Pátio das cantigas

‘Vender a alma ao diabo’…

Ora a verdade é que o Chega, poderá ser radical, e até populista, mas, que se saiba, nunca se mostrou adepto de ditaduras, ao contrário do PCP e no Bloco. O diabo tem várias caras...

Há mistérios que se repetem, periodicamente, na política portuguesa. Um deles, é o aparecimento em cena do diabo, invocado em julho de 2016 por Passos Coelho que, ao despedir-se dos deputados da bancada do PSD, antes da pausa de Verão, lhes recomendou que gozassem bem as férias, por que «em setembro vem aí o diabo». 

Por causa dessa ingénua citação do mafarrico, quase lhe caia em cima ‘o Carmo e a Trindade’. Agora, apesar da crise sanitária, ainda sobrou tempo à comissão política do PS para profetizar que Rui Rio anda a «vender a alma ao diabo».

Entre os dois momentos, há um traço comum de demonização das circunstâncias, que vai do inferno ao purgatório.

A permanência do maligno no discurso político tem a sua originalidade e graça. De facto, a seguir à derrota eleitoral nas legislativas de 2015, António Costa escolheu o PCP e o Bloco de Esquerda como entes salvadores da sua carreira, apesar de serem partidos admiradores de Estaline ou de Trotsky, que não eram propriamente democratas. 

Em bom rigor, Costa ultrapassou nessa ocasião ‘a linha vermelha’, ‘vendendo’ ao país tal incursão contranatura como um bom acordo.

Em circunstâncias análogas nos Açores, o PS regional, embora vencedor das eleições, perdeu a maioria absoluta, sem lograr uma maioria de esquerda alternativa. E Rui Rio aproveitou à direita nas ilhas os ensinamentos de António Costa à esquerda no continente. 

O mesmo modelo que o PS celebrou em festa no regresso ao poder, serviu agora de pretexto para vilipendiar o arranjo adotado à direita pelo PSD. Ou é amnésia ou memória curta.

De facto, para ser Governo, o PS não se importou de ‘mandar às malvas’ os princípios, e promover uma aliança com dois partidos extremistas, que sempre combatera, por serem hostis à União Europeia, ao euro, à NATO, à economia de mercado e às liberdades. Em contrapartida, reprovou agora o PSD, num misto de altivez e severidade, por este não enjeitar o apoio do Chega.

Ora a verdade é que o Chega, poderá ser radical, e até populista, mas, que se saiba, nunca se mostrou adepto de ditaduras, ao contrário do PCP e no Bloco. O diabo tem várias caras...

Mudam-se os tempos, evoluem os conceitos. Quando ‘subiu ao muro’ em desespero, António Costa justificou então a rutura com o histórico do partido, argumentando, com santa inocência, que o PCP e o Bloco de Esquerda não eram marginais ao sistema, descrevendo-os como «meros partidos de protesto». E ‘meteu no bolso’ os raros indignados, arrumando a um canto a ‘rebelião’ prometida por Francisco Assis.

Mas não há coerência que resista no Largo do Rato, quando se pressente que o muro está a abrir brechas. E o desfecho nos Açores fez estremecer o edifício…

Aliás, já o aparecimento de dois novos partidos no arco parlamentar de S. Bento fora recebido, com visível desconfiança e desconforto. Por isso, houve logo o cuidado de pôr as baterias mediáticas em estado de prontidão, bem municiadas, para travar o avanço do Chega, enquanto se mimava a Iniciativa Liberal. 

Como André Ventura insistiu em atuar, mal ou bem, pela sua cabeça, tornou-se o ‘bombo da festa’ para as esquerdas.

A azia provocada pelo seu apoio à ‘geringonça’ açoriana, equivaleu a um abalo sísmico nas hostes, temendo-se já as eventuais réplicas no continente. 

O ‘mau da fita’ foi, obviamente, André Ventura, identificado com um radicalismo que faz dele, no extremo oposto, um sério concorrente de Francisco Louçã, o ideólogo do Bloco de Esquerda, arvorado em ‘senador’, com poiso cativo nos media do grupo Balsemão. 

Em contrapartida, Ventura nem conseguiu sobreviver a falar da bola na antena da CMTV, donde foi expeditamente enxotado pela Cofina, depois de ter à perna Ricardo Araújo Pereira ou Pedro Norton, entre outros alegados benfiquistas, incomodados, em carta aberta – sem se darem conta do ridículo epistolar –, com a «instrumentalização política» do clube, que lhe atribuíam nos comentários televisivos.

Enfim, por causa da polémica das eleições regionais, Rui Rio viu-se forçado a abandonar o casulo nortenho para vir a terreiro, numa troca de galhardetes com o PS, que «veste-se agora de virgem ofendida por não conseguir uma maioria nos Açores».

De facto, perante o revés, os socialistas açorianos já sonham com eleições antecipadas para ‘corrigir’ a vontade dos eleitores.

O tropeção nestas eleições regionais não poderia ter surgido em pior altura, com o governo central acossado pelo descontrolo da epidemia, e com os antigos parceiros da ‘geringonça’ a desdobrarem-se em exigências, como se viu com o PCP, ou a ‘roerem a corda’ como fez o Bloco de Esquerda no Orçamento. 

Percebe-se que há fundados receios na família socialista de que se esteja em fim de ciclo. O ‘anticiclone’ açoriano veio baralhar as contas de muita gente…