camp d’Esports d’Aixovall, dois golos, um de Lucendo (57 m) e outro de Juli Sánchez (62) serviram para dobrar a Bielorrússia e dar aos adeptos do Anão das Montanhas a primeira vitória das suas vidas. O triunfo excecional estava muito, mas muito longe de se tornar um hábito. Só no dia 17 de abril de 2002 se repetiu o êxtase, noutro particular, desta vez face à assustadora Albânia – perdoem-me os albaneses pela ironia sem malícia –, novamente por 2-0, golos de González (34 m, de penálti) e de Jiménez (58 m).

 

Derrotas atrás de derrotas

Vamos e venhamos: encontrar resultados vitoriosos na lista dos jogos de Andorra é como procurar uma agulha num palheiro. Depois desse triunfo sobre a Albânia surgiram, assim um bocado a caírem do céu, um 1-0 sobre a Macedónia (13 de outubro de 2004), a contar para a qualificação do Mundial 2006 – primeira vitória oficial, portanto –, a glória do ano de 2015 – sucesso inédito fora, em São Marino, por 2-0, num amigável –, e o estrepitoso êxito sobre a Hungria (1-0) na qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo de 2018, que decorreu na Rússia.

No dia 19 de agosto de 1999, eu estava no Estádio Nacional. Quatro golos portugueses – Rui Costa (17 m), João Pinto (35), Figo (45) e Pauleta (67) definiram o resultado do primeiro jogo entre Portugal e Andorra: 4-0. No dia 28 de fevereiro de 2001, eu estava no Estádio dos Barreiros, no Funchal.

Dessa vez, o jogo valia, ao contrário do primeiro: entrava para a qualificação do Mundial de 2002, a disputar na Coreia do Sul e no Japão. Nova vitória, tranquila e sem necessitar de esforços exagerados: 3-0, golos de Figo (1 e 49 m) e Pauleta (36). Depois disso, ainda houve um categórico 7-1 em Lleida, Espanha, no jogo de volta do do Funchal, e uns 6-0 e 2-0 na fase de qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo. Isto é, Andorra é um bom cliente. E nada como receber o cliente com simpatia na próxima quarta-feira. Mesmo que a receção à França já pese na cabeça de todos.

Na vida do dia-a-dia, tal como no futebol, o Principado de Andorra continua a ser um ponto de passagem. Se bem que, agora, já não para comprar eletrodomésticos mais baratos. Outros tempos...