Economia

Banca lucra mais de 3 milhões por dia

Apesar de os principais bancos continuarem a registar resultados positivos, a pandemia trocou as voltas e os lucros caíram até setembro face a igual período do ano passado.

A pandemia já está a ter reflexos nos lucros dos quatro maiores bancos a operarem no mercado nacional. A constituição de imparidades ditou os resultados até setembro e os números falam por si. A Caixa Geral de Depósitos, o Santander, o BCP e o BPI lucraram até setembro 878,3 milhões de euros. Feitas as contas, dá um lucro diário de mais de três milhões de euros, bem longe dos resultados obtidos pelas instituições financeiras antes da pandemia.
Mais uma vez, o campeão dos resultados é a Caixa Geral de Depósitos ao apresentar um resultado positivo de 392 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, o que representa uma queda de 39% face a igual período do ano passado. A instituição financeira liderada por Paulo Macedo tinha registado um resultado positivo de 640,9 milhões de euros no mesmo período de 2019.

O banco público revela que nos primeiros nove meses do ano, e em antevisão dos efeitos expetáveis da crise económica, registou-se um reforço de imparidades de crédito e de provisões para garantias bancárias de 220 milhões.
Neste período, a margem financeira diminuiu 76,5 milhões de euros (-9%) face ao mesmo período do ano anterior, «impactada pelos níveis historicamente baixos das taxas de juro e pela amortização antecipada de crédito a entidades públicas que se verificou em 2019». Já as comissões líquidas recuaram 1,1 milhões de euros (-0,3%) face ao período homólogo. Quanto aos custos de estrutura, estes «totalizaram 620,9 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020, o que se traduziu numa redução de 10,2% face aos primeiros nove meses de 2019. Esta evolução positiva foi especialmente significativa na diminuição de 47,7 milhões de euros dos custos com pessoal (-11,0%)», explica o banco liderado por Paulo Macedo.

Os depósitos de clientes aumentaram 5,3 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, «evolução essencialmente justificada pela captação da CGD Portugal, impulsionada pelo aumento da taxa de poupança das famílias e demonstrando a confiança dos clientes na Caixa». Já o crédito a empresas em Portugal (excluindo os setores de construção e imobiliário) cresceu 9,8% nos primeiros nove meses. O crédito à habitação manteve a tendência de aumento da quota de produção, que atingiu 21% entre janeiro e agosto – e 24% se considerado apenas o mês de agosto –, alcançando-se na produção anual um crescimento de 4% face ao período homólogo de 2019. 
Até setembro, o banco tinha 62 387 moratórias, num montante total de 5651 milhões de euros – isto quando, em julho, tinha 78 184, num total de 6982 milhões de euros. Esta descida, segundo o banco público, deve-se ao facto de muitos clientes particulares terem optado por não beneficiar da extensão da moratória. 

Santander também em queda
Os lucros do Santander atingiram os 254,5 milhões de euros até setembro, o que representa uma queda de 25% face a igual período do ano passado, altura em que a instituição financeira registou um resultado líquido de 390,6 milhões de euros. «Os resultados dos primeiros nove meses do ano registaram um decréscimo derivado do impacto que a pandemia de covid-19 está a ter na nossa atividade, apesar de termos sentido uma melhoria quando comparamos o terceiro trimestre com o anterior. De realçar a evolução dos depósitos, do crédito e da base de clientes, que registaram um comportamento positivo», disse a instituição financeira liderada por Pedro Castro e Almeida. 

No final de setembro, as moratórias, legal e privada, tinham abrangido mais de 88 mil clientes, correspondendo a um montante superior a 9 mil milhões de euros de crédito (cerca de 21% da carteira total). No âmbito das linhas de crédito com garantia do Estado, destinadas a mitigar os efeitos da pandemia, o banco já aprovou um conjunto de operações no montante de cerca de 1,4 mil milhões de euros.

Já o total de crédito a clientes atingiu 42,5 mil milhões de euros, equivalentes a uma subida de 5,4% face ao período homólogo e de 6,4% em relação ao final do ano anterior, enquanto os recursos de clientes totalizaram 43,3 mil milhões de euros, um aumento de 2,4% face ao mesmo período do ano passado, evolução suportada no acréscimo de 3,9% em depósitos.

