Sociedade

Restaurantes: o pão que o diabo amassou

Muitos restaurantes não aceitam reservas para a próxima semana, pois não sabem se estarão abertos. Todos tentam resistir mas sem apoios estatais dizem que a morte do setor está próxima.

por Daniela Soares Ferreira e Joana Faustino

Vários dos mais conceituados restaurantes de Lisboa não se comprometem com reservas para a semana que se avizinha. O motivo é a incerteza relativamente às medidas impostas para travar a pandemia e também a fraca afluência de clientes. O Café do Paço e o La Campania são exemplo disso. Dos dois espaços pertencentes ao restaurante Zé da Mouraria, apenas um se encontra aberto devido à quantidade reduzida de reservas. O restaurante A Travessa também está temporariamente fechado, tal como dois dos estabelecimentos do chefe José Avillez: O Canto e a Feitoria.

Mas o que se passa com estes restaurantes não parece ser regra geral no meio. Espaços como o Cimas, o SUD, o 100 maneiras, o Gambrinus ou o Solar dos Presuntos continuam abertos.

As medidas propostas para os dois fins de semana que se seguem assustam alguns empresários mas a verdade é que o cenário já se encontra desfavorável desde que foi decretado o primeiro estado de emergência. Quando voltaram a abrir, o número de clientes diminuiu significativamente, porque apesar de todas as precauções, a população ainda se sente alarmada.

Com o início da segunda vaga de covid-19, o Governo pede aos portugueses que fiquem em casa, enfraquecendo novamente o negócio da hotelaria.

 

Mais valia dizerem para fechar

Ainda antes de serem conhecidas as novas medidas do Governo esta sexta-feira, o SOL falou com o chefe Rui Paula que não tem dúvidas: «Este ano está perdido».

O conhecido chefe relembra que os restaurantes já estiveram encerrados dois meses e meio e, apesar de defender que as ajudas foram «boas», diz que o ano continuou perdido.

A justificação é simples: «Mantivemos os funcionários mas não temos dinheiro. Não foi o mês de agosto que veio salvar isto. Só o mês de agosto é que esteve bom».

Rui Paula defende que o país encontra-se numa situação em que, «se não houver dinheiro para as empresas, ninguém vai aguentar». O problema não passa apenas pelas restrições destes dois próximos fins de semana. «O problema é a semana toda porque o mais lógico seria dizer ‘vamos fechar e acabou’. Mas eles não fazem isso, o Governo não faz isso, porque não pode. Alega que não tem dinheiro e a economia não pode parar. Mas a verdade é que as empresas estão todas mal», diz, relembrando setores como os têxteis ou o calçado.

Até porque, defende, o problema não são as restrições em si. «Então, as restrições sejam elas de fim de semana ou durante a semana, este recolher obrigatório, a pandemia em geral, leva as pessoas a não irem aos restaurantes. Como não leva à hotelaria».

Ao SOL, Rui Paula relembra que o setor da restauração e hotelaria emprega milhares de pessoas em Portugal e, por isso, defende diferentes soluções para estas empresas. «É muita gente. E, de facto, sem uma injeção de capital… e não é com moratórias porque já ninguém se vai endividar mais. Isto tem que ser dinheiro a fundo perdido, como tem de ser, nas rendas, haver um compromisso entre senhorio, Estado e empresário. Toda a gente está no mesmo barco, toda a gente tem que ajudar».

Questionado se as medidas do Governo são suficientes, o proprietário dos restaurantes DOC, DOP e a Casa de Chá da Boa Nova diz que «não é com estas ajudas que vamos a lado nenhum», apesar de realçar o esforço de algumas câmaras municipais.

Ao SOL, traduz o seu caso específico. «São 70 funcionários. Eu tenho que pagar 70 ordenados. E alguns dos ordenados – que são restaurantes com interesse turístico, com qualidade – são altos. Eu tenho um copeiro a ganhar 900 euros. É o ordenado mais baixo. Porque realmente merecem e porque realmente trabalham. Isto é um problema. E o problema é não haver gente».