Sociedade

Covid-19. Um longo inverno

Pico de infeções é esperado a partir de dia 20 de novembro, mas especialistas admitem que restrições de contactos terão de manter-se e pressão nos hospitais será crescente. Preveem-se 8 mil mortes até ao final do ano. Universidade de Washington traça cenário mais negativo.

A segunda vaga de covid-19 no hemisfério norte revela-se mais forte do que a primeira a cada dia que passa. Em Portugal, o pedido para ficar em casa, imposto pela primeira vez este fim de semana, da parte da tarde, em 121 concelhos voltou esta semana a ser ouvido e as incertezas permanecem. Mesmo havendo sinais de abrandamento do ritmo de aumento de novos casos, que levam agora os peritos a tentar fixar com um pouco mais de segurança quando poderá verificar-se o pico de infeções no país – podendo já ter sido superado na região Norte –, a pressão sobre os hospitais vai manter-se com uma tendência crescente para lá disso: em média, os últimos dados disponibilizados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC na sigla inglesa) indicam que há uma diferença de cinco dias entre o início de sintomas e o internamento dos doentes que precisam. E internamentos prolongados nos casos mais graves, o que com o número de pessoas infetadas ainda a aumentar, também nos grupos etários mais velhos, implicará uma progressiva mobilização de meios para responder à covid-19. A que se soma a necessidade de responder aos outros doentes graves e a incerteza sobre a força da época de gripe este ano, por agora com uma circulação esporádica, pneumonias que aumentam também nesta altura do ano e descompensação de doentes crónicos com o tempo mais frio. «Vai demorar semanas, depois de atingirmos o pico da doença, a sentirmos uma diminuição na procura dos hospitais, e ainda mais semanas na redução da letalidade», advertiu ontem a ministra da Saúde, numa altura em que se mantêm apelos no setor para que seja reorganizada e reforçada a capacidade de resposta dos serviços de saúde.

 

O que esperar?

As projeções e os modelos não são todos iguais, mas todos apontam para um fim de outono e um inverno duro. O INSA divulgou ontem os últimos cálculos sobre a curva epidemiológica, que mostram um abrandamento na subida de casos, mantendo-se no entanto a tendência crescente numa altura em que o país regista uma incidência elevada de novos casos, com uma média de 5394 nos últimos dias – a maioria no Norte, onde a média foi superior a 3 mil casos diários. Para se ter uma ideia do que se viveu em outubro, marcado pela explosão de casos de covid-19 na região, o INSA estima agora uma duplicação de novos casos, com base na última quinzena, em 28,6 dias. Há 15 dias, as infeções estavam a duplicar em 14,9 dias.

O Rt (o indicador que estima quantos casos surgem em média a partir de cada infetado, dando uma indicação sobre a velocidade da epidemia) abrandou em todo o país na primeira semana de novembro, mantendo-se no entanto acima de 1 em todo o país, com valores mais elevados no Norte, mas também agora no Alentejo e no Algarve. Isso significa grosso modo que os mais de 6 mil doentes infetados cujos testes foram contabilizados esta sexta-feira no boletim da DGS – um novo máximo diário – infetarão ainda um número superior de pessoas. E assim acontece sucessivamente, menos quanto menor for o Rt, antevendo-se uma descida quando passa a estar abaixo de 1.

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, considera que o abrandamento do Rt, que a sua equipa também estima diariamente, é uma boa notícia, sobretudo porque permite tentar projetar com um pouco mais segurança quando poderá verificar-se o pico de infeções e sugere um cenário menos gravoso do que estimavam na semana passada. Mas é preciso que assim se mantenha e a situação está longe de ficar resolvida. «Não basta estar a descer uns dias, tem de descer bastante e para baixo de 1, mas melhorou o nosso prognóstico em relação ao pico e data do pico», explica. A equipa da FCUL aponta o pico de casos para a quinzena entre 20 de novembro e 6 de dezembro, estimando na altura uma média diária entre 6800/7 mil novos casos no país. «Chegámos a estimar 11 mil casos no dia 9 de novembro», recorda o investigador, salientando no entanto que, sendo boas notícias, será preciso ir mais longe na redução de contactos e infeções. «A descida do Rt significa que os portugueses começaram a ter menos contactos entre si. Posicionamos isso nos últimos dias de outubro, que coincidem com quando começaram a aparecer 4 mil casos nos dados da DGS. É possível que as pessoas tenham começado espontaneamente a mudar os seus comportamentos antes de o Governo apresentar medidas, o que aconteceu depois, mas agora é muito importante que as medidas venham a dar uma machadada adicional ao R», afirma Carmo Gomes, apontando o perigo que o país enfrenta e que já viveu no verão: «Um dos grandes perigos é o R chegar a 1 e não vir para baixo de 1. Se isso acontecer ficamos num planalto de 6 mil/7 mil por dia. Não podemos. Seis mil/7 mil casos por dia, embora não aumente, é uma quantidade muito grande de internamentos todos os dias. Precisamos que o Rt chegue a 1 e continue a descer. E isto não é fácil. No verão não conseguimos, nem Lisboa, e mesmo a nível nacional. Só que era um patamar de 300 casos por dia, gerível. Outra coisa é ter um patamar de 6 mil/7 mil casos por dia».