Também nos depósitos é registada uma melhoria. Os depósitos de clientes cresceram perto de 4%, totalizando 36,3 mil milhões de euros e contribuindo para uma subida de 2,4% dos recursos totais de clientes, que se fixaram em 43,3 mil milhões. Os recursos de clientes foram impactados negativamente pela quebra de 4,4% nos fundos de investimento e de 5,3% nos seguros.

Por seu lado, as comissões líquidas caíram mais de 4,2% e totalizaram 274,4 milhões de euros, «refletindo os efeitos da pandemia sobre a atividade».

Lucro do BCP também cai
O BCP registou lucros de 146,3 milhões de euros até setembro. Trata-se de uma queda de 45,9% face ao mesmo período do ano passado. «O resultado líquido consolidado cifrou-se em 146,3 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020, que comparam com 270,3 milhões de euros alcançados no período homólogo do ano anterior, encontrando-se esta evolução fortemente condicionada pelo impacto decorrente da pandemia provocada pela covid-19», diz o banco liderado por Miguel Maya.

Nos primeiros nove meses, a instituição financeira constituiu imparidades (sobretudo para crédito) no valor de 550,7 milhões de euros, mais 46% do que no mesmo período do ano passado. E, de acordo com o CEO, a «antecipação do impacto da pandemia» está relacionada com esse aumento das imparidades. O BCP concedeu mais de 125 mil moratórias no crédito às famílias e empresas, em contexto de pandemia, num total de quase 9 mil milhões de euros. Mas detalhemos. Para as famílias foram concedidas 101 114 moratórias, num total de 4,2 mil milhões de euros e, deste montante, 91% dizem respeito ao crédito à habitação. Já às empresas foram concedidas 23 909 moratórias num montante de 4,7 mil milhões de euros. Para Miguel Maya, o risco não está no fim das moratórias, mas «em retirar os apoios aos clientes antes de retomarem a atividade». Além disso, foram disponibilizados mais de dois mil milhões de euros em linhas de crédito covid-19. 

As comissões líquidas totalizaram 518,1 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020, “tendo o desempenho positivo alcançado pela atividade internacional sido totalmente absorvido pela redução verificada na atividade em Portugal”, refere o banco.

Já carteira de crédito (bruto) consolidada do BCP ascendeu a 56 147 milhões de euros em 30 de setembro de 2020, «evidenciando um aumento de 2,7% face aos 54 658 milhões de euros apurados na mesma data do ano anterior, devido sobretudo ao desempenho da atividade em Portugal, mas beneficiando também do crescimento, embora mais modesto, registado na atividade internacional», enquanto os recursos totais de clientes alcançaram os 83 284 milhões de euros no mesmo período, o que reflete um crescimento de 3,9% face ao período homólogo. 

BPI também tomba
O lucro do BPI caiu 66% para 85,5 milhões de euros até setembro. No ano passado, o banco tinha registado um resultado líquido de 253,6 milhões de euros. A instituição financeira justifica esta queda com a constituição de 100 milhões de euros de imparidades de crédito, mas explica que eles «incluem imparidades não alocadas em contexto covid-19». 

A atividade em Portugal registou um lucro de 47,4 milhões e, só no terceiro trimestre do ano, o resultado ascendeu a 40,9 milhões de euros. 

Os depósitos de clientes aumentaram 2271 milhões de euros (+9,9%), para um total de 25 287 milhões de euros no final de setembro. Feitas as contas, os recursos totais de clientes, que contabilizam ainda os ativos sob gestão e as ofertas públicas de subscrição, cresceram 6% e totalizaram 35 954 milhões de euros.

Já a carteira de crédito subiu 861 milhões de euros (+3,5%), totalizando 25,2 mil milhões de euros, registando-se aumentos tanto no crédito a particulares como a empresas. No caso dos particulares, o crédito à habitação cresceu 5,5% até setembro. Já o crédito a empresas subiu 6,6% no mesmo período.

O banco conta atualmente com 108,6 mil contratos abrangidos pelas moratórias, num total de 6127 milhões de euros, o equivalente a 24% da carteira total de crédito. A larga maioria destas moratórias, superior a 98%, está em «situação regular».

Deste total, 2721 milhões de euros dizem respeito ao crédito à habitação, 388 milhões de euros ao crédito pessoal e automóvel e 3018 milhões de euros às empresas.

O BPI revela também que até setembro disponibilizou 3012 milhões de euros em linhas de crédito às empresas.