Sociedade

Empresários protestaram em Lisboa no primeiro fim de semana de recolhimento obrigatório | Fotogaleria

Os empresários e trabalhadores das áreas da restauração, do comécio e da diversão noturna protestaram, este sábado, em Lisboa, contra as medidas do Governo.

Mafalda Gomes
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Texto de Maria Moreira Rato e Fotografias de Mafalda Gomes

No primeiro dia do primeiro fim de semana em que o recolhimento obrigatório entrou em vigor, a partir das 13h00, nos concelhos de maior risco do país, o movimento “A Pão e Água” saiu à rua em Lisboa. Na sexta-feira, o protesto, liderado pelo chef de cozinha Ljubomir Stanisic, acabou em desacatos entre os manifestantes e a polícia no Porto. A figura pública que ganhou notoriedade através do restaurante 100 Maneiras e do programa “Pesadelo na Cozinha” começou por gritar "Queremos mostrar que estamos revoltados com esta merda!" nos primeiros minutos da reivindicação dos direitos dos trabalhadores da restauração, do comércio e da hotelaria.

"Há uma informação que eu acho que é surreal sobre aquilo que pagamos. Qualquer um de nós que ganhe 100 euros, vai ter de deixar 23% do IVA seja onde for. Sobre isso, tem de pagar um imposto. Depois, TSU [Taxa Social Única]. Da merda dos 100 euros, sobraram 42 porque paguei 58 ao Governo. Não tivemos apoios nenhuns e, quem teve, terá de os pagar com juros. Não queremos despedir ninguém, mas sim dar pão para a casa desta gente", avançou a figura pública cujo discurso foi acompanhado por 'Depois do Adeus"'de Paulo de Carvalho.

"Grândola, Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade" foram os versos cantados em uníssono pelos manifestantes que recordaram a mensagem revolucionária protagonizada por Zeca Afonso. "A matemática é simples e os números não mentem. Durante meses, suportámos encargos como água, luz, renda, impostos, salários, Internet, telefone, sistemas de faturação, fornecedores... durante meses, aguardámos a luz ao fundo do túnel", disse Miguel Camões, um dos organizadores da manifestação, antes de elencar as medidas exigidas pelo movimento.

Quem tem sentido na pele as consequências da quebra na atividade da restauração é Mónica, de 24 anos, cozinheira num restaurante em Almada desde 2015. Concorda com os apoios solicitados, sendo que gostaria que o Estado "deixasse o setor da restauração trabalhar", pois cumprem "cada vez mais regras", considerando que "é mais do que seguro" ir a um restaurante atualmente. A jovem acrescentou que foram reduzidos os ordenados e os horários dos funcionários no estabelecimento em que trabalha porque, apesar de ter sido "levantado o lay-off", continuam sem clientes. "Trabalhamos com a Uber Eats e fazemos take-away", elucidou, esperando que haja finalmente mais "apoio para o setor que sempre ajudou muito o Estado e a Economia". Recorde-se que, na passada quinta-feira, o primeiro-ministro anunciou uma medida de apoio excecional às empresas da restauração nos concelhos em que o confinamento parcial estará em vigor neste e no próximo fins de semana. Sublinhe-se que os empresários terão de fazer uma declaração sob compromisso de honra para comprovar a faturação destes quatro dias para que esta seja comparada com a dos 44 fins de semana decorridos entre o início do ano e o final do mês de outubro. Mas, para Mónica, que lançou um olhar compreensivo ao manifestante que caminhava com um bebé Nenuco com uma corda ao pescoço pela praça, tal não é suficiente porque viu o ordenado ser-lhe reduzido "o suficiente para que faça comichão".

"Vivemos num Estado social, pagamos os nossos impostos e contribuições para que, em caso de necessidade, sejamos protegidos. Exigimos agora essa proteção", adiantou, mencionando a necessidade de obter fundos financeiros a fundo perdido de maneira a compensar os prejuízos acumulados ao longo de oito meses para os três setores, a isenção da TSU até 30 de junho de 2021, o apoio ao pagamento de rendas, a redução da taxa de IVA até 31 de dezembro de 2021, a injeção direta de fundos nas empresas "sem exigência de ter Finanças e Segurança Social em dia", o lay-off para sócios-gerente "independentemente do facto de terem uma ou mais empresas e acumularem trabalhos", o pagamento de IVA automaticamente aprovado em seis prestações, apoios reais a fundo perdido à manutenção dos postos de trabalho e à tesouraria das empresas, reforço imediato das linhas de crédito "retirando a limitação do acesso às novas a quem já recorreu às anteriores", isenção dos impostos dos imóveis arrendados durante o prolongamento dos contratos de arrendamento "caso sejam a termo por mais de três anos" e a anulação de multas por pagamento atrasado de impostos.

Aos 44 anos, envergava uma t-shirt branca com a inscrição "Pela Verdade" associada aos movimentos de cariz negacionista que têm surgido no âmbito de diversas profissões, como o "Médicos Pela Verdade" ou o "Jornalistas Pela Verdade". Licenciou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão, sendo que luta "pela verdade e pela liberdade", apoiando qualquer movimento que siga este pressuposto "não recorrendo à violência". Neste sábado, os objetivos que o conduziram até ao Rossio foram a vontade de "apoiar todos os setores porque estão a dar cabo da nossa Economia" e a luta pela liberdade do filho de 15 anos. "Isto é uma democracia ditatorial, infelizmente. Estão a tirar-nos oxigénio e sempre aprendi, desde pequenino, que respirar é parte fundamental do nosso sistema", explicou Pedro Silva, empresário que trabalha diretamente com o Estado. 

"É evidente que há muitas pessoas a sofrer muito. As pessoas que vão ter de ficar em casa vão sofrer. E há setores como o da hotelaria, a restauração, o comércio, que vão sofrer particularmente", declarou António Costa na sexta-feira, no rescaldo da aglomeração do movimento "A Pão e Água" na Avenida dos Aliados. Contudo, Pedro Silva, "completamente apartidário", querendo somente "um Portugal mais justo", concluiu que "se estamos doentes, têm de nos tratar. Não podem desviar os impostos, milhares de milhões, para a TAP ou para o BES, por exemplo", continuou, deixando claro que, na sua ótica, "a pandemia só acabará quando a União Europeia acabar com os fundos". 

O manifestante respeita "todas as normas impostas pelo Governo", mas admitiu que nem sempre o faz na via pública. "Abraço toda a gente de quem gosto. Se morrer, morro feliz", constatou enquanto sorvia lentamente o fumo do cigarro. Acerca do movimento de que faz parte, não escondeu que "há pessoas que têm interesses que se colocam à frente dos ideais", mas está crente de que "a maior parte dos membros está aqui por uma causa, pelo futuro dos portugueses em todas as áreas". O antigo motorista defendeu que "a falar é que nos entendemos", lembrando que "grande parte da população sofre de fome e miséria".

A manifestação terminou com conflitos entre os manifestantes e um jornalista, na medida em que o órgão de informação em questão tinha noticiado que apenas 200 pessoas participaram no protesto. Foram acendidas tochas negras e vermelhas como símbolo da morte da restauração.