Se são necessárias mais medidas ou mesmo um confinamento, Carmo Gomes diz que é preciso monitorizar de perto a situação e tentar perceber o impacto das medidas que estão a ser tomadas. E se considera que houve um atraso na implementação de medidas na região Norte do país, defende que a introdução de medidas diferenciadas nos concelhos com mais casos é o mais necessário neste momento. «Começámos atrasados a tomar estas medidas, deviam ter começado mais cedo. Digo isto, mas não critico, porque isto é uma situação difícil. Há a perspetiva epidemiológica, mas qualquer coisa que se faça tem implicações para a economia, para a sociologia, para a sanidade mental das pessoas, para os diferentes setores, e é o Governo que tem de gerir isto».

Certo, no entanto, é que a pressão continuará a ser crescente, bem como o impacto, e se há um abrandamento dos novos casos, o número de mortes diárias vai continuar a aumentar. «No que diz respeito aos óbitos, as projeções não melhoraram. Continuamos a estimar mais de 100 óbitos em média, por dia, na segunda semana de dezembro. Os óbitos dependem das pessoas que já estão infetadas. Ocorrem normalmente em pessoas que estão internadas em UCI e a mediana de internamento em UCI é de 19/20 dias. Um quarto das pessoas em UCI estão lá um mês», diz Carmo Gomes, que analisa os dados dos internamentos nacionais. Óscar Felgueiras, matemático especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, que tem alertado nas últimas semanas para o aumento da incidência na população mais idosa, aponta também ao i para uma subida das mortes. «Na última semana de outubro houve uma média de 33 óbitos diários. Este mês, nestes últimos sete dias, morreram em média 58 pessoas por dia. O país dirige-se para uma média de 80 óbitos diários», disse no dia em que o número de mortes na região Norte passou os números de outubro. Desde o início do mês morreram no país 706 pessoas infetadas com covid-19, um número que em poucos dias ultrapassará abril, o mês com mais mortes em Portugal desde o início da epidemia, em que morreram 820 pessoas infetadas com covid-19. Na altura, o pico de infeções foi estimado a 27 de março, duas semanas depois de o país entrar num confinamento mais rígido do que o atual. Olhando para essa curva, o pico de internamentos, hoje já largamente ultrapassado, foi atingido apenas na segunda semana de abril, quase um mês depois de ter sido declarado o estado de emergência.

«Mesmo que haja uma estabilização de casos, têm de estabilizar os internamentos e os óbitos. No Norte estamos ainda no início deste processo», defende Óscar Felgueiras. «As mortes só param quando parar o aumento de casos em idosos. Só ao fim de duas semanas é que teremos um abrandamento do número de óbitos», diz o investigador.

Universidade de Washington projeta cenário mais grave

O Instituto de Métricas e Avaliações em Saúde da Universidade de Washington (IHME na sigla inglesa), que atualizou nos últimos dias as estimativas até 1 de março, projeta uma evolução da epidemia mais grave. A metodologia usada pelo IHME, que como o SOL noticiou em setembro antevia a necessidade de um confinamento no final do ano, tem três cenários e os dois mais otimistas assentam no pressuposto de que os países avançam com um confinamento de seis semanas, com fecho de serviços não essenciais, quando se atinge o patamar de oito mortes por milhão de habitantes, o que calculavam que aconteceria em dezembro. Foi usado este critério por ter sido o momento em que a decisão foi tomada por 90% dos países na primeira vaga, explicou ao SOL Ali Mokdad, um dos autores das projeções. Portugal fechou, efetivamente, mais cedo na primeira vaga, mas aproxima-se agora desse limiar. Esta semana registou pela primeira vez um dia com 82 mortes, embora a média diária não tenha atingido esse balanço. De acordo com as projeções da equipa, os casos continuam a subir nas próximas semanas, o que só é travado se houver uma redução extrema dos contactos (o cenário de confinamento). No início de novembro, com base nos dados de mobilidade recolhidos por operadoras de telemóveis, estimam que Portugal esteja com uma redução de mobilidade face ao que era normal antes da pandemia de 31% quando, em outubro, chegou a ser de -20%. No cenário em que Portugal consegue uma redução de mobilidade em 70% a partir do final do mês, estimam até ao final do ano que o número de mortes de pessoas infetadas com covid-19 suba para 8500, mais do dobro do que o país viveu até aqui. A 1 de março, o país poderia chegar às 13 mil mortes. No cenário em que a mobilidade e contactos se mantêm nos níveis atuais, e não havendo progressivas restrições – o pior cenário –, o país poderá chegar às 41 mil mortes no final do inverno, um cenário em que os serviços de saúde teriam de responder a um número muito elevado de doentes. Carmo Gomes adiantou ao SOL que, até ao final do ano, a projeção da sua equipa é que possam verificar-se 8 mil mortes, sublinhando que tudo dependerá das medidas e dos comportamentos. A equipa de Washington também não fecha caminhos. Ali Mokdad, que em setembro tinha dito que o objetivo das projeções é indicar o que pode acontecer, deixou esta semana ao SOL apenas a convicção de que o mundo tem um longo inverno pela frente. «O aumento de casos e mortes na Europa deve-se à sazonalidade da covid-19, que segue a sazonalidade da pneumonia. Vimos esse aumento de casos e mortes no hemisfério sul e previmos isso para o hemisfério norte. Temos um inverno difícil pela frente e temos de estar vigilantes».